O judeu da Mauritânia
Se até agora não ficou claro como tudo ocorreu, a pergunta que se faz em todos os lugares é: por que? Como explicar tamanho irracionalismo? Não seria inédito, contudo. A pedra já fora cobiçada outras vezes por homens gananciosos; já fora quebrada, desmagnetizada, rejuntada, perdida, extraviada. Há quem diga que no século VII um sultão louco do Barein a roubou e depois devolveu intacta. No século X, um califa egípcio mandou um homem destruí-la e sofreu uma maldição terrível. Os sultões otomanos, os mercenários persas e abissínios, os imperadores bizantinos, milhões de personagens tinham orbitado a pedra.
Só horas depois da declaração desastrada de Netanyahu o estado judeu solta uma nota oficial onde refuta todas as acusações. Ninguém acredita, claro. Até porque histórias mirabolantes envolvendo o Mossad circulam aos montes na blogosfera. Das mais famosas, como a obtenção de um discurso secreto de Nikita Krushev em 1956 e o seqüestro do nazista Adolf Eichman na Argentina em 1982, às mais cinematográficas, como a caça aos terroristas envolvidos no Setembro Negro e os constantes assassinatos de cientistas que colaboram com o programa nuclear iraniano.
Israel nega tudo com veemência, mas o ato falho de Netanyahu ao se referir aos “judeus loucos” e a suposta erupção de violência que tomou o Knesset horas depois do ataque à Meca sugerem que há algo sinistro no submundo político de Tel Aviv. Já os radicais islâmicos e os entusiastas da guerra total contra o ocidente alegam que não só israelenses estão envolvidos na conspiração, mas judeus influentes do mundo inteiro, que levaram a cabo um plano maquiavélico bolado por magnatas do sistema financeiro internacional e barões das telecomunicações assolados pelas mais estapafúrdias superstições. A prova seria a posição irresponsável adotada pelo NYTimes ao incitar a violência e o desentendimento entre as nações ao invés de esclarecer os leitores.
É provável, no entanto, que nem os mais estrelados militares do Mossad soubessem do plano. Não parece razoável supor que tal ordem tenha partido de um órgão do exército israelense. Antes, a trama teria sido arquitetada por alguns judeus ortodoxos dominados por fantasias a respeito do Juízo Final e do alinhamento do sol com os planetas. Mas de onde surgiram esses grupos e quais pessoas ou organizações teriam financiado a Operação Caaba?
O editorial de hoje (20) do El Pais faz um resumo do clima na Europa: “O anti semitismo voltou com virulência na Espanha. Na Inglaterra bairros judeus foram depredados. Na Alemanha os mais exaltados dizem nas entrelinhas que Hitler não estava assim tão errado quando decidiu acabar de vez com o problema. Como se o pobre judeu da esquina sequer imaginasse os planos engendrados por meia dúzia de lunáticos. O mundo está em guerra, é fato, e as frotas da Arábia Saudita devem estar cruzando nesse momento as fronteiras do Egito e da Jordânia e provavelmente serão recebidos na Faixa de Gaza como libertadores, se uma bateria de mísseis não destroçá-los antes. Fontes seguras afirmam que a ordem partiu de um grupo de judeus dissidentes que se denomina a última tribo de Israel. Tal tribo teria se perdido no deserto há milhares de anos e se espalhado pela Índia e norte da África acumulando influências místicas do hinduísmo, do panteão negro e dos deuses e ídolos pré-islâmicos num e vigoroso sincretismo religioso. Cinco séculos antes da Era Cristã um rabino da Mauritânia teria atravessado o oceano atlântico numa canoa e conhecido os impérios da América, onde estudou o calendário maia e o aplicou aos seus conhecimentos da cabala, do Talmude (livro totêmico do judaísmo) e de todo o Antigo Testamento.”
