Os festejos de Monte do Carmo, localizado a 97 km de Palmas, se caracterizam por reunir três comemorações em uma só, onde se homenageia o Divino EspÃrito do Santo, e as duas santas, a Nossa Senhora do Carmo, a padroeira da cidade, e a Nossa Senhora do Rosário. O evento se iniciou na manhã do dia 16, por volta das 8h, quando aconteceu a missa de Solenidade de Nossa Senhora do Carmo, ministrada pelo pároco Edmilson Costa, onde milhares de pessoas estiveram reunidas na Praça da Matriz, ao lado da igreja que leva o nome da padroeira da cidade, onde foi montada a estrutura de som e palco do caminhão BR Arte e Cultura, especialmente para o evento.
Para a padroeira não tem festa, como explica a Secretária Municipal de Cultura, Marilda Amaral, segundo ela, as homenagens para a Nossa Senhora do Carmo se concentra através de novenas e leilões de oferendas doados pela comunidade.
Solenidade do Divino
Logo após a missa, um grupo de mulheres, acompanhadas por alguns homens, que as seguem tocando instrumentos de folia, e um alferes – que carrega a bandeira da misericórdia - saÃram da igreja em cortejo pela cidade, tratava-se da folia das mulheres, a única participação feminina dentro da folia e que acontece apenas nesse dia, ao contrario da folia tradicional que realiza o giro de 30 dias. O cortejo das mulheres é o ponto inicial para a solenidade do Divino EspÃrito dentro dos festejos do Carmo.
As “foliãsâ€, termo utilizado pela comunidade local, seguiram para chamada casa da festa, onde funciona a Casa de Cultura Padre Alano Soares, onde foi oferecido um café da manhã aos presentes, e logo após a folia das mulheres, que saÃram pelas ruas da cidade, visitando as casas, com seus cantos e ladainhas colhendo donativos para festa do Divino.
Logo em seguida a saÃda das mulheres da casa da festa, foi a vez da folia tradicional entrar em cena, eles realizaram o canto do imperador, e logo após os foliões também saÃram pelas ruas da cidade, entrando nas casas que desejam ser recebidas pela bandeira, fazendo seus cantos e as rezas, e colhendo donativos.
O giro pela cidade, tanto da folia tradicional quanto da folia das mulheres, seguiu até o final da tarde, havendo um intervalo em seguida, para organizar os últimos preparativos para a coroação do novo imperador.
Coroação do Imperador
Na noite do mesmo dia, o Imperador a ser coroado, Willian Cândido Martins, saiu da casa da festa, sendo conduzido pelos três alferes, os das bandeiras do Divino das folias de cima, a de baixo e o da Bandeira da Misericórdia, da folia das mulheres e seguiu em cortejo, acompanhados pelos foliões e por pessoas da comunidade e visitantes que conduziam velas confeccionadas com cera de abelha, em direção à casa do imperador do ano passado, Daniel Carvalho dos Santos. Juntos o Imperador do ano passado e o a ser coroado, seguem em cortejo até a Praça da matriz, onde estavam sendo aguardados pelo pároco da igreja.
O padre após recebê-los transmite a coroa, o cetro e o manto, os sÃmbolos de poder e autoridade, para o novo imperador, realizando assim a sua coroação. Em seguida o pároco dá inicio a Santa Missa em solenidade ao Divino do EspÃrito do Santo. Finalizando a Missa, o novo Imperador, juntamente com o antigo, o pároco e autoridades locais seguiram para a casa da festa onde foi oferecido um café com bolos pelo novo Imperador.
Para o Prefeito Municipal, Condocert Cavalcante Filho, os festejos de Monte do Carmo é uma tradição que foi mantida ate os dias de hoje e é preciso ser preservada, ele afirma ainda, que com a participação maior da prefeitura, foi possÃvel melhorar a estrutura para festa, e somando ao apoio da Fundação Cultural do Tocantins está sendo possÃvel realizar um evento muito maior do que realizada nos anos interiores.
Os festejos do Carmo prosseguiram no dia 17, Ã s 8h com a Santa Missa do Divino EspÃrito Santo.
Culinária TÃpica
Umas das principais caracterÃsticas da festa é a fartura de comida, principalmente os bolos, ricos em diversidades. No café oferecido pelo imperador, foi possÃvel ser apreciados o “amor perfeitoâ€, as pipocas (petas), “trovãoâ€, o bolo de arroz, que são preparados em formas e em palhas de bananeiras, o bolo de puba, o “douradoâ€, o biscoito de coco, o biscoito de queijo, o “pé rachadoâ€, e o bolo de mãe, os dos mais procurados na festa, um bolo a base de polvilho, ovos, óleo quente e fermento de arroz, muito saboroso e que a maneira de seu preparo é um grande segredo mantido pelas “boleirasâ€, que a moradora, dona Umbelina Gomes afirma que apenas com amor de mãe se consegue fazer.
