Apaixonados por carros?

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andrecatuaba · Brasília, DF
31/12/2007 · 33 · 0
 


Reza o slogan da Ipiranga que todo brasileiro é apaixonado por carros. Que, assim como desfrutamos o carnaval, jogamos uma bolinha, rezamos o nosso terço e tecemos a nossa cotidiana hipocrisia, somos culturalmente vidrados em golzinhos rebaixados e rodas tunadas. Será?
Há um movimento claro, em países de economia desenvolvida, que já passaram por todas as fases de suas respectivas revoluções industriais, de desafogar o trânsito ancorado na propriedade privada (o carro particular) em prol do transporte público, dos trens, metrôs e ônibus de qualidade.
Faça a pesquisa no seu círculo de amigos. Pergunte quem se considera apaixonado por carros. Se você não for um chicleteiro ou um mala do Guará, é provável que a pesquisa aponte um dado cultural interessante no rol de anomalias e excentricidades do ilustre cidadão brasileiro. O cidadão comum, via de regra, considera o carro apenas e tão somente um meio de transporte.
Um meio de transporte, não: um cavalo de cinco toneladas, que circula em velocidades altíssimas nas ruas das cidades, ceifando vidas e decepando membros indiscriminadamente. O carro particular, que nasceu com o fordismo norte-americano nos anos vinte e floresceu na Alemanha nazista dos anos trinta (o Fusca da Woskswagem, foi o primeiro carro popular) representa a vitória da propriedade privada, do liberalismo irresponsável, da tecnologia predatória.
Talvez os campeonatos de automobilismo, praticados pelas elites do mundo inteiro, reflitam essa compulsão introjetada. Há anos bravos pilotos correm como alucinados em pistas perigosíssimas, batem recordes de velocidades por milésimos e volta e meia se arrebentam nos muros. O brasileiro, por imposição cultural da Globo, até gostou do Senna. Mas entre torcer por Rubinho ou Nelsinho Piquet, mais convém vibrar pelo Boca na Libertadores. América para os americanos.
Claro, a Ipiranga quer vender Petróleo. Já fizeram até os brasileiros acreditarem que é uma boa coisa o comércio legal de armas, como ficou provado no Referendo de 2005. Não preciso gastar aqui o meu latim desfiando os maquiavelismos e as políticas ultra agressivas das indústrias de prospecção de Petróleo.
O investimento em fontes de energia alternativa, por outro lado, é em boa parte obscurecido pelo loby dos petrodólares, que teima em nos convencer que somos apaixonados por pela queima do petróleo, pela poluição atmosférica e pela vigência desse sistema já comprovadamente falido.
Mina-se o sistema, então, pelas beiradas, como recomendou Sun-Tzu em sua Arte da Guerra. Uma campanha publicitária do Detran australiano associa a compulsão por velocidade com a síndrome do pau pequeno.Na propaganda, um mala passa castigando o motor do seu brinquedo para duas mulheres que estão conversando na calçada. Elas então fazem o gesto do dedinho, sugerindo que a natureza não foi generosa com o cara. O número de acidentes diminuiu em 60%.
Claro, a Globo tenta te convencer que tem tudo a ver com você. A Ipiranga, de que é apaixonado por carros. A Sadia, que você adora pipocas de frango. Mas – será que é assim mesmo?




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