amor e memória: tragos no Tempo

1
Juva · Olinda, PE
20/11/2006 · 98 · 0
 

O amor define o humano – e é por este definido. Essa máxima que parece um disparate à primeira vista pode servir para encontrarmos as razões de fundo da existência humana; pode funcionar como um vetor que dota de sentido o jogo errante das vidas dos “bípedes implumes”, os seres humanos. Poderíamos escolher outros sentimentos para averiguar o caráter dos Homo sapiens e seríamos tão sinceros como agora. A raiva também define o humano. A angústia e o desespero também.

Não importa para onde lancemos o nosso olhar, para onde apontemos nossa vontade, encontraremos algum lastro capaz de dar sustentação ao precário projeto humano. Mas o caso é que escolhemos realizar nossos comentários a partir do amor para procurar lançar uma luz (ou deixá-lo à sombra) sobre o filme “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, do diretor francês Michael Gondry. Aqui e ali, desviaremos nossa rota, realçando outras leituras, pontuando questões como verdade e memória, por exemplo. Tudo para que possamos ampliar as possibilidades de leitura do presente objeto.

Um filme pode ser lido de maneiras variadas. Bons filmes podem ser lidos de maneiras infinitas. “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” parece se encaixar mais na segunda categoria. A sua fotografia é excepcional e potencializa os temas discutidos e levantados pela película. O roteiro do genial Charlie Kauffman é um retalho bem resolvido sobre personagens profundamente humanos, sofredores, reais, homens e mulheres de carne, osso, memória e esquecimento. As interpretações de Jim Carrey, Kate Winslet, Elijah Wood, Kirsten Dunst, Mark Ruffalo e Tom Wilkinson são interessantíssimas. A direção de Gondry é leve e garante um status filosófico, sem cair no hermetismo tão comum aos filmes com temáticas complexas. Apesar disso, “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” é um filme simples. Um filme sutil sobre os problemas do amor, sobre as dificuldades de uma relação humana. “O amor é incomunicável. Fique quieto no seu canto. Não ame.”1 Essa pode ser uma leitura do filme. O ser humano só pode ser enquanto se constrói no diálogo – e o diálogo mais significativo é a junção dos corpos e das almas. Pode sugerir uma outra. O título do filme dá algumas pistas para seguir.2 Comecemos a re-fazer o percurso do filme para explorar seus temas. Extrair o sumo, o suco e o suor.

“Brilho Eterno...” começa com uma cena de Joel Barish (Jim Carrey) acordando. Em seu princípio o filme já parece apontar para as questões que lhe interessam. As fronteiras entre o “real da vida cotidiana, o estado de vigília” e o lado oculto do sono e do sonho parecem se diluir, “real” e “sonho” se embrenham um no outro, se comendo e se criando. Joel sai de casa, olha seu carro com uma batida na lateral, fica intrigado e sem saber muito bem o motivo, vai para Montauk. Vaga na praia durante um tempo e retorna de trem. Aí, ele (re) conhece Clementine Kruczynski (Kate Winslet).

O que para o espectador do filme é o primeiro encontro do casal é o re-encontro das almas de Joel e Clementine, que estavam separadas desde que ambos passaram por um processo de apagamento das memórias afetivas (ela o apaga primeiro da memória e depois ele tenta apaga-la). Daí o filme retorna num flashback para uma fase anterior na vida dos dois. Joel procura Clementine em seu trabalho, mas descobre que ela não o conhece mais. Ele descobre que ela realizou um processo de apagamento da memória, descobre que simplesmente “foi apagado da mente de sua amada”. Um poema de Ferreira Gullar ilustra, de certa maneira, esse desconforto diante do esvaziamento do reconhecimento amoroso:

Quando você for se embora, // moça branca como a neve, // me leve. // Se acaso você não possa // me carregar pela mão, // menina branca de neve, // me leve no coração. // Se no coração não possa // por acaso me levar, // moça de sonho e de neve, // me leve no seu lembrar. // E se aí também não possa // por tanta coisa que leve // já viva em seu pensamento, // menina branca de neve, // me leve no esquecimento. 3

Joel Barish, ao contrário, não fica satisfeito em ser carregado no esquecimento de Clementine, e então decide realizar o mesmo processo. E é no processo de apagamento da “memorabília”4 de Joel que veremos ser reconstruído a vida do casal, seus momentos felizes e suas intempéries.