Nossa senhora do Rosário, a santa negra
As solenidades de Nossa Senhora do Rosário, cuja data de celebração é em outubro, tem uma importante presença nos festejos de Monte do Carmo, sempre iniciando após o encerramento da Missa do Divino EspÃrito Santo, que foi realizada na manha do dia 17. O marco inicial desta festa é a caçada da rainha, que aconteceu no perÃodo da tarde do mesmo dia, que mesmo debaixo de um sol escaldante e muito calor, reuniu milhares de pessoas, que acompanharam com muita animação, cantando e dançado, no ritmo da sússia e ao som dos tambores, o cortejo da futura rainha e sua corte, rumo ao seu acampamento, chamado de “botequimâ€, localizado na periferia da cidade.
Sobre a origem dessa caçada, muitas teorias se misturam, onde de acordo com o professor de geografia da UFT – universidade Federal do Tocantins, Elizeu Lira, que acompanha os festejo há muitos anos, existe uma junção entre a rainha branca e a rainha negra, que segundo ele, no continente africano eram realizadas essas caçadas. A pesquisadora Elvanir Matos Gomes, explica que a caçada pode ter como referencia também a nobreza européia, que saia com sua corte, para esse tipo de evento, que era tido como diversão.
A secretária de cultura do municÃpio, Marilda Amaral, ressalta sobre mito existente na cidade, com a imagem de Nossa senhora do Rosário, de onde pode ter surgido essa tradição, onde ela explica que de acordo com a lenda, a imagem foi encontrada por escravos e trazida para a cidade, que posta na igreja, ela desaparecia no dia seguinte, e era encontrada no local onde tinha sido achada. E esse fenômeno foi se repetindo, até que um cortejo foi realizado com muita dança e ao som dos tambores, o que encerrou a série de desaparecimentos.
A caçada terminou no fim da tarde, com o retorno da futura rainha a sua casa (Casa da Rainha). O presidente da Fundação Cultural do Tocantins, Júlio César Machado, estava presente prestigiando a festa.
Os Caretas
Com disfarces grotescos, e satÃricos para ocultar a sua identidade, os caretas são figuras marcantes durante a caçada da rainha, onde armados com seus cipós, eles aparecem fazendo a festa, assustando e divertindo as crianças e os adultos. Onde segundo Elvanir Matos, seria uma referencia aos bobos da corte, presentes na realeza européia, no entanto, Elizeu Lira, ressalta também a questão do “revideâ€, escravos fantasiados, que aproveitava do disfarce para bater nas crianças brancas, filhas dos seus malfeitores.
Coroação
Ao cair da noite, por volta das 20h30, A futura rainha, Liduina Pereira Negry Barbosa, ao lado do Futuro rei, Héder Luiz Almeida Pereira, sai em cortejo, em direção a Igreja Nossa Senhora do Carmo, acompanhados do rei e rainha do ano passado, Joaquim Maia, e Maria Manduca Ayres leal, respectivamente. Chegando ao local do evento, uma estrutura montada no palco do Caminhão BR – Arte e Cultura, ao lado da igreja, o cortejo foi recebido pelo padre Edmilson Costa, que realizou a coroação do novo rei e rainha, repassando a eles a coroa, o certo e o manto. Acontecendo logo em seguida a Santa Missa, em solenidade a Nossa Senhora do Rosário, a protetora dos pobres e negros.
Ao termino da Missa, a nova rainha acompanhada do novo rei saÃram em cortejo de volta à casa da rainha, onde foi oferecido um café e uma grande diversidade de bolos, aos presentes.
Encerramento
Na manhã seguinte, no dia 18, a rainha acompanhada do rei, saiu em cortejo acompanhados pelos congos; grupo folclórico que representa a guarda da rainha, e segue uma hierarquia, onde o mestre dos gongos, de vestimenta vermelha e branca e de coroa dourada, é quem dita as regras e deve ser respeitado, os demais congos estavavam usando as vestimentas azul e branca, e verde e branca; e as taieiras, as dançarinas do rei, que com suas roupas coloridas, seguem dançando ao ritmo da sússia. Cortejo seguiu até o palco onde foi realizada a Missa para Nossa Senhora do Rosário. Ao termino da Missão, o Cortejo seguiu de volta a casa da rainha, mas dessa vez acompanhado pelos tambores, onde uma mesa farta de bolos da região esperava os festeiros, finalizando assim os festejos do Carmo de 2006.
Solidariedade
A grande marca dos festejos do Carmo e sem duvida a solidariedade e dedicação de sua comunidade para a realização da festa, há uma grande preocupação com a preservação da cultura e em repassá-la para os mais jovens. Segundo a primeira dama do municÃpio, Rita de Cássia Marques, maior da festa é a solidariedade, a importante participação da comunidade, e a preocupação com a continuidade, um trabalho que visa preservar a cultura local. A estudante do primeiro perÃodo de história da UFT – Universidade Federal do Tocantins, Valdenice Salazar, que acompanhava a festa, participando de uma aula de campo da disciplina de antropologia, se mostrou surpresa com a dedicação e entrosamento do povo carmelitano, “todo mundo participando com um mesmo objetivo, é muito surpreendente a mobilização da população em volta da festaâ€, ressalta. Júlio César Machado, chama a atenção para a grande participação dos jovens, o respeito que eles demonstram com a sua cultura, “isso é uma demonstração da verdadeira cultura tocantinense, que merece todo o nosso apoio†frisa.
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