Desafios e conquistas para uma educação inclusiva

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Juracy dos Anjos · Salvador, BA
14/2/2007 · 26 · 1
 

“Um dos grandes objetivos da educação infantil é fazer com que a criança seja mais autônoma na sala de aula. Adquirir autonomia é interiorizar regras da vida social para que se possa conduzir sem incomodar o restante do grupo. E essa adequação social é condição sine qua non « sem a qual não há» para que seja integrada”.

(José Salomão Schwartzman, 1999).


Encarada por muitos como um estado de “mongoloidismo” e incapacidade, a deficiência mental (em especial a Síndrome de Down) está, aos poucos, sendo explicada por educadores e especialistas, que demonstram o contrário do popularmente dito. Um exemplo disso são os estudos de José Salomão Schwartzman, brasileiro especialista em Neuropediatra. Segundo o estudo “o fato de a criança não ter desenvolvido uma habilidade ou demonstrar conduta imatura em determinada idade, comparativamente a outras com idêntica condição genética, não significa impedimento para adquiri-la mais tarde”.

Apesar da constatação científica e dos reforços para tal explicação, a disseminação destes estudos entre o grande público ainda é muito incipiente. E na grande maioria das vezes a falta de conhecimento adequado da doença resulta na geração de preconceito e discriminação, que podem ser verificadas com a dificuldade de inserção dos portadores destas necessidades, que são especiais, nas escolas regulares. “O maior obstáculo para a inclusão dos nossos filhos na sociedade é o preconceito. As pessoas não entendem o que é essa necessidade e acabam discriminando”, comenta Elza Silva Batista, mãe de Jeriane Maria, de 12 anos – portadora de deficiência mental.

Mesmo com a criação do Programa de Educação Inclusiva, desenvolvido pela secretaria de Educação Especial do governo federal, a inclusão destes portadores ainda se configura como um problema grave e que precisa ser superado. Poucas escolas regulares e especiais; ausência de um sistema adequado às suas necessidades e preparo de professores; escassez de recursos e até mesmo a resistência familiar. Estes são alguns dos desafios enfrentados para a inclusão social dos portadores da deficiência mental na Bahia.

Ficção x Realidade – Por ser tema de novela de grande audiência atualmente, deficiências mentais, como a Síndrome de Down, têm repercutido nas vidas das pessoas. A incapacidade, fundamento dos conceitos prévios que limitam as oportunidades para os portadores da síndrome, é debatida e desmistificada em cenas e diálogos diariamente.

A importância de se debater este tema entre o grande público é compartilhada também por Miralva Marques, coordenadora pedagógica da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Salvador. “Na medida em que portadores de deficiência mental percebem que são discriminados eles se travam, dificultando assim o aprendizado. Entretanto, quando acontece o contrário eles se sentem mais capazes e também valorizados pelo seu potencial. Na verdade, a questão principal que o trabalho com deficientes mentais demonstra é a elevação da auto-estima destes estudantes quando são tratados como iguais, resultando em um salto qualitativo no aprendizado”, explica a coordenadora.


Dificuldades marcam a inserção na educação regular

O direito à educação é premissa fundamental para o desenvolvimento de um país. No entanto, muitos são os obstáculos enfrentados por portadores de deficiência mental no Brasil, em especial a Síndrome de Down, na busca de uma educação que reconheça e potencialize suas habilidades. “A criança com necessidades especiais apresenta muitas debilidades e limitações, portanto o trabalho pedagógico deve primordialmente respeitar o ritmo da criança e propiciar-lhe um estímulo adequado para o desenvolvimento de suas habilidades e competências, de acordo com as necessidades específicas de cada criança”. Esta observação é feita por Luciara Regina Piauí de Oliveira, terapeuta ocupacional que desenvolve trabalho de acompanhamento de crianças com a síndrome.

