Crepúsculo dos Valores

Fotos: Tito Oliveira
Fotos: Tito Oliveira
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taloverde · São Paulo, SP
25/9/2008 · 52 · 2
 

Estive fazendo a cobertura fotográfica de um evento que celebrava a revelação das culturas populares - mas precisamente permeadas por religiões dogmáticas -, e me deparei com uma lucidez que, de maneira incisiva, me fez analisar que a desenvoltura dos acontecimentos no Oriente Médio e nos demais cenários de ações terroristas pode ser interpretado como um ataque específico para o mundo contemporâneo. Neste sentido, nos compete o entusiasmo de uma violência desesperada dos que se encontram dispostos a sacrificassem em prol de um ideal ético-religioso.

Parece-me incontestável que um dos aspectos essenciais dos conflitos atuais entre o mundo ocidental e seus inimigos reside em um plano de secularização de nossas sociedades. É difícil decifrar as reais causas que desenvolvera tamanha complexidade, da qual conhecemos exclusivamente a vertente ocidental: rivalidade medieval entre o paganismo e o império, além da reforma protestante – penso que não precisamos discorrer sobre as demais etapas da secularização das sociedades européias. Essa atitude – que na década de 30 caracterizava os intelectuais como céticos e fazia de nós uma autentica Classe-no–Classe, capazes do rompimento com ideologias quaisquer -, se traduz em geral no consumismo de cidadãos que consistem na grande massa. Tal consumismo é direcionado tanto para a matéria quanto para a in(e)formação, ambos devidamente condizentes com os pacotes industrializados que constituem o globo terrestre.

Nietzsche escreveu que “somos materiais de uma sociedadeâ€, afirmando em metáfora que nosso grau de caracterização individual corrompe a fragmentação da hegemonia e estabelece uma hierarquia composta por superiores e subalternos, contribuindo para o caráter heterogêneo no poderio e/ou subserviência das nações. Esta é a exata situação de um individuo da grande massa em nossa sociedade, baseado em que muitos desses se fundamentam; no ponto de vista econômico e social, no principio de homologação de seus custos (dentro de seus alcances ou não), de seus comportamentos e de seus valores. Como as sociedades antigas – infelizmente – em muitas de suas características comunitárias tradicionais, tal homologação de custos, se dá, em verdade, em associações e/ou relativas a valores individuais. Não seria esse tipo de atitude, que nos leva rumo aos valores individuais, que nos capacitam a respeitar os países considerados absolutos, um dos fatores determinantes do declínio de nossa civilização? Estaríamos então passando do crepúsculo dos valores ao declino das civilizações? Ou, melhor dizendo; não seria mais interessante inverter essa última expressão e falar de uma civilização em declínio? Este é um assunto delicado, pois o mundo em que vivemos considera obrigado expressar-se em termos de desenvolvimento. Prevalecendo a ilusão.

Se refletirmos a questão dos valores, inevitavelmente nos depararemos com o caráter de secularização, sobretudo se tratando da secularização não consumada dos denominados países de terceiro mundo, nos quais se origina o terrorismo que nos ameaça, ou, talvez; pensemos que não, pois convivemos com terrorismos em todas as partes dessa entropia social. A impressão que tenho é que somos condicionados a creditar o mito historicista do processo linear, segundo o qual as sociedades de terceiro mundo deveriam seguir avançando, alcançando o nível dos países subdesenvolvidos ou desenvolvidos. No entanto, tudo isso não é mais que um mito simplificador? Podemos nos referir aos países de terceiro mundo, estigmatizados por numerosas conseqüências de dominações coloniais, como incapazes de desenvolver uma burguesia etimológica suscetível de dirigir países de recente independência, sem subscrever o eurocentrismo disfarçado de secularização não consumada, ou a ideologia universalista dos anseios humanos definidos por nossas organizações internacionais? Podemos encontrar um terceiro viés, entre o eurocentrismo e o universalismo? Poderia ser uma negociação explícita que respeitasse as diferenças entre as tradições, sem depreciar as demais. Tal ação deve amadurecer, em primeira instância, entre nós, para evitarmos cair no erro de pensarmos que a única forma de transgredir aos assaltos de grupos ou sociedades fundamentalistas é retrocedermos ao próprio fundamentalismo. Talvez seja certo que o romantismo da situação reside em nossa maneira de vivermos tais valores. Nos dias atuais, a força e a vulnerabilidade do Ocidente se encontram no fato de que eles já não acreditam nelas, enquanto nossos adversários são fanáticos e dispostos a morrer e, sobretudo, morrer para matar. Cair em tamanha tentação de voltar à violência, ao caos, significaria, em latim; propter vitam vivendi perdere causas, ou seja, sobreviver na condição de desistir do que constitui nossa vida, não no sentido biológico, mas nos sentidos éticos e biográficos.

A secularização não consumada é, literalmente, um fenômeno que mais nos preocupa. Isso não significa que devemos renunciar por completo a ação militar em nosso modo de agir, mas, que devemos tomar consciência de que, quando as armas se convertem em uma única solução, estão esgotadas as possibilidades de nos resgatarmos da estupidez. No momento em que colocamos em risco a nossa própria vida, correndo o risco da derrota militar ou a continuação de segurança - que sofre, por exemplo, Israel - que estão condenados a ser uma civilização em declínio, nos opomos à única possibilidade de evitar as condições para um terrorismo em massa. É possível estabelecer um avanço não agressivo em nosso desenvolvimento. A distribuição de bens entre os diferentes países do mundo exige de nós uma cultura veraz no combate a restrição. Não me cansarei em repetir; cultura e educação são fundamentais, no campo da psicologia e da imaginação coletiva, para a evolução de um espírito cívico, que, por sua vez, nos tornará mais pragmáticos a ponto de avançarmos neste caminho tão espinhoso.



Para conhecerem meu portifólio de fotografia acessem o link http://www.flickr.com/photos/30699946@N05/

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José Braga
 

Nietzsche era um crítico da religião, logo, a secularização seria algo bem vindo na perspectiva dele...

José Braga · Brasília, DF 23/9/2008 15:18
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taloverde
 

Devido a isso que eu o citei, obviamente.

taloverde · São Paulo, SP 23/9/2008 22:16
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