Atualmente, fala-se tanto em violência urbana, tráfico de drogas, menores abandonados que as favelas cariocas estão virando atrações de programa de auditório. Entretanto, por que esse enigma que há anos vem assassinando crianças, jovens e adultos nas periferias só agora entra em discussão no meio acadêmico e nas mesas de bares da Zona Sul? A resposta poderia ser óbvia se não soasse tão mal aos ouvidos dos que lerão esse texto: aqueles que estão em suas coberturas contemplando o mar em frente ao seu apartamento nunca ouviram o disparo de uma bala de fuzil tão de perto!
Filmes como Cidade de Deus, Quase dois irmãos, Falcão, Ônibus 174, Notícias de uma guerra particular entre muitos e os livros Cabeça de porco, Abusado e Meninos do tráfico, Mulheres do Tráfico, Elite da tropa – chamam a atenção para a relação dos moradores das comunidades com a polícia, o tráfico de drogas e as conseqüências na parte asfaltada e “civilizada” da cidade. Talvez por isso sejam os campeões na lista dos mais assistidos e vendidos. Essas discussões e reflexões que giram em torno dessas dificuldades sociais são válidas, mas não efetivas e pragmáticas. Isso por haver, talvez, uma inversão na intenção dos cineastas e escritores quanto a sua obra. Os filmes e livros não podem ser apenas vistos para se atingir um prazer como são as tragédias ficcionais. Deve-se dar um freio imediato na glamourização dessas obras, pois elas – se não retratam um episódio verídico – são inspiradas na realidade de pessoas que vivem à margem da pobreza e do descaso do Estado.
Uma vida na Rocinha não vale menos que outra na Vieira Souto. Enquanto imperar a idéia de que os valores para os favelados são distintos daqueles que moram no asfalto ainda veremos muitos filmes de violência urbana que só nos fará sentir culpados até a próxima cena. Toda a produção literária e cinematográfica sobre esse tema expressa o grito desesperador de socorro dos principais personagens dessa trama. Não podemos esquecer que essas questões sociais críticas destroem famílias e não dá perspectiva de futuro para crianças e jovens. A única saída digna para essa gente é se render às ilusões momentâneas do mundo das drogas que regem o cotidiano nas favelas. Enquanto o tiroteio estiver comendo solto no alto do morro, a insônia há de nos fazer refletir e a dor de cabeça deve incomodar até que o remédio solucione a trágica realidade carioca... A dor já é insuportável!
Texto publicado na Revista Conexões Urbanas, do AfroReggae - Março de 2008. Nº11.
Acho que de fato pode estar ocorrendo uma glamourização da violência, mas acho que a produção de filmes e conteúdos culturais abordando estas temáticas permitem que quem nunca ouviu um disparo de fuzil possa também pensar que pode estabelecer uma outra relação social e ajudar a reconstruir uma nova sociedade.
Eu não acho que preciso ir preso para entender que o sistema prisional brasileiro atual não contribui para melhoria da sociedade. Mas um filme como "O Prisioneiro da Grade de Ferro" me ajuda a ver esta problemática sobre outra ótica. Não cresci numa favela, mas ver a história do vocalista no Afroreggae no filme "Favela Rising" me estimulou a discutir o tema em palestra pública aqui em Porto Alegre.
Um texto realmente importante.Não precisamos viver os problemas para nos pronunciarmos e ajudar.Acho que é a falta de solidariedade e amor o que torna ainda pior o momento que vivemos.Um abraço e parabéns pela matéria.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 6/4/2008 13:36Para comentar é preciso estar logado no site. Faa primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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