DAÃNDIA, UMA RAINHA KALUNGA

Anne Vilela
Daíndia
1
Sinvaline · Uruaçu, GO
26/7/2011 · 20 · 0
 

DAÃNDIA – A RAINHA KALUNGA

Natalina dos Santos Rosa é bem conhecida na região da Chapada dos Veadeiros por ser uma mulher de personalidade forte, líder nata.

Poucas pessoas sabem seu nome verdadeiro, todos a conhecem apenas por Daindia. De acordo com ela, o apelido surgiu por causa do cabelo negro e longo que lembrava uma índia, assim o pai a chamou de Daíndia.

É uma mulher diferente, por onde passa se destaca pelo porte alto e elegante, seus gestos a diferenciam das demais, e líder na cozinha, nas danças e nas rezas.

Nasceu no Vão de Almas, município de Cavalcante, filha de Mauricio Pereira das Virgens, que era tropeiro e transportava boiada para Catalão e Goiânia. A mãe cuidava dos filhos e trabalhava na roça, além de fiar e tecer. Socar arroz no pilão, fazer pote, panela de barro, sabão dicuada e outros, era tarefa de todos.

. A água para o consumo era buscada no córrego e transportada em latas que se firmavam na cabeça com uma “rudia†de pano.

Ela brinca:

- Era só por a rudia na cabeça e cortá o chão...
Todos trabalhavam pesado, inclusive alguns produtos como o sabão dicuada, o pote e a panela de barro, eram comercializados na cidade de Cavalcante distante 12 léguas, percurso feito a pé ou em lombo de burro.

Desde muito cedo aprendeu a lidar com o trabalho pesado como capinar roça e ainda costurava na mão confeccionando a roupa da família, só aos 16 anos de idade conseguiu comprar uma máquina manual.

Aos 19 anos de idade ela conseguiu sua própria casa, ou seja, seu próprio rancho. Recebeu do pai uma educação rígida, Os castigos corporais do pai e da mãe faziam com que os filhos obedecessem apenas com o olhar.

- Bastava um zoiado do meu pai e nois já sabia o que ele quiria, chorava de vergonha...

Em sua comunidade não havia escola, em 1951 foi um professor de Cavalcante para dar aula na Capela, foi ainda no tempo da palmatória. O professor Otavio Dias da Mota não economizava esforços para os castigos, o que a fez descrençar da escola.

Aprendeu a escrever o nome com um amigo que era funcionário da SUCAM. Esse amigo a aconselhava a ir para cidade estudar, assim ela conta:

- Daindia foge daqui, ocê não é minina de sofrê assim...hoje me arrependo pruque num fui, as veize tinha estudado.

Segundo DaIndia, os Kalungas foram e são discriminados na região de Cavalcante e Monte Alegre e outros locais. Lembra-se de quando chegavam à cidade, as pessoas fechavam as portas e alguns comentavam:

- Já vêm os kalungas, povo feio que só sabe pedir!

Ou então:

- Se nois gostasse de nego andava com ovo de urubu debaixo do braço.

As mulheres sofriam ainda mais com esse preconceito:

- Quando uma muie kalunga saia de uma casa, a dona mandava barrer tudo para que não vortasse mais..

Casou-se ainda jovem, o primeiro filho nasceu com o trabalho de uma parteira, a dona Agustinha. O nascimento desse filho foi difícil, Daindia era carregada de uma casa para outra com dores e o tratamento com banhos de raízes ia acalmando ou acelerando as dores do parto.

Desse casamento que não deu certo teve apenas um filho, logo arrumou outro marido com o qual viveu vinte anos e tiveram seis filhos.

Atualmente Daindia vive só, separou-se do marido, os filhos casaram e ainda mora na mesmo sitio onde planta arroz, mandioca e milho. Sua vida se resume em visitar a família, filhos e netos, participar dos festejos religiosos da comunidade e o ponto principal é quando se transforma na Rainha do Reinado Kalunga em São Jorge no Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros.