Não deixa de ser interessante observar como se dá o tratamento para que a memória seja apagada. A descrição do procedimento é bem simples: o paciente deve buscar os objetos que aludam ao ser que desejam banir da memória, leva-los ao médico, reagir a esses objetos, ter o cérebro mapeado enquanto reage aos objetos e, finalmente, ter os “arquivos” cerebrais que foram mapeados destruídos.

O procedimento mostra a dimensão “material” da memória, deixa entrever como pintamos camadas de significados sobre os ingênuos objetos ao nosso redor, ilustra como construímos um acervo material para dar conta de nossas experiências amorosas. Pinturas, Fotos, Ursos de Pelúcia, camisas, discos, etc. A lista pode ser a mais diversa. Cada casal constrói um percurso. Encontrar certos “objetos” que dizem respeito a um antigo relacionamento pode até ser motivo para brigas e cenas de ciúme entre casais, pode sugerir que ainda existe algum sentimento, afeto em relação ao antigo amor.

Ao investir nas “memorabílias” o filme deixa implícito certo platonismo. É como se bastasse entrarmos em contato com as “idéias” (nesse caso com os diversos objetos) que reconheceríamos sua verdadeira origem no mundo das idéias, teríamos essas idéias sacudidas do “sedimento” de nossa memória (alma). Não me parece tão certo esse fetiche em creditar aos objetos o poder de “despertar” nossas lembranças. Ao menos, existe um fator criativo de nossa própria mente, que pode recobrir de significados objetos anteriormente desprezíveis (invisíveis).
Acontece que Joel leva os pertences de sua história de amor, começa a ter suas lembranças caçadas e destruídas, mas no meio do processo - que refaz o caminho das memórias recentes para trás -, justamente quando está revivendo suas boas lembranças com Clementine, se convence da bobagem que está fazendo e decide interromper a “cirurgia”. Para isso, cria um meio de escapar da perseguição dos médicos. Joel começa a levar Clementine para lugares-memórias em que ela não havia estado. Assim ela o acompanha numa jornada rumo à infância e às lembranças mais tenras do rapaz. E aqui cabe um parêntese.

(Tenho uma memória absurdamente “fotográfica”, com a capacidade de resgatar detalhes “insignificantes” de situações prosaicas. Num dia “normal”, perdido há cerca de uns dois anos, voltava da faculdade, no ônibus. Um grupo de meninas e meninos fazia uma pequena algazarra no ônibus. Destaquei alguns rostos femininos. Avançando a fita. Dois anos depois, estou namorando uma garota, que conheci num show de Ney Matogrosso e Pedro Luís e A Parede. Avançando um pouco mais a fita. Minha namorada era uma das garotas que estava fazendo festa no ônibus. O que antes era completamente um episódio fortuito passou a ser encarado como um “proto” conhecimento de minha namorada. Fecha parênteses.)

A memória “re-configura” as situações em nossa mente, misturando elementos de lembranças díspares, acrescentando e cortando detalhes, fazendo uma colagem de várias texturas e plasticidades. A memória recombina o “nunca existente” com o “quase existente” e o “sempre existente”, funde-os num processo natural. Essa fusão torna praticamente impossível a pretensão de se obter uma memória pura, um relato, uma lembrança que dê conta do “isso-foi”5. Buscar A VERDADE se torna uma tarefa sisifiana, ou melhor, um suplício de Tântalo. Só podemos nos contentar com fragmentos de verdade, nacos de absoluto. Cada um pega seu quinhão e se satisfaz com os pedaços do “real” que lhe cabem.

