Carnaval não é evento

Augusto Diniz
Banda Redonda (SP), criada em 1974 pelo dramaturgo Plínio Marcos
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Augusto Diniz · São Paulo, SP
18/2/2009 · 33 · 1
 

Tratar o Carnaval brasileiro como evento e não como manifestação popular é a pior maneira de promover a folia. Esse tipo de foco já teve seu auge. Agora, a nefasta prática parece estar aos poucos se arrefecendo no Brasil. Porém, estão acusando os pobres de desvirtuarem a festa.

Algumas cidades históricas mineiras anunciaram que a partir deste ano estão proibidas as execuções públicas do funk e da chamada axé music durante a folia. O poder público alega que esses tipos de música atraem arruaceiros, gente que consome pouco e nada traz de retorno econômico para a cidade. Enfim, encontraram uma resposta dos erros que cometeram botando a culpa nos menos abastados.

Vários municípios no Brasil já vinham adotando nos últimos anos a proposta defendida agora pelas cidades mineiras. Todos prometem retomar o Carnaval de antigamente. Mas o argumento de voltar atrás é asqueroso.

No passado, quando começaram o movimento nas cidades de se fazer o Carnaval com característica baiana, utilizando, porém, um falso trio elétrico, com uma banda musical em cima, seguido de foliões – muitas vezes, tendo que comprar uma blusa para entrar na rabeira do carro, o abadá, um dos símbolos da privatização do espaço público -, muitos não imaginavam que o pior estava por vir. Acharam que bastava obter um patrocínio ou pegar um tacho da verba da secretaria de cultura, colocar alguns grupos de gosto duvidoso em cima de um carro de som e estava tudo bem. Parecia a introdução da política do pão e circo, da época do Império Romano, para todo mundo ficar satisfeito e não reclamar da vida.

Não sei o que deu na cabeça dessa gente responsável pela promoção do Carnaval no País, mas realizar a folia por meio de um falso trio elétrico resulta no “sufocamento” das manifestações carnavalescas locais. Há cidades que têm blocos e escolas de samba que movimentam a comunidade local, envolvem os moradores, que ficam o ano inteiro focados em preparar a festa do Carnaval, fazendo suas próprias músicas, preparando as fantasias e o repertório. Sem contar os ensaios. Isso tudo estava se perdendo.

Um carro de som com uma banda de meia dúzia de músicos em cima, repetindo tudo aquilo que se ouve, impositivamente, nas emissoras de rádio e televisão, sem oferecer nada de novo, e não envolvendo quase ninguém da comunidade, é terrível.

Uma escola de samba ou um bloco qualquer movimenta, no mínimo, 50 pessoas de uma comunidade, que vão de forma solidária tocar um instrumento, fazer uma fantasia, preparar a alegoria, organizar o bloco, criar uma música, aprender a executar outras. Então, porquê é que não se preservou isso? Mesmo que tivessem colocado um carro de som na rua ou montado um palco com algo novo, porquê é que deixaram a cidade entregue a uma outra forma de se fazer Carnaval diferente do que se praticava antes, entendendo que isso poderia trazer riscos?

Esses falsos trios elétricos (ou qualquer outro nome que queiram dar a alguma coisa que não agrega nada) provocaram uma desordem nas manifestações locais do Carnaval. E isso aconteceu – e ainda acontece - em várias cidades brasileiras. As pessoas da localidade perdem as referências e embarcam naquilo que acham que pode dar certo a partir do que assistem nas intermináveis horas de transmissão pela televisão da folia. Mas a fórmula quase sempre dá errado simplesmente porque é outra realidade, não tem a ver com a cultura local e o perfil da região.

O pessoal que foi para essas cidades para curtir o Carnaval chegou lá e encontrou um carro de som ou um modelo de folia que parecia permitir que se fizesse de tudo pelas ruas da cidade. O município não se preocupou em impor o Carnaval que era praticado nem estabelecer limites. Caiu na tentação daquilo que é divulgado pela mídia achando que isso não traria transtornos. E pior, foi irresponsável com seu patrimônio cultural e suas manifestações populares.

Agora, estão reclamando e pondo a culpa no pobre, como se o rico não tivesse se aproveitado desse sistema e se alimentado dele. E o culpado dessa história toda é o próprio poder público que não soube (e ainda não sabe) diferenciar um evento de uma manifestação popular.

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claudia gomes
 

Concordo plenamente com você, a "imposição" do trio elétrico simplismente acabou com a genuídade dos festejos juninos em muitas cidades do interior da Bahia. As prefeituras junto com as empresas que administram os trios elétricos investiram pesado em propaganda para transformar as festas juninas da Bahia em uma extensão do carnaval, com vendas de camisas e abadás e a promoção de um monte de banda que diz tocar forró. Lamentável que em poucos anos as tradições locais foram assassinadas em nome do capital. Ótima a sua reflexão! Parabéns!

claudia gomes · Salvador, BA 19/2/2009 08:43
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