Um fenômeno da contemporaneidade, bem detectado por Charles Bukowski, é a enorme e definitiva presença, em todos os cantos, de perdedores. Os chamados losers são facilmente identificados não somente por serem ininterruptamente vilipendiados, mas por formar uma massa de idiotas brutalizados que se acham, no entanto, infinitamente espertos e que gostam de ser chamados frequentemente de cidadãos, embora este termo, se tomado ao pé da letra, não tenha muito a ver com isso.
O escritor alemão exemplifica sua percepção relatando sua experiência nas freeways e nos hipódromos. Ele vê sujeitos que apostam nas corridas de cavalo não exatamente para ganhar, mas para alimentar uma tola ilusão de um dia ganhar, mas não ganhar um pouco: ganhar bastante, muito, milhões ou bilhões de dólares ou reais. “Nenhum deles escolheu um vencedor. (...) Digamos que cada um deles escolhesse um número como 1, 2 ou 3 e ficasse com ele, automaticamente escolheria um vencedor. Mas, pulando de número em número, de algum forma conseguiram, usando todo seu poder cerebral e know-how, continuar perdendoâ€. Mas, pergunta-se Bukowski, por que, mesmo agindo tão tolamente e perdendo sempre, continuam indo à s corridas? Para alimentar o sonho de ganhar bastante, ele sugere.
É a lógica da infinita maioria de apostadores dos jogos de números, como a Sena, a Mega-Sena, a Quina e penduricalhos. Eles imaginam ser possÃvel ganhar um ou dez milhões, enquanto as chances conspiram contra numa proporção de algumas dezenas ou centenas de bilhões. Os talões de apostas informam sobre essa trágica desvantagem, mas eles continuam tentando. É possÃvel que o que lhes faça agir assim seja a crença de que cada um dos perdedores alimenta: a de ser especial. É contraditório, mas cada pessoa-massa crê apaixonadamente na sua singularidade diante da sorte, embora a realidade lhe desminta isso a todo momento.
As modernas técnicas de comunicação parecem se moldar perfeitamente a essa situação lamentável e tudo indica que não apenas se amoldam a ela, como ajudam decisivamente a lhe dar forma. Recentemente, a Folha de São Paulo publicou, em um de seus cadernos, uma esclarecedora matéria sobre o Facebook, um sÃtio de relacionamentos da internet. Ao completar seu quinto aniversário, o Facebook já arregimenta 200 milhões de usuários, informa a Folha. Trata-se de um espaço que serve de veÃculo para expressões do ativismo polÃtico, bem como das mais diversas manifestações individuais e coletivas. Os brasileiros conhecem bem um sÃtio semelhante, o Orkut, que tem as mesmas caracterÃsticas supostamente democráticas.
Não há nada democrático nisso, ou se há se pode entender apenas como fruto de uma concepção de democracia como veÃculo de manipulação de massa. “Mas se o Facebook está disposto a dar voz aos usuários, não necessariamente quer ouvi-losâ€, diz a matéria. Quer dizer: falar você pode, mas quem te ouvirá? Esse é o espÃrito comum que une os losers.
Esses meios de comunicações da internet servem mesmo é para dar lucro, não apenas aos seus administradores, mas à s diversas empresas que o usam como terreno de pesquisas de nichos de mercado e vendas diversas. “O Facebook recentemente introduziu ferramentas publicitárias que permitem à s empresas focar em usuários com base no idioma usado e na sua localizaçãoâ€, diz a Folha. Assim, podem explorar melhor as fantasias de perdedores latinos que moram em Los Angeles ou otários francófonos habitantes de Montreal. Todos eles falam, se expõem, quem sabe na esperança de dizer algo, mas o que fazem é bancar as ovelhas que adoram informar aos lobos onde gostam de pastar.
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