Joel quer Clementine, sua realidade, sua “Tangerina”. Ele ama essa menina de cabelos mutantes. Ele se agarra a porções de Clementine, fugindo para permanecer com ela. Os lugares-memórias vão se apagando atrás de Joel. É preciso correr para salvar Clementine, correr para salvá-los. Patrick (Elijah Wood), um dos médicos que realizam o processo de apagamento em Joel, também quer Clementine, quer construir uma verdade. Ele se apaixona por ela e invade suas memórias, para tirar proveito de seu conhecimento sobre os percursos amorosos da moça. Como dizer da Verdade? Quem Clementine ama, Joel ou Patrick? Onde está a Verdade do coração de Clementine?

Patrick assume as posições de Joel, refazendo suas falas, presenteando Clementine novamente com os mesmos objetos. Tudo recria o “ambiente” de amor entre Clementine e Joel, substituído por Patrick. Mas a sensação de que há uma fraude não deixa Clementine, algo “dorme” no sedimento de seu corpo, na memória de sua pele, uma parte intocada pelo processo. Clementine decide levar Patrick para o lago congelado – o mesmo local onde levou Joel Barish, numa das cenas mais lindas do filme.

Mas existe uma fratura entre o seu desejo, a memória de seu organismo que quer repetir o já-vivido e a presença de Patrick. Ela então decide sair do local, aquilo não faz sentido. Essa cena também dá uma idéia da noção um tanto platônica do “adormecido na memória”, comentado anteriormente. Clementine parece ter uma verdade-verdade (seu amor por Joel) e isso “sonha” nela.
Joel luta por Clementine e em sua consciência sonha e vive com ela. Por várias vezes ele consegue sair do “mapa” dos médicos, escondendo-se junto com “Tangerina”. Acordar é a saída para dar um fim à cirurgia. Joel consegue se livrar por uns instantes, mas os médicos garantem o término do processo. Mas nada é tão simples assim. Kauffman e Gondry explicitam a possibilidade do “re-arranjo” das memórias ao filmar a cena do “verdadeiro” primeiro encontro entre Joel e Clementine, na praia de Montauk, à noite. Percorrendo suas lembranças, Joel faz malabarismo de sua memória, recriando junto com Clementine as passagens marcantes do casal.

Na “vida real” Barish e “Tangerine” se conhecem na praia de Montauk e decidem, por sugestão dela, invadir uma casa. Os donos estão viajando. Clementine está vislumbrada com a casa e com as aventuras que se prenunciam. Joel, contido, tímido, inseguro, prefere sair da casa, abandonando-a aos seus devaneios. Ela não entende a fuga e se entristece. Na “re-memória”, decidem dar um novo final à invasão da casa, criam uma despedida. Clementine abraça Joel e sussurra em seu ouvido “me encontre em Montauk”. Pronto. Tudo desmorona. O processo está terminado. O filme dá um salto para Joel acordando. Saí de casa, não vai para o trabalho e ruma para Montauk. No trem, re-conhece sua “Tangerine”.

A cena lembra uma passagem da vida do pensador norte-americano Ralph Waldo Emerson, narrada pelo biografo Carlos Baker. Aos 71 anos, ele sofria de Alzheimer e se isolou em Bush, sua casa em Concord.

