" Consumo logo existo "

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eric renan ramalho · Belo Horizonte, MG
13/1/2007 · 11 · 1
 

Trata-se de um texto do Frei Betto e um apelo meu, na tentativa de sensibilizar as pessoas para a necessidade de olharmos para as pessoas e enchegar bem mais do que uma grife. Somos todos moldados por essa cultura do consumismo, esquecemos ate de existir. Parece que nossa Existencia se resumiu a comprar, comprar e comprar....

"Na sociedade neoliberal, cresce a produção de bens supérfluos,
oferecidos como mercadorias indispensáveis. O consumidor, massacrado
pela publicidade, acaba se convencendo de que a saúde de seu cabelo
depende de uma determinada marca de xampu. Melhor cortar a cabeça do
que viver sem o tal produto...
Para o neoliberalismo, o que importa não é o progresso, mas o
mercado; não é a qualidade do produto, mas seu alcance publicitário; não
é o valor de uso de uma mercadoria, mas o fetiche que a reveste.
Compra-se um produto pela aura que o envolve. A grife da mercadoria
promove o status do usuário. Exemplo: Se chego de ônibus à casa de um
estranho e você desembarca de um BMW, acredita que seremos encarados
do mesmo modo?
Para o neoliberalismo, não é o ser humano que imprime valor à
mercadoria; ao contrário, a grife da roupa “promove†socialmente seu
usuário, assim como um carro de luxo serve de nicho à exaltação de seu
dono, que passa a ser visto pelos bens que envolvem sua pessoa.
Em si, a pessoa parece não ter nenhum valor à luz da ótica neoliberal.
Por isso, quem não possui bens é desprezado e excluído. Quem os possui
é invejado, cortejado e festejado. A pessoa passa a ser vista (e valorizada)
pelos bens que ostenta.
O mercado é como Deus: invisível, onipotente, onisciente e, agora, com
o fim do bloco soviético, onipresente. Dele depende nossa salvação. Damos
mais ouvidos aos profetas do mercado – os indicadores financeiros – que à
palavra das Escrituras.
Idolatrias à parte, o mercado é seletivo. Não é uma feira livre, cujos
produtos carecem de controle de qualidade e garantia. É como shopping
center, onde só entra quem tem (ou aparenta ter) poder aquisitivo.
O mercado é global. Abarca os milhardários de Boston e os zulus da
Ãfrica, os vinhos da mesa do Papa e as peles de ovelha que agasalham os monges do Tibet. Tudo se compra, tudo se vende: alfinetes e afetos;
televisores e valores; deputados e pastores. Para o mercado, honra é uma
questão de preço.
Fora do mercado, não há salvação – é o dogma do neoliberalismo. Ai
de quem não acreditar e ousar pensar diferente! No mercado, ninguém tem
valor por ser alguém. O valor é proporcional à posição no mercado. Quem
vende ocupa maior hierarquia do que quem compra. E quem comanda o
mercado controla os dois.
O mercado tem suas sofisticações. Não fica bem dizer “tudo é uma questão
de mercadoâ€. Melhor o anglicismo marketing. É uma questão de marketing o
tema da telenovela, o sorriso do apresentador de TV, o visual do candidato e
até o anúncio do suculento produto que prepara o colesterol para as olimpíadas
do infarto. Vende-se até a imagem primeiro-mundista de um país atulhado de
indigentes perambulando pelos sertões à cata de terra para plantar.
Outrora, olhava-se pela janela para saber como andava o tempo. Hoje,
liga-se o rádio e a TV para saber como se comporta o mercado. É ele que
traz verão ou inverno às nossas vidas. Seus arautos merecem mais espaço
que os meteorologistas. Dele dependem importações e exportações,
inversões e fugas de capitais, contratos e fraudes.
É no mínimo preocupante constatar como, hoje, se enche a boca para
falar de livre mercado e competitividade, e se esvazia o coração de
solidariedade. Se continuar assim, só restarão os valores da bolsa. E em
que mercado comprar nossas mais profundas aspirações: amor e comunhão,
felicidade e paz?
O mercado desempenha, pois, função religiosa. Ergue-se como novo
sujeito absoluto, legitimado por sua perversa lógica de expansão das
mercadorias, concentração da riqueza e exclusão dos desfavorecidos. Já
reparou como os comentaristas da TV se referem ao mercado? “Hoje o
mercado reagiu às últimas declarações do líder da oposiçãoâ€. Ou: “O
mercado retraiu-se diante da greve dos trabalhadoresâ€.
Parece que o mercado é um elegante e poderoso senhor que habita o
alto de um castelo e, de lá, observa o que acontece aqui embaixo. Quando se
irrita, pega o celular e liga para o Banco Central. Seu mau humor faz baixar
os índices da Bolsa de Valores ou subir a cotação do dólar. Quando está de
bom humor, faz subir os índices de valorização das aplicações financeiras. "

BETTO, Frei. Estado de Minas, Belo Horizonte, 8 jun. 2006.


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eric renan ramalho
 

Este é o meu primeiro texto postado aqui. bem que eu queria ter postado um texto de minha autoria mas o fato é que eu estou meio impossibilitado de acessar a net.
sobre o texto ele foi a tematicada redação do vestibular da UFMG, e de cara me senti obrigado a refleti sobre a conduta que estamos assumindo ante o poder de compra. estamos classificando as pessoas por ele, e isso e algo demasiadamente triste, e que me frustra, a humanidade deveria se preocupar mais com seu proprio destino.

eric renan ramalho · Belo Horizonte, MG 15/1/2007 19:04
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