Minha mãe combinou com a comadre que a menina iria nos receber para nos dar sua bênção. Achei aquilo tudo muito estranho e desnecessário. Como é que uma menina franzina, mais nova que eu, vinda lá de não-sei-onde, poderia me ajudar em alguma coisa ? Mas ela tinha fama de benzedeira no interior. Havia supostamente curado algumas pessoas e adivinhado eventos pretéritos. E também entortava metais - publicaram inclusive uma matéria sobre ela num jornal popular da minha cidade. Entretanto, ainda que tudo aquilo fosse verdadeiro, eu não possuía doença alguma (não que eu soubesse), não estava interessado em saber o passado (pois já o sabia) e nem via utilidade em pedaços de metais retorcidos.
Porém, satisfazendo as recomendações de minha mãe, saí naquela tarde pra me encontrar com a tal menina. Não posso negar a curiosidade que se apossou de mim no caminho. E ainda uma vontade de confrontar a garota com a realidade dos fatos. Seria o desejo cruel de testá-la ou, até mesmo, de desmascará-la ? Talvez. Mais velho e mais instruído que a garota, e ainda morador de um grande centro urbano, tinha desconfiança de que os tais fenômenos poderiam ser apenas boataria. Crendices do interior. Talvez ela não fosse má intencionada, mas sua inocência e o convívio em meio a gente ignorante poderiam criar versões fantasiosas dos fatos. Imbuído de tais pensamentos, adentrei a casa da comadre com alto grau de ceticismo e aguçado senso de observação.
A surpresa começou logo quando conheci a menina. Era mais magrinha ainda que eu imaginava, e simplória, também. Botou a mão sobre minha cabeça e começou a murmurar palavras ininteligíveis. Senti-me meio ridículo, e também culpado por querer desmascarar a garota. Ela realmente parecia acreditar no que estava fazendo. Mas rapidamente recuperei o senso crítico, quando todos se mobilizaram para ir à cozinha a fim de que ela demonstrasse seu poder sobre os metais. Pensei comigo mesmo: por que a demonstração deveria ser na cozinha ? Claro, era um lugar onde haveria pequenos objetos metálicos. Talheres são a opção mais óbvia, embora haja outras coisas que sirvam a este propósito em uma casa, tais como pregos e ferragens de todo gênero. Voltando à história: mas não poderiam colocar no local talheres especiais, flexíveis ? Despertei desses pensamentos com a voz da menina.
- Vai, pega um garfo qualquer, escolhe.
Abri a gaveta do armário embutido e examinei com cuidado seu conteúdo. Uns dois faqueiros, aparentemente comuns, misturavam-se ali. Hesitei em escolher a peça. Qual ela queria que eu pegasse ? E por que um garfo, e não uma colher ou faca ? Examinei alguns deles e escolhi um ao acaso, apalpando-o disfarçadamente para me certificar de sua rigidez. Era de razoável qualidade e espessura. Ela percebeu minha atitude e pediu que eu refizesse o exame, o que fiz envergonhado, sem muito cuidado. O garfo era aparentemente normal. Mas sempre vinha um questionamento: não seriam esses talheres pouco mais finos, de qualidade duvidosa ? Suas pontas não cederiam facilmente a um esforço concentrado dos dedos ? Até que ponto a pressão treinada em certas partes do metal não daria a impressão de uma manipulação anormal do objeto ?
Enquanto raciocinava, a garota retirou o objeto de minhas mãos e começou a acariciá-lo com os dedos. Passava-os em toda sua extensão, rápida e delicadamente, sem exercer pressão em qualquer lugar. Em seguida, concentrou a operação na parte da haste antes das pontas. De repente, aquela área parecia ficar amolecida, moldando-se a seus suaves movimentos. Em poucos segundos, o metal estava completamente dobrado. Não satisfeita, ela passou a realizar os mesmos movimentos nas pontas do garfo. Uma a uma, elas foram se entortando em diversos sentidos, até ficarem com uma insólita aparência que lembrava uma crista de galo. Não sei exatamente o que me passou na cabeça naquele instante. Estava desnorteado e confuso. Saí de lá com o garfo torto na mão e uma estranha sensação de impotência.
Texto do livro "O Enforcado e Outras Histórias".
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!