O caminho não me era estranho. Eu já havia visto aquela estrada em algum lugar.
Enquanto eu caminhava por aquela estrada de tijolos amarelos, que serpenteava o relevo como uma grande cobra que rasteja para dentro da mata fechada, uma impressão de conhecer os fatos e as cenas a minha volta não deixava minha mente.
Era como se toda a minha vida estivesse passeando num carrinho de montanha encantada. Como se a cada curva, Brancas de neves e sete anões, Patos Donalds e Zé cariocas estivessem me esperando, acenando para mim, querendo me dizer algo.
Não sei como começou. Sei apenas que estava caminhando pela estrada ao lado do meu cão de nome Pirata, um vira lata com uma mancha escura sobre o olho direito. Pirata corria na minha frente e vez ou outra parava para cheirar alguma coisa. A estrada era cheia de curvas.
Numa dessas curvas dei de cara com uma grande estação de trem. A grande locomotiva lembrava muito meu Ferrorama XP 400. Ao longe eu podia ver a ponte por onde o trem subia e descia para a grande curva. Pirata latia. Abanava o rabo.
Enquanto caminhava pela estrada tinha a impressão que nada daquilo poderia ser verdade. Durante o percurso eu encontrei com velhos amigos de infância, vários deles. Todos me acenavam, com um sorriso em seus rostos, como que felizes por me ver. Num canto alguns andavam de skate numa pista super maneira. Tive vontade de sair da estrada e ir lá brincar também. Num canto da pista, parada sobre o descanso, estava minha Brandani com amortecedor. Uma bicicleta que eu tive quando moleque.
Quanto mais caminhava pela estrada de tijolos amarelos, mais fascinado com o que via eu ficava.
Encontrei minha paixão de criança. Ela estava linda naquele vestido cor de rosa com a estampa do ursinho carinhoso. Minhas Professoras. Minha avó com um grande bolo de chocolate me oferecia um pedaço enquanto eu passava. Seu sorriso ainda era o mesmo. Do outro lado, meu avô pintava um belÃssimo quadro. Eu podia ver a grande árvore de natal, cheia de presentes, numa clareira perto de um lago. E percebi que o lago era o mesmo que tomávamos banho quando mais novos, eu e meus primos. E por falar neles. Estavam todos lá, perto do pequeno pÃer, se preparando para mais um mergulho.
Eu e Pirata continuamos nosso caminho.
Em alguns momentos eu ficava imaginando se tudo aquilo não era um sonho. Talvez um resquÃcio alucinógeno daquele ácido num Reveillon em Ubatuba milhões de anos atrás. Até mesmo porque, meu cachorro Pirata já havia falecido fazia cerca de 15 anos.
Mas ao mesmo tempo em que tudo parecia irreal, era calmo e tranqüilo. Não me dava qualquer tipo de medo ou pavor, pelo contrário. Dava-me paz. A paz que tanto eu parecia querer.
Numa das curvas que a estrada fazia, um homem de lata se aproximou. Com um sorriso em sua cara de balde, me perguntou se poderia caminhar ao meu lado. Queria encontrar a Rainha de Copas e lhe pedir uma camisa de flanela, pois naquela época, fazia muito frio no fim dos dias e isso fazia tremer suas juntas metálicas. Disse-lhe que não sabia ao certo onde ia dar a estrada, mas que poderia me acompanhar se assim desejasse. Ele calçava um Kichute com o cadarço preso aos tornozelos de lata, que me fez lembrar de um que eu já tive quando mais novo.
Continuamos caminhando pela estrada. O céu azul e o sol no alto pareciam uma aquarela pintada por Toquinho. A cada curva, uma surpresa que me fazia sorrir. Amigos de escola, de faculdade, meu primeiro carro, algumas ex-namoradas. Nada nem ninguém parecia triste ou infeliz. A alegria era a fantasia mais surreal daquele cenário.
Num canto da estrada eu vi uma grande estante com livros. Lá podia ver exemplares do "Gênio do Crime" e "Caneco de Prata" de João Carlos Marinho, "O escaravelho do Diabo", "As aventuras de Xisto", "O rapto do garoto de ouro", entre outros. Até mesmo meu exemplar do "Caminho Suave" estava lá.
Do outro lado, num palco improvisado, o grupo "A turma do Balão Mágico" cantava Superfantástico. Estavam todos lá, Simoni, Toby, Mike e até o Fofão. Que fantástico.
Aquilo era totalmente inexplicável. Surreal. Isso não podia estar realmente acontecendo. Só poderia ser um sonho. Um sonho bom. Um bom sonho.
Foi então que percebi que estava vivendo no passado. Que por mais que estivesse há anos-luz de distância daquele mundo, minha mente vivia num passado que não voltaria mais. Que não retornaria para me dizer "Oi... lembra como tudo era fácil e divertido? então, agora tudo é diferente, difÃcil e chato!"
Eu vivia no passado. Preso no tempo que já passou. Acreditando que tudo um dia seria como já foi algum dia...
Foi então que tudo a minha volta começou a se desfazer. Uma ventania se formou e parecia levar junto com ela tudo que estava ao meu redor. Pirata latia enquanto sua imagem ia sumindo junto com o vento, o Homem de lata acenava sorridente enquanto desaparecia em milhões de minúsculas partÃculas. Os brinquedos, os livros, os amigos e antigos amores. Tudo se foi num enorme ciclone. E a estrada de tijolos amarelos começou a desaparecer por debaixo dos meus pés. Até que o último grão de areia amarela sumiu.
Eu deixava para trás a fantasia do passado e voltava para o difÃcil presente.
E de repente eu estava novamente na grande avenida abarrotada de gente. Parado em frente ao carrinho de churros, com as pessoas desviando de mim. Algumas me olhavam com se eu estivesse atrapalhando a passagem, como se fosse algum tipo de maluco atrapalhando o trânsito. O tio dos churros me olhava com ar de desprezo.
- Como é? Vai querer o churros ou não vai?
- Vou sim. Obrigado.
E sai andando em direção ao futuro.
A momentos em que é necessário esquecer o que passou para podermos seguir em frente. A vida não está preocupada conosco. A vida diverte-se as nossas custas...
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