Sobre o Reinado Kalunga ela tem muito que contar. Ainda lembra da capela antiga, e como seus bisavós descreviam que essa capela foi construída pelos negros, fugitivos escravos.

Foi toda construída de adobe ou barro e telha comum há quase três décadas atrás. Ela sofre quando fala da antiga capela.

- Em vez de deixar cuma era, meteram a marreta e derrubaram tudo, agora a igreja é boa, mas é feita de broco...

Pensativa continua:

- Os escravo que veio da Africa minha bisavo conheceu, foi no tempo da revorta, ela era do tempo antigo e foi pegada no mato com cachorro, ela tinha o cabelo liso, deve ser por isso que meu cabelo era liso. Eu ainda cheguei a conhece as negras gorda e beiçuda, hoje só existe algumas muie que parece africana...

Daindia conta sobre Mãe Geralda, uma mulher branca que adivinhava o futuro e viveu em Vão de Almas por quase um século. Ninguém sabe realmente a historia dela, de como foi para a região kalunga. Só se sabe que não era brasileira pelo sotaque, e assim ela diz:

-Mãe Geralda era uma muie forte, curava os doente, morreu lá mermo e foi enterrada no cemitério onde hoje é a Capela, sei disso pela historia dos meu bisavô.

Sobre o Império kalunga e a Capela, Daindia esclarece que antigamente era diferente. A historia da Capela começou sem o santo padroeiro, só depois que chegou um casal da cidade de Goiás numa caminhada longa, pois a viagem de Goiás a Vão de Almas durava seis meses ou mais. Eles vieram conduzindo uma Santa que ficou conhecida por Nossa Senhora das Neves. Essa santa ficou na igreja como padroeira da região Kalunga.

Esse casal que ela lembra apenas os primeiros nomes, Pedro e Maria, ficou na região oito anos e deixaram a Santa. Nesse tempo eles ensinaram o povo kalunga a cantar e dançar a Sussa, por isso no agradecimento cantado tem o verso:

- Cadê Pedro, foi embora pra Goiás, ele clama, ele chora, ele foi morto de saudade...

Esse acontecimento , segundo Daindia foi há 240 anos, sua avó ainda era menina.

A mudança do Reinado para Império começou quando apareceu na região um homem chamado Davi Vidal que deu a ideia de mudar o reinado para Império com rei e rainha.

- Nois achou bom a mudança de trocar os noivo pelo rei e rainha, o primeiro imperador aconteceu em 1968, o imperador foi Claro e a Rainha foi Marciana, o imperador do Divino foi Jeremias, um homem branco de Cavalcante. A primeira festa foi pra ensinar nois do jeito certo, cuma é ate hoje.

Daindia é responsável pela organização do Reinado Kalunga, de vez em quando o padre de Cavalcante ajuda na organização.

Apesar da vida sofrida, se sente feliz e reconhece que precisa lutar para ajudar na preservação das tradições. Gosta de morar no Vão de Almas onde a violência não chegou e ainda pode sobreviver do que planta e colhe. Porem ela teme o progresso e diz:

- Nois pensa quando chegar a rodage, ai nois vai ser incomodado, eu tenho medo...

A rodagem é a estrada, pois o percurso para o Vão de Almas ainda é difícil.

O Império Kalunga é destaque no Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros há 11 anos. As pessoas de todo o Brasil aprenderam a conhecer e gostar mais da realidade desse povo de uma cultura tão forte
que se tornou conhecida nesses eventos.

Segundo Daindia os Kalungas só tem a agradecer a organização do evento, pois foi a partir dai que eles se tornaram conhecidos , emocionada ela diz:

- Juliano uniu nois, vai na nossa Romaria, até o pessoal de Cavalcante hoje valoriza mais nois. Antes nois era visto como se fosse nada...

Assim fica um pouco da história de Daindia e do Império Kalunga, que é só um pouco da riqueza cultural de um povo que hoje é reconhecido como a Comunidade do Sitio Histórico Quilombola Kalunga.

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