O editorialista não enlouqueceu. Versões parecidas saíram na Reuters, Associated Press e BBC sobre o judeu lendário da Mauritânia, fundador de uma ordem secreta que junta os conhecimentos da cabala e dos calendários pré-colombianos. Há uma celeuma arqueológica e historiográfica a respeito da colonização americana e todo tipo de teoria já surgiu para explicar o enorme conhecimento astrológico dos povos maias. Enquanto os teóricos da geração espontânea alegam que os impérios da América se desenvolveram sozinhos, os defensores da contaminação cultural vêem todo tipo de paralelo entre civilizações separadas por oceanos. Mais do que instalar um debate antropológico, essa incerteza quanto às origens dos seres humanos serviu a todo tipo de mistificação e loucura ao longo da história.
Ao retornar da América, o rabino da Mauritânia teria incorporado o calendário maia ao calendário judaico-cristão e espalhado o seu conhecimento entre alguns poucos judeus perdidos na África. Mas esses judeus de novo se espalharam pela Europa e pela Ásia: pioneiros da rota da seda, viajavam de continente em continente desenvolvendo um misticismo muito particular amparado nos poderes mágicos do rabino que atravessara o Atlântico há muitos séculos. A maçaroca religiosa que resultou de tudo isso é algo que o sociólogo Staurt Hall não hesitaria em chamar de “pós moderna.” Os deuses hindus se misturam aos santos católicos, Huag Ti, o Senhor Amarelo, aparece como Adão, o Primeiro Homem, e um faraó egípcio sacrifica Eva numa pirâmide do México. Objetos sagrados de todas as religiões também são adorados por esses fanáticos, por acaso os primeiros financistas, banqueiros, agiotas e estelionatários.
Ligados a elite do capitalismo global, os judeus dessa última tribo alegadamente perdida se tornaram cosmopolitas e muitos tiveram sucesso como mercadores bem quistos pelo império romano. Lançaram tentáculos no Vaticano, em Constantinopla, na corte de Carlos Magno. No período carolíngio e durante toda a Idade Média foram interlocutores privilegiados no diálogo entre cristãos e árabes. Além de mercadores e profissionais liberais, tais empreendedores teriam versado gerações e gerações na arte da diplomacia e da espionagem. O livro A Era de Ouro dos espiões judeus na Europa: Cabala, Maçonaria e Calendário Maia na Itália Renascentista, do historiador Najib Habib Jumah, publicado (e nunca reimpresso) em meados dos anos 80, parecia gozar o destino trágico reservado a certas teses de doutorado: nunca ser lido. Teorias conspiratórias envolvendo judeus são comuns em qualquer capital do Oriente Médio. Sites e blogs abertamente anti-semitas divulgam todo tipo de calúnia em relação ao sionismo e propagam o ódio entre religiões se valendo dos mais abjetos preconceitos.
Ocorre que o livro do professor Habib Jumah foi citado no artigo enlouquecido do NYTimes como a suposta prova de uma inteligência imanente por trás dos acontecimentos que ora se precipitavam. Se por um lado o autor tece críticas incisivas aos métodos não convencionais desses espiões lendários, por outro não esconde sua admiração intelectual pela ousadia deles e pela pirotecnia de certas histórias. (O livro já está disponível para download gratuito). Nele descobre-se também uma luminosa bibliografia sobre o assunto: desde a Idade Média os escribas maometanos temem e admiram essa corrente extravagante do misticismo judaico. O livro diz que um descendente direto do judeu da Mauritânia teria freqüentado a corte do sultão do Barein e o induzido a roubar a pedra da Caaba. Três séculos mais tarde um conspirador igualmente ardiloso teria dado a mesma idéia a um califa egípcio. “Quando as potências ocidentais fatiaram o continente africano no século XIX um espião judeu estava de olho na Arábia Saudita e na pedra negra” diz Jumah.
Objetos sagrados e 30 bilhões em armamentos
Teólogos alegam que adorar um objeto sagrado é análogo a adorar a divindade, sendo o objeto a manifestação concreta de um poder metafísico. Nesse sentido Deus estaria “em todas as coisas”, mas em algumas coisas mais que outras. Daí a sacralidade de lugares e objetos. Daí eles serem cobiçados. Por esse motivo o movimento sionista levou milhões de imigrantes para o deserto, a Terra Prometida cercada de inimigos, quando seria mais razoável para os judeus bilionários dos Estados Unidos comprarem uma ilha tropical como Madagascar e mandar para lá todos os expatriados da Segunda Guerra. Mas o “destino manifesto” do povo escolhido e a agenda política etnocêntrica de alguns visionários tornou realidade um sonho com ares de profecia: a fundação de um estado judeu na mesma Jerusalém onde outrora o grande rei Davi erigira seu templo.
