Cadeiras com rodas (continua)

Ramon Cavalcante
1
Tiago Coutinho - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE
29/3/2006 · 8 · 0
 

E o Grupo TR.E.M.A. continua a buscar, nas madrugadas do terminal de ônibus de Fortaleza, histórias de sujeitos anônimos. Capítulo 3: Luiz Mendes, 30 anos. Ser humano e profissão gari. No sorriso, faltam-lhe dentes. Nas palavras, falta-lhe voz. No convívio, sobram-lhe histórias. Um dia. Uma narrativa e alguns capítulos. O terminal também o acolhe. Não existem milhares de Luiz como este. Não. Ele é único. Ele é Luiz, o Mendes. 30 anos. Marido. Pai de três filhas e dois filhos. As respostas dele são certeiras, rápidas, objetivas e fragmentadas. As falas contrastam na dimensão e são costuradas no enredo da memória.

Da porta de sua casa dá até para ver a parada de ônibus. São apenas 40 metros. Mesmo próximo, Luiz precisa sair o mais cedo possível de casa. O medo de ser assaltado continua. 22h. Ele espera calado com a farda azul claro. O céu está meio cinza e esconde as estrelas. Talvez chova. Precisa logo arrumar dinheiro e ajeitar as goteiras do teto. Esses dois últimos anos São Pedro tem sido até generoso. Poucas foram as chuvas fortes. De longe, ele avista os faróis de ônibus. É o Grande Circular, esse aí? É sim. Lá vem ele. Levou sorte, chegou na hora. Ele se acomoda em um banco. A viagem dura 30 minutos.

É começo de mês. Parece que amanhã o dinheiro já sai e haja contas para pagar. Algumas prestações estão atrasadas. Outras vão vencer logo. A Casa Pio, os óculos da mulher, as roupas da Riachuello. Mas se pagar tudo de uma vez, não sobra nada pro resto do mês. É foda. Se apertar em algo acolá, pode ser que dê certo. E se faltar dinheiro na metade do mês, faz os bicos, ora mais. Cata e recicla. Tem problema não. O melhor mesmo é rezar pra num faltar nada. Já tá com um ano que as coisas melhoraram. Só de pensar na tranqüilidade de agora. O trabalho atual nem se compara com o da reciclagem, sem ganho fixo. O horário da noite é mais calmo, tranqüilo. É perigoso, mas ele é homem e pelo menos a mulher conseguiu ficar de manhã.

Luiz é ajuntado com Joelma - o sobrenome ele não sabe - que também trabalha no Terminal do Papicu. Ao chegar em casa, ele encontra apenas o café já pronto e as filhas menores para ir deixar na escola. Possui cinco filhos. Todos são registrados. Joyce tem oito anos e é filha de criação – o irmão da esposa a deixou aos cuidados de Joelma quando ela ainda era bebê. Hugo e Igor, os filhos da primeira esposa, não moram com ele. Quando ele engravidou a primeira mulher tinha apenas 16 anos. Na época, sua mãe lhe deu um cagaço, mas já não tinha mais jeito.

Hoje, ele sente falta dos gritos da mãe. Órfão de pai e mãe, quando esta morrera, deixou de herança uma casa, uma mansão na rua Paraíso, situada no bairro do Jangurussu, zona sul de Fortaleza, onde se concentra o maior aterro de lixo da cidade. São 40 m². Um quarto, uma sala, um banheiro e a cozinha. No quarto, apenas uma cama grande, onde dormem ele, Joelma e as duas filhas mais nova Larissa, 3, e Júlia, 5. As meninas estão crescendo. Logo, não será mais possível dividir a cama. Aí, Luiz construirá um quarto para as meninas. Como ele fará, não sabe ainda. Com a soma dos dois salários, o casal consegue tirar por mês R$ 600,00.

Vivem muito bem com a grana. Dá até para investi-la em lazer. Nas proximidades de sua casa, há três cabarés, os quais ele costuma freqüentar com o irmão e um grande amigo, ambos vizinhos. Hoje é quinta-feira. É provável que no próximo sábado, como o dinheiro deste mês, ele possa ir. A Joelma, como sempre, ficará chateada. Será que ela vai chorar de novo? No fundo, ela aceita. Homem é assim mesmo...

O ônibus pára. Chegou ao terminal. Lá está a Maria de Fátima. Ele a cumprimenta. Ela logo avisa que hoje, nem o Nonato, nem a Mazé vieram. Eles terão serviço dobrado. Tudo bem. Antes, um caldo. Antigamente havia até um mais gostoso, agora só tem esse de R$ 1,20, mas pelo menos vem com uns pedacinhos de pão. Dá pra forrar a noite. Hora de trabalhar. Uma vassoura, uma pá, alguns sacos pretos, um camburão, e o tempo não demora a passar. É a conta certa. Quando termina de limpar tudo, já tá na hora de ir. Óbvio que ele mesmo programa seus intervalos. Hora conversa com Carlos, por outros minutos senta numa lanchonete. Fala com a Mazé. Brinca com a doida que sempre o perturba. Nisso o tempo passa. O lixo, recolhido por Luiz, é guardado em um camburão. De lá, ele não sabe qual o destino do lixo, apesar de morar no Jangurussu. Enquanto isso ele observa aquelas pessoas ao seu redor. Assim como ele, elas vão ali todos os dias.

Começou o serviço hoje pela limpeza da última plataforma do terminal. Enquanto varria, um jovem com pouco mais de 20 anos se aproxima dele e fala:

– Oi, boa noite! Posso falar com você?
– Pode – Luiz continua a fazer seu trabalho.
– É porque eu e alguns amigos estamos fazendo umas matérias sobre o terminal de madrugada. Aí eu queria saber se você poderia me dar algumas informações.
– Eu?
– É o senhor. A propósito, como é seu nome?
– Luiz.
– Luiz de quê?
– Luiz Mendes.
– Pois é seu Luiz, posso te entrevistar.
– Rapaz....
– Eu não quero atrapalhar o seu serviço. Se o senhor quiser, eu vou acompanhando seu serviço e vamos conversando, pode ser?
– Tá certo, então...
– Alguém já lhe entrevistou, Luiz?
– Não.
– Mas as pessoas vêm falar com o senhor aqui de noite?
– Vem.
– E o que elas falam com você?
– Ah, vem perguntar como é o emprego.
– É? E o que você diz?
– Eu digo qual é a firma que tem que deixar o currículo.
– Ah, as pessoas vêm te perguntar como consegue esse emprego?
– É.
– E além disso, elas falam o que com você?
– Nada não.

Veja aqui os primeiros capítulos da série

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