Desafios de um capoeirista

Georgiana de Sá
Grão Mestre Dunga fala da capoeira em BH durante a repressão militar
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llamar al pan · Belo Horizonte, MG
4/2/2008 · 52 · 1
 

Por Georgiana de Sá

Nascido em Feira de Santana, Bahia, em 1951, Amadeu Martins, conhecido como Grão Mestre Dunga, chegou em Minas Gerais em 1965. Filho de pai maquinista, o menino não teve oportunidade de freqüentar escolas, mas começou a treinar capoeira com oito anos de idade, em Salvador (BA). Desde sua chegada em Belo Horizonte viveu em rodas de capoeira, jogada em fundos de quintal e em praças públicas.

O Grão Mestre explica que a capoeira é um jogo, uma dança originalmente praticada pelos escravos oriundos de África, que se tornou parte da cultura popular e se desenvolveu na história do Brasil até como forma de resistência dos negros, inclusive durante a Ditadura Militar. “Me considero um mandingueiro que herdou a esperteza, a malícia, o sentido da capoeira treinada na senzala”.

Segundo Dunga, durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985), a capoeira de rua sofreu repressão e perseguição, considerada atividade subversiva pelo governo militar. Ele lembra que, na década de 70, foi preso pela polícia porque tocava berimbau e atabaque na Praça Sete. “Me levaram para a Polícia Federal, mas esqueceram o berimbau e o atabaque nas minhas mãos. Eu falei para os presos: vamos gingar todo mundo na cadeia e comecei a tocar. Depois fiquei 15 dias na solitária”, recorda.

De acordo com o Grão Mestre, nas décadas de 60 e 70, não havia academias para a prática da capoeira, motivo pelo qual a dança passou a ser chamada de batuque de fundo de quintal. Isso porque os jogos de capoeira aconteciam nos terreiros dos barracos, nos ‘quilombos’, como ele mesmo apelida as favelas da cidade.
O Capoeirista fala que, durante a ditadura militar, a polícia tratava de dispersar os ‘montinhos’ ou aglomerados de gente que se reunia pelas ruas de Belo Horizonte. “Foram dez anos de perseguições à capoeira de rua. A Rural era o carro do exército que rondava a Praça da Liberdade, a Praça Sete, a Praça da Rodoviária e o Parque Municipal e acabava com qualquer montinho”.

Dunga diz já ter trabalhado para a família do político mineiro Tancredo Neves, em São João Del-Rei-MG, e conta que foi recrutado pelo exército, na década de 70, quando não resistia e alimentava, às escondidas, os universitários presos durante as manifestações estudantis. O mestre ensinou capoeira para malandros e conheceu a vida noturna da capital mineira, “da época da Boêmia, do bairro Bonfim e da região da Lagoinha”.

Ele recorda também o convívio com alguns personagens reais citados no romance ‘Hilda Furacão’, de Roberto Drummond, como a prostituta Maria Tomba Homem e o travesti Cintura fina, um alfaiate que usava terno e sapato branco e praticava a capoeira da vadiagem. “A capoeira de vadiagem era um jogo cheio de ginga e malandragem. Mas também tinha toda uma vestimenta própria”, diz.

O capoeirista já esteve na Suíça, na Alemanha e na Itália para mostrar suas técnicas de massoterapia, que usa manobras de danças de origem africana, como o maculelê, e os próprios movimentos da capoeira, em massagens corporais. O Grão Mestre se reúne nas tardes de domingo na Praça Sete, em Belo Horizonte, onde compartilha seus conhecimentos nas rodas de capoeira.

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Robson Araujo
 

É isso aí, temos que falar mais e mais da capoeira e dos nossos mestres que são os griôs de nossa cultura.

Robson Araujo · Campina Grande, PB 5/2/2008 08:05
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