Em 2006, as embarcações modernas da empresa alemã ThyssenKrupp e da parcialmente estrangeira Vale do Rio Doce atravessaram o oceano e desembocaram à s margens da BaÃa de Sepetiba, dando inÃcio a um imenso estrago social e ambiental bem longe de suas casas, com a instalação da bilionária Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), a maior da América Latina, no Distrito Industrial de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, prevista para ser inaugurada em 2009. “Dentro da BaÃa, em linha reta até o cais, já são 4 quilômetros de extensão ocupada pelo consórcio. O projeto não foi aceito no paÃs deles devido ao altÃssimo grau de poluição. O Brasil é muito bonzinho e aceitou. Soltam um pó tão perigoso que abre buracos na lataria de carros. É por isso que uma outra fábrica [a empresa coreana Hyundai] desistiu de se instalar aquiâ€, resume o nÃvel da situação o pescador artesanal Luiz Carlos, fundador da primeira Associação de Pesca de Jacarepaguá, que vem lutando ao lado de uma comunidade de mais de 8 mil pescadores na região para manter o equilÃbrio natural das águas, os peixes e a sobrevivência daquela população, formada também por artesãos, pequenos criadores de gado e famÃlias de agricultores, muitas removidas do local onde se instalou o canteiro de obras do complexo siderúrgico.
Em maio, Luiz Carlos, que na maior parte da vida navegou a remo, e só nos últimos anos modernizou-se com uma pequena embarcação a motor, também se locomoveu para muito distante de sua casa, em JesuÃtas – comunidade construÃda no final da década de 1950 ao redor da BaÃa pelos próprios pescadores – onde ele também nasceu. Convidado pelos movimentos sociais a testemunhar no TPP, o Tribunal Permanente dos Povos, Luiz Carlos embarcou pelos ares até Lima, no Peru, em busca de um julgamento crÃtico, justo e efetivo sobre a atuação do consórcio ThyssenKrupp/Vale na Zona Oeste do Rio. No Tribunal, que aconteceu como parte da Cúpula dos Povos* deste ano, o pescador falou a um cÃrculo de juristas, intelectuais, ativistas de direitos humanos e jornalistas do mundo inteiro, denunciando a mortandade de peixes, caranguejos, jacarés, capivaras e lontras em sua região; testemunhando as necessidades porque vêm passando seus milhares de companheiros de pesca; evidenciando os danos ecológicos à BaÃa de Sepetiba e à vegetação do entorno; desvelando o abarroamento de pequenas embarcações, e a morte de 83 trabalhadores, entre pescadores e funcionários da própria CSA, por conta da maquinaria e das atividades da obra, desde que ela começou. De cerca de 20 casos apresentados na Cúpula dos Povos sobre práticas ilegais de transnacionais européias no continente latino-americano, 7 eram brasileiros.
Logo no inÃcio da obra, Luiz Carlos organizou um protesto pacÃfico em frente ao terreno. Reivindicava o desconhecimento da população local sobre a chegada do projeto, cujos responsáveis, segundo ele, não procuraram em momento algum a comunidade para tratar do assunto, e falsificavam assinaturas que comprovavam o acesso da comunidade à s informações. Os dirigentes da CSA pediram aos pescadores uma proposta de ressarcimento por sete meses de pesca prejudicada, que deveria ser cumprido até março do ano passado. De lá para cá, o máximo que Luiz Carlos conseguiu do Consórcio foram 100 reais de indenização – a metade do que havia pedido – por um corte de mais de 200 metros em sua rede de pesca, que ficou agarrada à hélice de uma das embarcações da CSA. “Não vamos conseguir vetar a obra, só um milagre. Vamos ficar sem nossa área saudável de trabalho. Queremos embarcações melhores para pescar a maiores distânciasâ€, já que os peixes não aparecem mais naquela região, devido aos rebocadores e à s tubulações da dragagem de 30 metros de profundidade realizada pela obra, que sugam os animais aquáticos e as redes a mais de 300 metros de distância. “SaÃamos de madrugada na época da tainha e voltávamos à tarde com 500 quilos, à s vezes até 1 tonelada de peixe. Pra quem ficou na pesca está difÃcil."
Numa análise da Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (SECT) sobre o investimento de 7 bilhões de reais do Consórcio, o governo do Rio diz que a CSA vai gerar 35 mil empregos a partir do seu funcionamento. Mas, em contradição ao próprio governo, a Secretaria de Obras do Estado pôs literalmente uma vÃrgula nesse número, afirmando que o total seria de 3,5 mil empregos gerados - 6,5 mil a menos que o previsto para serem gerados até o término das obras. "Muitos se inscreveram para trabalhar na Siderúrgica, por falta de opção, mas quando se descobre que são pescadores, são descartados por haver processos contra a fábrica através das colônias.â€
Por quase toda a vida Luiz Carlos se locomove sobre uma cadeira de rodas ou em cima de um barco. Se aos dois anos teve uma paralisia infantil irreversÃvel, aos sete descobriu-se pescador para sempre. Neto do português que o colocou no caminho das águas e dos peixes do Rio Guandu-Mirim, no Rio de Janeiro, e de uma legÃtima Ãndia, segundo ele, “pega no laço†das terras de Mangaratiba, litoral sul do Estado, Luiz Carlos é um genuÃno caboclo, fruto daquela antiga história trazida há quinhentos e poucos anos pelas marés, e ancorada até hoje por essas terras. A história colonial das embarcações européias, saqueadoras de nossas riquezas continentais, que é responsável também por constituir o povo do qual eu, você e o pescador Luiz Carlos fazemos parte – permanece a mesma história, fortalecida por um modelo de desenvolvimento baseado na dependência estrangeira e no seu sistema de exploração, no poder do lucro, na destruição de ecossistemas e na destruição deste mesmo povo que a história criou.
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* A Cúpula dos Povos, realizada no mês de maio em Lima, Peru, reuniu milhares de representantes de organizações e movimentos sociais latino-americanos e europeus para discutir modelos de desenvolvimento econômico e de integração regional alternativos aos propostos pelos 60 paÃses presentes na Cúpula União Européia / América Latina e Caribe, que aconteceu ao mesmo tempo e na mesma cidade. O TPP ficou estabelecido na Carta de Direitos dos Povos, em 1976, na Argélia.
Márcia,
Muito interessante o questionamento. Precisamos saber e divulgar essas coisas.
Abs,
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