Na opinião de Eduardo Barbosa, presidente da Federação Nacional das Apaes, é preciso levar a educação para os indivíduos, de acordo com suas diferenças, potencializando e valorizando as inteligências múltiplas. “Antigamente, a escola trabalhava apenas com um tipo de inteligência – que podia ser matemática ou lingüística. E muitas vezes as pessoas com deficiência, principalmente intelectual, tinham dificuldade de acompanhar estas exigências curriculares. Hoje as escolas terão que se adaptar, desenvolvendo as inteligências múltiplas, ou seja, habilidades diferenciadas de acordo com o potencial de cada um”. Ele acrescenta ainda que isso talvez seja o desafio maior que os professores hoje estão enfrentando para sair da padronização do ensino, criando uma educação que possa valorizar as potencialidades distintas.

Conscientização x Mudança - A Federação das Apaes do Estado da Bahia já desenvolve um trabalho neste sentido, capacitando e treinando professores de escolas regulares públicas e privadas para o atendimento aos portadores de deficiência mental. A Apae de Salvador é um exemplo disso, atuando em dez escolas. Para Itana Sena Lima, coordenadora do Programa de Inclusão Escolar, “o programa é mais um instrumento para auxiliar os professores na inclusão de pessoas com necessidades especiais na escola comum, como previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a LDB”.

Através de palestras, os professores são orientados a compreender a deficiência com o objetivo de evitar a discriminação e o preconceito cometido contra às pessoas com necessidades especiais. “O trabalho é desenvolvido, preliminarmente, com o levantamento dos alunos que já estavam matriculados nas escolas regulares. Depois, agendamos visitas para coletar dados sobre o aprendizado destes estudantes especiais e sobre as necessidades referentes às práticas dos professores, para logo em seguida desenvolvermos palestras com os docentes”, descreve. A inclusão das pessoas com necessidades especiais nas escolas é defendida por educadores como de extrema importância para a socialização destes jovens. Até porque, as escolas especiais só conseguem atender apenas 2% dos deficientes no Brasil, segundo dados da Federação Nacional das Apaes.


Mercado de trabalho: um desafio há ser superado

A Lei nº. 8.213 de 1991 estabelece uma cota de 2% de empregados portadores de necessidades especiais para as empresas que têm até 100 funcionários. Quando este número é de mil empregados, a reserva mínima para portadores aumenta para 5%. Neste sentido, a Apae Salvador desenvolve o processo de iniciação para o trabalho, que consiste em dar instrumentos para que os portadores possam ser inseridos.

Para Tânia Maria, coordenadora do Centro de Treinamento e Produção (CTP) da Apae Salvador, as oportunidades de qualificação profissional oferecidas pelo CTP são muitas e têm uma boa aceitação pelo mercado. “Hoje temos 102 ex-aprendizes atuando em 32 empresas nas mais variadas funções e com carteira assinada”. Ela menciona ainda que o aprendiz qualificado é encaminhado para o mercado de trabalho de duas maneiras: através de solicitação das empresas contratantes e no contato feito pela equipe de colocação da Apae.

Atualmente, a Apae Salvador oferece diversos cursos a seus estudantes. Entre eles: Copa e Cozinha, Lanches Comerciais, Jardinagem e Paisagismo, Panificação e Confeitaria, Higienização Ambiental, Auxiliar de Pedreiro, Auxiliar de Estuqueiro, Artesanato em Madeira, Vídeo e Dança.


Serviço: Aqueles que se interessarem pela contratação de portadores de deficiências mentais podem entrar em contato através do e-mail ou pelo telefone (71) 33136788.

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Ilhandarilha
 

O trabalho das Apaes no Brasil inteiro é lindo e profissional demais. Já fui coordenadora de comunicação da Federação das Apaes do ES e tive a oportunidade de acompanhar de perto esse trabalho e conviver com profissionais dedicados e alunos surpreendentes. Infelizmente, poucas empresas "compram" a idéia de contratar alunos da Apae. As que apostam neles, porém, não se arrependem. Os meninos têm consciência de suas limitações e por isso se esforçam para cumprir suas tarefas no trabalho, com um amor e uma dedicação que poucos trabalhadores têm.

Ilhandarilha · Vitória, ES 15/2/2007 12:27
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