A Mídia e a Música

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Igor Cruz · São Paulo, SP
18/10/2007 · 29 · 0
 

Discussões se entornam pelos becos de galerias urbanas, sobre o modo como se conserva a música hoje em dia ou ontem, um dia. Não, eu não sou bem assim velho. Peguei pouco tempo essa fase do vinil e pelas galerias que andei na cidade, vi e ouvi muita coisa, acompanhei a transformação do mercado musical, a troca das mídias, peguei pouco da fase de gravações ou de presentes modestos que se davam aos amigos, ou quem quisesse e tivesse interesse na música que eu tinha ou que outrem tinha, seguindo um duo modelo vinil-fita, um pouco mais adiante, o cd-fita, mas a fita-cassete ali ao alcance de quem não tinha, o disco ou a grana.
Não mudou quase nada com a tecnologia. Continuo entregando meus presentes, as músicas que eu julgo necessárias e boas para os ouvidos do merecedor, porém, o modo como se fazia, o processo da gravação mudou e muito. Se eu tinha uma bolacha interessante a alguém, seja um pedido ou um presente, o ritual era diferente. Eu, cuidadosamente colocava a bolacha preta embaixo da agulha, deixava passar o som pra ver se estava tudo certo e pensava comigo, “olha o som que eu vou gravar...”, voltava a agulha para o seu lugar de origem e o sistema parava. Pegava a minha caneta Bic esferográfica, depois de destruir a embalagem da fita-cassete, introduzia mais ou menos um terço da caneta e posicionava a fita no ponto certo do leitor de gravação. Antes disso, eu sempre passava um Cotonete (ou haste flexível com algodão...) no cabeçote, o leitor que viria a gravar o que eu prepararia naquele forno. Posicionava a fita cassete e, com o dedo indicador e o médio da mão esquerda, eu pressionava dois botões (play / rec) e com o dedo indicador da mão direita eu pressionava “pause”, que era pra deixar a fita ”no ponto”. Cuidadosamente eu levava a agulha até a primeira linha da primeira faixa do disco, enquanto isso, eu também pressionava o “pause” novamente, que era para “soltar” a fita, quase que simultaneamente. Pronto estava rolando o som. Caneta e papel na mão, por que a fita tem um encarte para podermos escrever as músicas que estavam sendo gravadas. Havia fitas de uma hora e de uma hora e meia, dois lados, lado A e lado B, eu perdia bem umas duas horas para terminar uma fita de uma hora. E um detalhe muito importante, eu ouvia as músicas inteiras, sem cortes, sem pular de faixa, eu curtia cada compasso da música e seu gravava aquele mesmo álbum novamente, eu pegava mais detalhes daquele som, eu me lembro de cada prato que batia diferente, do baixo mas agudo de uma música ali ou um riff de guitarra mais baixo aqui.


Como disse, continuo entregando meus presentes, só que agora de uma forma bem diferente. Gravo em “megas” ou “gigas” e não necessariamente em minutos ou horas. A mídia mudou, em vez de fitas-cassete, cds virgens ou pen drive para quem quer “gigas” e urgência no assunto. Mas ainda tenho o (menor) trabalho de selecionar os sons que podem fazer o consumidor da minha escolha “pirar” com o som. Não tem ritual e eu não ouço a música no momento em que gravo para alguém, pois o sistema não me permite que isso ocorra. O que eu consigo é apenas rapidez e a conclusão da minha prazerosa tarefa. Claro que em outros tempos eu tinha “tempo” para não fragmentar o meu conhecimento musical, a apreciação da arte, do trabalho de artistas que demoraram e suaram muito para concluir aquele projeto que se transforma agora em uma pasta virtual e é imediatamente armazenado numa mídia e entregue para um terceiro. No meu caso o mp3 player cumpre bem o seu papel, o sons do carro também, basta ter a tecnologia disponível. O que me preocupa é a dispersão da música pelo modo como ela “comercializada” ou “pirateada” hoje em dia. A música sempre foi pirateada e comercializada, mas de um modo que surgisse o interesse das pessoas pelo artista ou pelo grupo que sempre trabalharam com muito gosto para o entretenimento do público, até um pouco ingrato, é verdade. Fora do circuito alternativo, é nítida a percepção de que a música foi subtraída do público, dado o não controle da adaptação das novas tecnologias ao mercado cultural. Mas é assim, uma discussão que pode levantar outras que não estão exatamente em questão para este escrito. A intenção é levantar a poeira do deserto musical e fazer com que as pessoas não exatamente “pirateiem” mas que compartilhem a música, seja ela qual for, seja lá como for.

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