Os carregadores de piano desenhados por Manu Maltez nos cartazes da 10ª edição do Mó! Movimentação Musical são sintomas de algo fundamental sobre a realidade de quem produz música autoral nos dias de hoje: não basta o talento, o estudo, a dedicação, o trabalho... é preciso estar desperto para as necessidades políticas e econômicas que envolvem a atividade artística, num país onde cada vez mais nos acostumamos à idéia de que cultura é algo que deva ser subvencionado (pelo governo ou pelas empresas), e pela qual não devemos pagar integralmente.
Se ao defendermos o direito do cidadão à cultura através de sua inclusão na lógica da subvenção estamos, por um lado, distanciando seus resultados e processos da esfera e do estigma de um “produto para consumo”, passando a encará-los mais como serviços de interesse público/coletivo (como a saúde e a educação), por outro, estamos correndo o risco de ver este discurso legitimando a prática da cultura como mero acessório dos departamentos de marketing das empresas que a subvencionam. Em um país onde a teoria muitas vezes contraria a prática, talvez seja por demais arriscado apostar em um modelo de gestão cultural como o que temos visto atuar sob as bases da Lei do Mecenato (Lei Rouanet). Um caminho possível tem sido, como no caso de Manu Maltez e seus parceiros, “carregar pianos”, e buscar integrar outras habilidades além daquelas essencialmente ligadas ao universo artístico.
É na esteira desta realidade que os grupos que organizam, produzem e atuam no Mó! Movimentação Musical trabalham desde 2006. O evento é uma mostra itinerante organizada e produzida por artistas de São Paulo, identificados mais por uma ética comum do que por uma estética particular: a busca pela autonomia para criar conteúdos genuínos. E isso nos dias de hoje pode ser considerado, por si só, uma proposta radical. Este ano o evento acontece no dia 11 de Outubro, pela primeira vez no palco do Auditório do Ibirapuera, na capital paulista. É uma boa oportunidade para quem quer ter um panorama do que se tem feito na cidade em termos de criação musical.
Nesta busca de autonomia para desenvolverem suas carreiras, os artistas envolvidos na mostra já entenderam, talvez mais na prática do que na teoria, que o caminho para a sobrevivência neste início de século é a adequação aos princípios preconizados por pensadores como Edgar Morin, Fritjof Capra e Gregory Bateson, para os quais o futuro será daqueles que forem capazes de integrar diversos campos do saber, aprendendo a enxergar os diversos fenômenos em suas interações, mais do que em suas estruturas particulares.
Por isso os artistas envolvidos no Mó! não esperam pelo gestor cultural que os salvará, e aprendem na marra a se organizarem produtivamente. Por isso têm vontade de explorar inflexões entre linguagens, seja dentro da própria música (popular e erudito, eletrônico e tradicional), seja entre áreas artísticas distintas (o teatro, o vídeo, a dança, a literatura). Por isso, enfim, há a busca pelo equilíbrio delicado entre a diluição das estruturas que definem e separam essas linguagens, e a sua conservação, para que haja um conteúdo a ser comunicado.
No fim das contas, é isto o que a realidade da produção cultural e artística, com suas crises e dilemas, tem pedido (e mesmo exigido) de todos nós. Que saiamos de nossas posturas rigidamente estabelecidas, de nossos medos arrogantemente transformados em verdades, de nossas verdades covardemente transformadas em intransigência. E que sejamos capazes de integrar instâncias que historicamente estiveram desarticuladas, competindo de forma cega pela legitimidade de seus interesses: a arte, a economia, a política, as manifestações culturais da tradição, todas cooperando para a construção de padrões de realidade melhores e mais interessantes do que os que temos visto e vivido nos dias de hoje.
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