Já os judeus extravagantes da última tribo mantiveram uma relação ambígua com o sionismo, já que seus lugares e objetos sagrados transcendiam aquele quinhão de terra e se alastravam pelos continentes. Entusiastas da busca pelo Graal (a taça usada por Cristo na Última Ceia), a Arca do Triunfo (que guarda Dez Mandamentos recebidos por Moisés), o selo perdido de Salomão (onde estão aprisionados 72 demônios), o sarcófago de Tutancâmon (peça de ouro maciço de 5.000 anos e que supostamente tem poderes mágicos), a pedra filosofal (fetiche dos alquimistas) e finalmente a pedra negra da Caaba, sempre estiveram na vanguarda do trafico internacional de alto valor agregado. E embora seja consenso que a busca pelo Graal ou pela pedra filosofal não passa de uma metáfora para o autoconhecimento – ao transformar a pedra em ouro o alquimista transforma e eleva o espírito – a existência da pedra negra da Caaba nunca foi apenas um símbolo, uma alegoria. A pedra negra é de verdade, e caiu do céu há muitos milênios.
O escritor Eirch Von Danikem vendeu muitos livros e fez a cabeça de muita gente nos anos 70 com Eram os Deuses Astronautas?, no qual sugeria que seres vindos do espaço – os deuses voadores e poderosos das primeiras mitologias – ampararam o desenvolvimento de civilizações primitivas. A perfeita geometria das pirâmides do Egito ou a exatidão acachapante do calendário maia seriam provas de que alguma inteligência educou os nossos antepassados e lhes mostrou o abc da engenharia e da matemática. É sabido que um dos ciclos do calendário maia (cada ciclo tem 676 anos, com 13 micro-ciclos de 52 anos) termina amanhã, em 21 de dezembro de 2012. É quando todos os planetas se alinham com o sol no centro da galáxia. Até agora (noite do dia 20) nada aconteceu.
Há anos teorias mirabolantes dizem que o mundo vai passar por um cataclismo nessa data, uma das conclusões a que teria chegado aquele lendário argonauta que atravessara o Atlântico. Astrofísicos afirmam que o alinhamento dos planetas vai liberar a energia de um buraco negro, um grande olho (feito de vácuo e anti-matéria) subitamente voltado para o planeta Terra. Outros defendem que o alinhamento há de gerar mudanças nos pólos magnéticos. Baratinadas, as bússolas perderiam o ponto de referência. Sistemas eletromagnéticos entrariam em pane. Aviões cairiam. Explosões de neutrino no sol poderiam chamuscar ou fritar metade da Via Láctea. Ainda para o professor Jumah, “por esse motivo, e pelo fato da pedra negra sempre ter sido considerada um pólo magnético, os ladrões que a levaram acreditam que estão salvando da hecatombe um objeto de importância cirúrgica no que tange ao porvir tão ameaçado da humanidade. Um judeu louco e multimilionário teria comprado uma espaçonave sucateada da Rússia e a recauchutado com uma bela consultoria.” Segundo alguns jornalistas essa espaçonave, versão modernizada da Arca de Noé, vai ser lançada do Uzbequistão para a estratosfera carregando meia dúzia de sábios, alguns objetos sagrados (entre eles a pedra negra) e as profecias talhadas na pedra pelo judeu da Mauritânia.
Só no ano passado os Estados Unidos venderam mais de 30 bilhões em armas para a Arábia Saudita.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faa primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Voc conhece a Revista Overmundo? Baixe j no seu iPad ou em formato PDF -- grtis!
+conhea agora
No Overmixter voc encontra samples, vocais e remixes em licenas livres. Confira os mais votados, ou envie seu prprio remix!