“Bush tornou-se um palácio do esquecimento... (Mas) a leitura, disse ele, ainda era um “prazer intacto”. Cada vez mais, o estúdio em Bush tornava-se um refúgio. Ele se apegava à rotina confortável da solidão, lendo no estúdio até o meio-dia e retornando à tarde, até a hora de sua caminhada. Aos poucos, esquecia os próprios escritos e ficava deliciado ao redescobrir seus ensaios: “Ora, estas coisas são realmente muito boas”, disse à sua filha.” 6

Ao contrário de terminar a trama dessa forma, mostrando o encanto com as possibilidades do renovado, deixando um gosto de “happy-end”, Kauffman leva a história um pouco além, confrontando Joel e Clementine com as escolhas que fizeram no passado, forçando-os a encarar o desejo de ambos de apagarem a memória um do outro e as “verdades” decorrentes dessa decisão.

Primeiro eles escutam a fita com Clementine dizendo “o que achava” de Joel. Depois temos Barish e “tangerine” escutando a fita de Joel, onde ele fala suas “verdades”. É visível o constrangimento dos dois. Clementine sai da casa. Mas Joel vai atrás dela. Eles conversam no corredor. O tempo fica suspenso no ar, os dois têm diante de si as múltiplas possibilidades da vida, o fortuito e a vontade. O filme termina no entreaberto. Ninguém sabe o que virá “depois”. Joel e Clementine não sabem do futuro, como se dará, mas do futuro como se atualiza no desejo de ambos em se arriscarem no estranho e confortável universo amoroso.

De certo, o filme deixa o estranhamento diante de nossas lembranças inventadas e reinventadas, nossa necessidade antropológica de amar e ser amado, seja lá o que isso possa significar, de esfarelar idéias frágeis, como a verdade. Mas essa é apenas uma leitura, a minha leitura, potencializada e prejudicada por um hiato de uma semana entre ver o filme e redigir esse texto. Micro-experiência que me mostrou como podemos reconstruir (desfigurar, abrilhantar, etc) o mundo ao nosso redor e o mundo em nossa cabeça.

Podemos lutar contra o “câncer do tempo”, lançando mão de n artefatos, mas estaremos sempre no olho “nu” do furacão da existência, na “clareira do ser”, re-produzindo ecos, cacos e caos. Tudo que se espalha e se traz dentro de si. Esse não é um relato sobre o filme - o filme pode nem ter existido ou mesmo não existir (e não existe para muitos donos de locadora e outros tantos clientes) – ao mesmo tempo em que cada nervo, cada fissura desse texto dependem da presença-oculta do “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” e só se realiza nesse dialogismo. O texto só acontece na medida em que ama e é amado pelo filme, recria memórias e verdades sobre a película, projetando espaços de luz e de sombra. O texto só se atualiza na proporção em que me afasto do filme, “abençoado” como “os esquecidos” que “tiram melhor proveito de seus equívocos”.7

Notas

1 – Paráfrase do poema “Segredo”, do livro “Brejo das Almas”, de Carlos Drummond de Andrade

2 – O título do filme foi extraído do poema “Eloisa to Abelard”, de Alexander Pope. Um trecho do poema diz o seguinte: “Feliz é o destino da vestal, esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Toda prece é ouvida, toda graça alcançada.”.

3 – Poema de Gullar intitulado “Cantiga Para Não Morrer”. Gullar, F. Toda Poesia (1950 – 1999). Rio de Janeiro; José Olympio, 2004

4 – Memorabília – Neologismo empregado para dar conta da dimensão material, do suporte físico da memória. Podemos definir como um conjunto de elementos materiais dotados de um significado memorial dado por determinado ser humano. Ou ainda, acervo material-imagístico de um ser humano.

5 – Isso-foi. Conceito desenvolvido pelo autor Roland Barthes, no livro A Câmara Clara

6 – Manguel, A. No bosque do espelho: ensaios sobre as palavras e o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

7 – citação extraída do filme “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, de Michael Gondry (EUA, 2004)


Referências Bibliográficas


* “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, de Michael Gondry (EUA, 2004)

* Manguel, A. No bosque do espelho: ensaios sobre as palavras e o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

* Gullar, F. Toda Poesia (1950 – 1999). Rio de Janeiro; José Olympio, 2004.

compartilhe

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados