O inÃcio e final de “Onde os fracos não têm vez†(2007) são marcados por discursos pessoais e contundentes do xerife Bell, (Tommy Lee Jones) que representa a voz da razão em meio aos eventos brutais que compõe esta adaptação dos irmãos Joel e Ethan Coen para o romance “No country for old men†(tÃtulo original, que faz muito mais sentido do que a tradução ao português), de Cormac McCarthy. A obra começa com uma reflexiva narração em off do personagem, acompanhada por imagens de uma árida paisagem do oeste americano, perto da fronteira com o México. O xerife demonstra seu orgulho e admiração pelos homens da Lei de antigamente, como seu pai e seu avô, que, muitas vezes, cumpriam com o dever sem o uso de armas de fogo. Como legado, assumiu também este trabalho cuja missão um dia lhe parecera muito simples: prender os criminosos e preservar os inocentes, evitando sempre cair num abuso de poder ou na violência desmedida. No entanto, este objetivo já não é mais tão claro quanto na época de seus antepassados, havendo uma clara mudança na perspectiva do xerife quanto à violência presente na civilização ao seu redor.
De fato, não são os pequenos atos de violência ou crimes rotineiros que o abalam, mas sim uma alteração no perfil psicológico dos criminosos, evidenciada pela frequência com que vêm cometendo atos isolados de selvageria extrema nos quais é inútil buscar qualquer resquÃcio de bom senso, motivados, muitas vezes, por um sadismo doentio. Como ele mesmo aponta; “Os crimes de hoje são difÃceis de compreender. Não que eu tenha medo... só não quero apostar minha vida e dar de frente com algo que não entendo. Pode-se dizer que seja meu trabalho lutar contra esta ameaça, mas eu não sei mais o que ela representa. Mais do que isso, eu não quero saber. Um homem teria de colocar sua alma em jogo. Teria de dizer a si mesmo: tudo bem, eu farei parte deste mundo...â€. Com este brilhante monólogo inicial, o espectador ingressa nesta viagem proposta pelos irmãos Coen sobre a inclinação da sociedade americana à truculência e ao conflito, num contexto pós-guerra do Vietnã e já no fim da Guerra Fria.
O espectador passa a acompanhar o personagem de Llewelyn Moss (Josh Brolin), um homem rude e simples que, enquanto leva sua vida normal caçando no deserto, dá de frente com a cena de um crime, com vários mortos num tiroteio, uma maleta com dois milhões de dólares e uma grande quantidade de heroÃna. Cedendo à ganância, Moss leva o dinheiro, mesmo tendo consciência do perigo que isto implica. Começa, então, uma intensa caçada humana, quando Anton Chigurh (Javier Bardem, num desempenho assustador), um assassino impiedoso e desapegado, passa a seguir os passos de Moss, atravessando a bala qualquer um que cruze seu caminho ou lhe cause o mÃnimo de inconveniência, enquanto os mexicanos que perderam sua parte em drogas na negociação, também correm atrás do prejuÃzo. E o xerife Bell procura, no meio deste cenário de ganância e crueldade, fazer justiça, impedindo que inocentes morram e que mais desgraças aconteçam.
O trecho final do filme, mais contemplativo em seu tom de anticlÃmax, causa estranheza ao espectador acostumado à habitual overdose de ação dos roteiros hollywoodianos. Nada vem esmiuçado para uma fácil compreensão, e é justamente esta desaceleração da trama, aliada a brilhantes diálogos, que permitem uma reflexão sobre os acontecimentos da história em contraponto à filosofia de vida do xerife Bell. Assim, o impacto desta última parte emerge de uma frustrante resignação em reconhecer a impossibilidade de evitar a cadeia de eventos que leva o lado maquiavélico a sobressair. Uma visão pessimista, de fato, com os rumos da sociedade. O monólogo do xerife Bell, com seus olhos tristes e desapontados, na última cena do filme, é comovedor quando se compreende a dimensão simbólica de seus sonhos da noite anterior. Após acompanhar suas intenções de justiça caÃrem por terra numa avalanche de mortes desnecessárias, torna-se claro seu temor do julgamento final e a inevitável comparação entre sua vida e a de seu pai falecido.
Após o excelente drama “Fargoâ€(1996) e as comédias não menos geniais “O grande Lebowskiâ€(1998) e “E aà meu irmão, cadê você?â€(2000), “Onde os fracos não têm vez†chegou em 2007 para consagrar os Coen como dois dos melhores cineastas americanos em atividade. É, antes de tudo, uma obra que reflete a mudança dos tempos sob a perspectiva de um sujeito mais velho e experiente, que presenciou esta transformação no modo da sociedade americana encarar seus valores. Enquanto era possÃvel aos homens da Lei de antigamente saÃrem de uma enrascada sem apelar para a violência, agora é preciso encarar uma espingarda com silenciador e um tubo de ar comprimido que serve como a mais letal das ferramentas diante da ingenuidade da vÃtima. O xerife Ed Tom Bell, um homem das antigas, não penetrou neste universo. Voluntariamente ou não; nem ele mesmo sabe. Mas um sentimento de culpa, sem dúvida, o marcará para o resto da vida.
Uma análise sobre o universo violento
de “Onde os fracos não têm vezâ€, dos irmãos Coen.
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