Big band temperada com pequi

Acervo da banda/Divulgação
O maestro Jarbas Cavendish à frente da Banda Pequi: instrumental irreverente
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Edson Wander · Goiânia, GO
31/1/2007 · 112 · 1
 

Da universidade para o mercado em seis anos, a Banda Pequi lança sua estréia fonográfica com um DVD gravado ao vivo pelo paulistano Itaú Cultural

A façanha não é pequena. Gestada dentro de uma escola erudita devota dos cânones da música clássica estrangeira, a Banda Pequi vai ganhando reconhecimento dentro e fora de Goiás com música instrumental popular. Partiu também de cânones estrangeiros, do jazz, mas lançou no ano passado um DVD antes mesmo do primeiro CD com um repertório completamente nacionalizado. O DVD homônimo, viabilzado pelo Projeto Rumos do Instituto Itaú Cultural (ICI), vem sendo cartão de visitas em diversos palcos da região e outros estados.

A Banda Pequi foi formada em 2001 pelos professores Jarbas Cavendish e Alexandre Magno, ambos pernambucanos radicados em Goiânia. Cavendish é professor de hamonia, pianista, compositor e arranjador e Magno é professor do instrumento dele, o trombone, com especialização clássica no exterior. Para começar o projeto de Extensão e Cultura da Escola de Música e Artes Cênicas (Emac/UFG), requisitaram 20 alunos na escola e deram uma cara irreverente ao repertório jazzísitico. O grupo costuma se apresentar com perucas, roupas espalhafatosas e trejeitos ensaiados que espanam o formalismo por vezes entendiante das big bands. No começo, o repertório mirava composições conhecidas do jazz, como Stella by Starlight (Victor Young) e Birdland (Joe Zawinul) e outras, mas o tempo levou o grupo a buscar cada vez mais a música brasileira para formações do tipo de big band.

Nos extras do DVD, o trombonista Alexandre Magno, co-diretor artístico do grupo, explica a mudança. "Com o tempo, vimos que fazer jazz o mundo todo já fazia, enquanto música brasileira o mundo todo está curioso para conhecer e ninguém a executa melhor do que nós". O maestro Jarbas Cavendish, compositor, pianista e arranjador, adiciona mais motivos. "Isso atende também à necessidade de adequar o repertório ao nível de dificuldade dos alunos, além do que, a música brasileira sempre nos instigou mais do que o jazz", contou.

Ainda nos extras, registrados no ambiente da escola, os coordenadores Jarbas e Alexandre repassam o histórico do projeto e alguns dos músicos também dão depoimentos da experiência. Os demais integrantes da Banda Pequi são Gilson Pires, Wellington Medeiros, Elizeu Moreira e Adenilson Santana (trompetes); Weller Meneses, Adil Silva e Paulo Rodrigues (trombones); Antonio Alves, José Vieira, Marcos Silas e Thiago Carmo (sax); André Prado, Décio Gonçalves e Marcelo Rezende (bateria e percussão); Érica Fernanda (baixo); Fabiano Chagas (guitarra) e Henrique Reis (piano).

O violonista/guitarrista Fabiano Chagas fala da experiência teórica da música clássica aprendida na escola e transposta para a banda. "O formalismo da escola clássica, a relação com o instrumento, me ajudou muito na questão da improvisação", diz. Érica Fernanda, única mulher no grupo, revela o esforço dela em participar por causa da relação que sempre teve com a música popular.

Jarbas e Alexandre trouxeram de Recife boa parte das músicas que compõem o repertório do grupo. A maioria são partituras de grandes instrumentistas de orquestra (como maestro Duda, Edson Rodrigues e Dimas Sedícias) que também escrevem para a formação de grandes bandas populares. De quebra, retomaram também um dos brasileiros pioneiros em cultivar a música orquestral com despojamento popular: Severino Araújo, da longeva Orquestra Tabajara. Dele, a Banda Pequi revê com o suingue engraçado de sempre Espinha de Bacalhau (com novo arranjo de Adail Fernandes).

Ao repertório dos compositores nordestinos, a big band goiana adicionou nomes como o de Moacir Santos (Coisas Número 10, incluída posteriormente nos shows) e Dorival Caymmi com a famosa Maracangalha, arranjada pelo próprio Jarbas Cavendish, que assina também o maracatu Rapa Coco. São 12 faixas gravadas durante a apresentação do grupo no auditório do ICI, na Avenida Paulista, em 2004. Um combinado contagiante de samba, baião, choro, frevo e maracatu tocados à moda das big bands e com um jeitão próprio e brincalhão. O nome, conta Jarbas, veio da mais famosa iguaria da culinária goiana, o fruto de sabor imponente que não deixa ninguém indiferente ao primeiro contato. Era o significado que buscavam para a banda.

A Banda Pequi é fruto não só da abertura da academia à música popular e de um esforço pessoal de seus músicos, mas também de uma contingência de mercado, considera o maestro Jarbas Cavendish. Segundo ele, o inusitado do vídeo antes da estréia em disco foi uma oportunidade de chegar ao mercado. Mas o caráter didático do projeto, ainda que profissionalizado, não termina. "A Banda Pequi é conceitual, é fruto de pesquisa, não é mercadológico, mas se continuarmos tendo oportunidades de mercado tanto melhor porque gostaríamos muito de dar melhores condições de trabalho aos alunos e mesmo perspectivas profissionais de longo prazo", diz o maestro.

Dessa pesquisa contínua de repertório, o próprio show de lançamento mostrou novidades não incluídas no vídeo, como a já citada Coisas Nº 10 e Qui Nem Jiló, de Gonzagão. O próximo passo da Banda Pequi, conta Jarbas, será estruturar um songbook de partituras das músicas tocadas pela banda. Há um projeto antigo de comercializar as partituras via internet, o que esbarra nas dificuldades de negociação de direitos autorais. O músico paulista Benjamin Taubkin reforça a teoria do nicho que a Banda Pequi persegue. "A banda é a prova concreta da música instrumental no Brasil e da descentralização por que passa a música no país", depõe o músico citando a localização geográfica do grupo, fora do eixo Rio-São Paulo, centro consolidado neste e noutos segmentos musicais. Ele fala de uma "crise da indústria" que acabou revelando uma produção gigantesca em diferentes gêneros musicais no país. Combinado com as facildades tecnológicas, esse ambiente propocionou a explosão criativa que agora se ressente de espaços para se revelar aos brasileiros.

É o desafio que continua posto a todos da cena independente, mas as primeiras etapas já estão dominadas, concordam os músicos da banda. "Nossa meta é a perfeição, agora se a encontraremos é outra historia. E também não temos por que seguir a lógica da indústria, apesar de querer mostrar o trabalho cada vez mais por aí", disse Jarbas Cavendish de olhos postos na banda como objeto acadêmico, mas também como possibilidade artística. Em reunião com a pró-reitoria da UFG no final de 2006, o maestro solicitou bolsas de estudo para os alunos-músicos. "Seria uma forma de dar fôlego ao projeto, trabalhar um repertório mais ampliado e conciliar com as atividades acadêmicas", concluiu o maestro Cavendish.

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Renato Mendes Rocha
 

Já assistiu a algumas apresentaçoes desses garotos no auditório da emac/ufg. Eles sao mesmo bons e super divertidos.

Para se ter uma idéia eu já o vi dançando cancan no palco. hehehe

Renato Mendes Rocha · Goiânia, GO 3/2/2007 00:19
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