PARAÍSO

autoria desconhecida
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PENHA DE CASTRO · São Luís, MA
7/7/2010 · 3 · 1
 

A vida lhe tem sido ingrata, ou senão, tem escarnecido do pobre coitado. A sucessão de fatos adversos, o tem condenado a uma espécie de morte moral e social, lenta e fragmentada em outras mortes.
O casamento despencou na rotina e no excesso de falta financeira. Um ódio velado, nascido do fato de que um dia um foi apaixonado pelo outro, foi o fungo que durante os longos vinte anos se nutriu da incompatibilidade do casal, corroendo cada momento da vida em comum, vomitando sobre cada fagulha do amor que um dia os uniu. O matrimonio enfadonho foi sua primeira morte.
A segunda morte foi o divórcio, que ninguém se engane, ainda é pior que o casamento infeliz. A falsa sensação de liberdade se dissolve quando se percebe que o vinculo do matrimônio de fato é eterno, permanece o mesmo desrespeito, as mesmas aporrinhações, os mesmos problemas, a mesma falta de compreensão, de dialogo e companheirismo, só que tudo a distancia. O fato é que a distancia não é só do ex-cônjuge, é de tudo, da vida construída, dos filhos, de si mesmo.
A terceira morte foi o alcoolismo, que já existia em pequenas doses, e agravou em litros, depois do divorcio. Vexames, vômitos, vadiagem, viadagem, vagabundas, verrugas, vícios, verborréia, vacilos, vazio, veneno, vesgo, vencido, foram alguns dos muitos “V” que se associaram a palavra Vodga, fazendo de sua vida sem sentido uma verdadeira droga.
O fumo,foi a sua quarta morte. Não tão lenta como muitos imaginam, nem tão pouco menos dolorosa. Os pulmões,lesos e esfolados pelas dezenas de substancias tóxicas que neles se acumulavam, abriam-se em chagas pútridas. O fôlego se perdia e os degraus que surgiam em seu caminho se multiplicavam, um simples passeio se convertia em penosa jornada.
A quinta morte foi o desemprego que se deu em virtude da terceira e da quarta morte. A perda do ofício resulta no final em perda total da dignidade, do respeito e da condição humana.Traduz-se em um olhar perdido nos dias de fome.No âmago da desesperança mora a escassez do mínimo necessário para sobrevivência.
A sexta morte foi ter sido surpreendido, em meio a quinta morte, pela notícia da doença da filha. Sofreu angustiado a impotência perante o inevitável. A sétima morte foi a morte iminente da filha.
A oitava morte foram todos os outros vícios que se acumularam. A dependência incontrolável a incontáveis substancias nocivas e proibidas por lei. O demônio entrava por suas veias, controlava sua mente, devorava seus neurônios sobreviventes e consumia seu corpo. Os anos encurtaram e a velhice precoce foi sua nona morte.
Naquela noite, Chegou chapado. Era impossível dizer se só cheirou, se foi só pico, ou se apenas, como um lorde acendeu um cachimbo de latão, com pedras brancas, e fumou ao lado de uma família de sem-tetos embaixo de algum viaduto.
O barracão, improvisado com placas de zinco e madeira, sobras roubadas de outdoors, ainda guardavam restos dos anúncios que antes emolduravam (anúncios que vendiam carros e apartamentos caros, e a juventude estampada das vitrines), era quente, e no verão, depois de ter sido sido submetido a um sol escaldante, um mornaço insuportável tomava conta de todo o ambiente durante a noite.Acostumado ao calor já quase o não sentia.
Ligou o rádio e foi saudado pela voz de Nelson Gonçalves. Inspirado abriu a garrafa de vodga (que nunca lhe faltou, mesmo depois de ter perdido o emprego), acendeu um cigarro e sentou-se na beira do colchão, que também era uma cama improvisada no chão batido, e fechou os olhos.
Pouco depois para sua surpresa ouvia a voz da filha lhe chamando lá fora.Era uma noite bem mais quente que todas as outras, ainda assim sentiu uma brisa suave entrar quando abriu a porta.
Ela estava linda, bem vestida e cheia de vida, nem parecia que tinha sofrido tanto naquele leito de hospital. Envolveu o pai com o um abraço e, em meio a um beijo suave disse: “vim te buscar”.
Vestiu o terno de linho branco, a muito esquecido, e de mãos dadas partiu com a filha.
Do lado de fora um alvoroço: polícia, bombeiros, muita correria e gente desesperada. Não se sabe como, a favela havia incendiado e já se contavam dezenas de mortos.
Ele nem ligava.Já se passavam das dez... Estava no paraíso!

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Autoria
Penha de Castro
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Sandra Santos -
 

muito bom!
grande abraço!

Sandra Santos - · Porto Alegre, RS 18/2/2011 15:46
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