CIÊNCIA MÁGICA X CIÊNCIA TANÁTICA (Histórias de Bisa Xancha Tupinambá)
A chamada atividade científica tem ao longo do tempo percorrido dois caminhos distintos, um que a leva a aproximar-se da sabedoria dos povos nativos ou indígenas, muitas vezes reduzida como “mágica” por seu conteúdo notadamente intuitivo, plural, includente, holístico, e um outro que se distancia dos saberes, fazeres e poderes dessas mesmas populações originais com uma prática esquizofrênica, excludente, intolerante, que pulveriza o todo em partes que não se relacionam, e departamentaliza, especializa, disciplina, separa, atomiza, desenraiza, desconecta a pessoa humana da realidade una e múltipla porque contempla muito mais as demandas de Tanatos (morte) que as de Eros (vida). A confirmação disso é mais do que óbvia.
Minha bisavó Xancha Tupinambá costumava contar longas história de luta e resistência do seu povo guerreiro, indomável, e sorria quando feliz por cumprir o seu valoroso papel de passar oralmente às novas gerações os usos e costumes de seu povo. Era uma excelente e criativa contadora de histórias, acho que herdei um pouco dela essa coisa de gostar de trabalhar com as palavras e o espírito guerreiro que às vezes me assoma. Aprendi com minha bisa tupinambá que as comunidades indígenas (e aí ela explicava que estão incluídos os índios amarelos, negros (africanos), vermelhos, brancos, etc.) possuem uma ciência maravilhosa, seu conhecimento sobre a fauna e a flora é inigualável, sua cosmologia é insuperável, sua tecnologia até hoje deixa atabalhoados engenheiros e cientistas.
A noção de solidariedade, de coletividade, de comunidade, de responsabilidade solidária não encontra similar em nenhuma sociedade em todos os tempos. Para os índios o coletivo é de responsabilidade de cada indivíduo e ao mesmo tempo é responsável por todas as pessoas que compõem esse mesmo coletivo.
Tão responsável que a consciência coletiva não é transferida para algum tipo de estado ou uma instituição específica. Na sociedade indígena não existe a aberração do orfanato para se abandonar as crianças, do asilo onde se depositam os idosos, do hospital onde se excluem os doentes, da cadeia para se torturar os desviantes, do brega para abrigar a hipocrisia, da igreja para aliviar a crueldade, da escola para garantir a continuidade e a ampliação da ignorância, tudo com reserva de mercado, caro, e naturalmente muito lucrativo.
Para a ciência mágica (que contempla a vida “ao vivo”) dos indígenas a vida existe em rede, uma TEIA interligada e infinita, onde cada parte dessa imensa teia é importante, necessária e imprescindível à existência dessa mesma TEIA. Todos e tudo são necessários, úteis e importantes, a desimportância não passa de ignorância da necessidade e da utilidade de qualquer objeto ou ser.
Na aldeia indígena é ensinado às crianças desde antes do nascimento, na educação embrionária, o mais importante período de aprendizado do ser humano, que as pessoas, os animais, as plantas, as árvores, a chuva, o sol, os astros, o raio, os trovões, os ventos, as águas, a terra, o ar, o fogo, a alma, o espírito, o rio, o mar, tudo isso faz parte desta TEIA da vida onde só não cabe a dominação do “sujeito” sobre o “objeto”.
A ciência tanática (que contempla a morte “in vitro”) da modernidade pós pós acena para os povos indígenas com o falso brilho da produtividade capitalista, com a alienação consumista e com a sua fonte principal de prazer, de gozo, a especialização cientificista. O gozo é tanto que é considerado “normal” os pais explorarem e violentarem suas crianças em atividades que julgam condenar nos outros, como o trabalho infantil, a exploração sexual de crianças e adolescentes, o assédio, abuso sexual e a violência física e psicológica.
Mas as sociedades indígenas repudiam as falsas alternativas excludentes, absolutistas e intolerantes entre anarquia e totalitarismo, entre igualdade e liberdade, entre felicidade e justiça, porque conhecem e vivem de modo diferenciado a “simultaneidade dos opostos complementares” (a cosmovisão que os Aimarás chamam de Tinkuy) que proporciona aquiagora a igualdade em liberdade, a felicidade com justiça, o consenso na diversidade, o prazer no trabalho, a educação produtiva, a poesia política.
