A CIDADE ENTRE AS PERNAS

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Eduardo Alves Bahia · Salvador, BA
19/10/2007 · 34 · 2
 

Hoje é domingo, 14 de outubro de 2007, exatamente 21 h e 26 minutos em Salvador, capital do estado da Bahia, ó quão dessemelhante.
Fazem alguns minutos que cheguei em casa.
Dentro do ônibus, voltando, enquanto passava pela avenida, não sei o nome, que liga Ondina ao Rio Vermelho, o ônibus parou num sinal.
Na rua, um homem, com certeza um estrangeiro pelo tipo físico e por uma evidente ausência de brasilidade à primeira vista, estava acompanhado por duas mulheres negras. Ele era branco, de olhos azuis.
O homem baixou as calças, se virou para o ônibus e mostrou o cu.
O cu, sem qualquer cerimônia, exposto a todos os ocupantes do ônibus. As mulheres que o acompanhavam, riram sem qualquer pudor. A mulher que estava na cadeira atrás da minha, também riu, e acordou a criança que estava em seu colo, e recebeu censura do marido.
Deu vontade de me virar e dizer a ela que estava rindo de si mesma.
O cu daquele homem era a minha gente, a minha cidade, era o escárnio, era o despudor, era a cusparada na nossa cara, era o descaramento, era a afronta e era a própria cidade torpe e caótica, visível e à mostra.
Antes de qualquer coisa, quero agradecer ao homem, por ter nos mostrado o cu. Nós somos aquele cu, merdado e falido, num out-door na avenida.
Esta cidade de salvador é aquele cu, sem nenhuma prega a menos, e com uma hemorróida imensa, hemorrágica e pustulenta.
As mulheres negras que riam ao acompanhar aquele homem riam de si mesmas também, mas estavam imunes, imantadas na aura célebre do cu recém içado à fama repentina.
O homem então, era o rei da Inglaterra coroado na avenida fétida a mijo, como tudo aqui, e naquele momento também cagada de escárnio e desprezo por todos nós.
Então, cá estamos, na terra da felicidade, este parque temático disfarçado de capital baiana, de pernas abertas a todos, de qualquer lugar e em qualquer tempo. Assim aquele homem se sentiu. Assim eles se sentem, os loiros, brancos de olhos azuis e estrangeiros, que vêm arrombar as nossas putas e nossas meninas.
Trágico eu? Radical, eu? Efeitos da indignação, meus caros... Vinde a mim os indignados, eles ajudarão a erguer o reino da cidadania. Enquanto essa cidade se notabilizar apenas pela passividade e indolência que coixistem com essa sensação de alegria coletiva e imposta, estamos realmente no bueiro, no ralo, na merda, dentro do cu daquele homem.
Enquanto os estrangeiros fudedores virem pra cá espermizar a terra de todos os santos, estaremos todos prenhos da burrice e da ignorância colonialista que eles nos reservam e impõem. Enquanto formos essa indústria de felicidade instantânea e essa simpatia fast-food, estaremos relegados à condição de sub-raça servil e subjugada.
Não estou pregando que nos transformemos em xiitas, ou niilistas, ou ufanistas. Estou buscando a revisão dos valores perdidos e obsoletos. O que nos caracteriza como povo é uma idéia de descontração imediata que sempre se confundirá com permissividade e incapacidade individual. Pois só funcionados em bloco, com trio e abada.
Individualmente vamos nos encontrando, discordando, concordando, mas querendo a mesma coisa: uma cidade mais limpa, mais igual, menos privilegista de panelinhas e oligarquias, menos receptiva a compradores do nosso sossego invendável e digno.
Individualmente nós precisamos de diversidade e idéias úteis para um futuro justo e comum a todos. Sem perder a graça natural e nosso jeito de ser assim, como somos, únicos e inimitáveis em tantas façanhas e mumunhas.
Assim somos e precisamos ser. Menos idiotas, isso não.
Aquele cu fala de nós, mas não devemos estar ali, em suas dependências.
Ele serve de espelho ao que não precisamos ser.
Chega cara, agora veste a roupa e se manda daqui.




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Ize
 

Gostei. E acho que vc está coberto de razão. Se eu fosse vc tinha mandado ele tomar no que ele mostrou.
Abraço

Ize · Rio de Janeiro, RJ 15/10/2007 01:45
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Paulinha Barboza
 

E assim se comportam tantos outros estrangeiros que aqui chegam, para os quais damos graças como se fizessem favor em nos visitar. E da mesma forma agem na 'avenida fétida' ou dentro de uma Universidade, como pude presenciar recentemente. Não se fazem de rogados quando questionados sobre este tipo de comportamento: "aqui as coisas são mais liberadas, na Europa tudo é mais formal."
Está mesmo na hora de nossa terra deixar de ser um bordel para os gringos, mas, para isso precisamos ter mais postura, respeito por nós mesmos.

Paulinha Barboza · Camaçari, BA 15/10/2007 11:15
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