Aprendi que para os indígenas a escola é o dia-a-dia de aprendizado mútuo, de aprender juntos, e as relações igualitárias diferenciadamente também estão no saber. A educação indígena não atrela o indivíduo ao mundo produtivo e competitivo do mercado. E nem é fonte de renda, nem visa ao lucro. Prepara para a liberdade de ser respeitado em sua diferença. O poder e o dever de cada um exercer a sua diferença é o verdadeiro sentido de igualdade, ao contrário do que pensa a ciência tanática, que a igualdade é tudo igual, uniforme, padrão, linha de montagem.
Minha bisa Xancha ensinou que para os povos indígenas cada um sabe o que TODOS podem saber, assim como cada um tem o que TODOS podem ter. O saber e a posse são instrumentos de libertação e não de dominação. E o tempo não é dinheiro, mas serve para ser gasto com a educação das crianças (de TODAS as crianças), com a atividade amorosa, com a sexualidade, com o diálogo constante consigo, com o outro, com a natureza.
Para os índios toda criança que nasce merece a proteção, o cuidado, o carinho, a atenção de todos. Nas sociedades indígenas não existe essa coisa absurda de marginalidade social porque desde que nasce a criança índia é amparada como indivíduo em sua comunidade e educada para viver em comunidade.
Nunca que as criança são consideradas como algum tipo de impedimento para a prosperidade individual e coletiva. Nunca. Ao contrário, as crianças são um estímulo maior à felicidade, à alegria, ao bem estar social e ecológico. Os índios amam seus filhos e filhas ao máximo e nunca que lhes castigam. Bisa Xancha dizia que uma criança pode botar fogo na aldeia que nada lhe acontece de ruim, ao contrário, todos riem com o acontecido e no máximo aproveitam para colocar o nome do autor de “pé de fogo” ou “ pequena labareda”, ou “aquele que queima a casa”, e riem à farta. Ela ria com seus olhinhos faiscantes quando contavas essas coisas, com certeza lembranças de muitas peraltices aprontadas para diversão dela e de todos.
Um tempo novo já existe, assim como esse novo mundo já existe, e é construído a cada dia, a cada ano, vinte e quatro horas por segundo. Queremos e desejamos um novo milênio cheio de tudo aquilo que já existe e que recusamos reconhecer. O modo de vida dos índios, nas aldeias, taperas, quilombos, palenques, cumbes, vilarejos, mocambos, está aí ao nosso alcance a qualquer tempo que queiramos conhecê-lo e trocar com ele, afinal trata-se da vida dos nossos ancestrais diretos, legítimos, e dos quais nos afastaram a pulso por mais de quinhentos anos.
Tudo no mundo dos índios para nós é novo, é outro, e esse outro é um pouco de cada um de nós ao mesmo tempo. Urge conhecê-lo, conhecer-se, ampliar-se. Continuar separado de si é manter a esquizofrenia que sustenta as redes de privilégios, a legalidade da exclusão, a hegemonia e o prestígio do latifúndio, do capital financeiro, do poder de manipulação dos meios de comunicação e dos detentores do “saber”.
O mundo novo está bem aqui, aí, em todo lugar ao alcance de todos no novo milênio e no seu bojo o ser humano novo (outro, outros), com o qual podemos nos descolonizarmos ao aprender um pouco mais de nós mesmos (e não o que dizem de nós), da nossa herança ancestral, do nosso sonho original de ser humano. Aí estamos nós, índios, de todas as cores, com as quais podemos nos juntar na construção incessante aquiagora desse mundo novo multicor, um mundo de todos nesse novo milênio com esse povo novo que somos nós índios de todas as nações pelos confins do universo.
Geraldo Maia - Poeta
7182195934
meu voto e meu respeito pelo ótimo texto, abraçossss
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 16/4/2009 15:50
muito obrigado, amigo, por sua generosidade e atenção. Espero novidades suas.
Abração,
carinho,
geraldo
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