E lá vai o boi...

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Tati Magalhães · Maceió, AL
29/5/2006 · 141 · 0
 

Dizem os saudosos: o carnaval já não é mais o mesmo de outros tempos. E repete a população ao seu final, como em outros tempos: Oh, quarta-feira ingrata, chega tão depressa, só para contrariar!

Que a festa de momo não é realizada nos mesmos moldes do passado, é inegável. Afinal, as transformações sociais estão diretamente relacionadas com a cultura. Natural, portanto, que no Brasil - e em Alagoas, na seqüência - as comemorações difiram das de décadas passadas.
Mas uma questão notável é que, aqui no chamado Paraíso das Ãguas, a nostalgia de alguns com o carnaval do passado (e até a indignação com uma certa 'pausterização' do carnaval de trios elétricos) parece ter criado um certo dilema na classe média alagoana: de um lado, a 'necessidade' de se resgatar as folias idas, em iniciativas que vem ganhando força nos últimos anos; de outro, a vontade de aproveitar carnavais consolidados fora daqui. Assim, em Maceió, o resgate vem em forma de prévia no bairro histórico de Jaraguá, com os bloquinhos de frevo; e na orla da Pajuçara, especialmente nos últimos seis anos, com o Pinto da Madrugada (numa clara alusão ao maior bloco carnavalesco do mundo).

Mas eis que chega a festa de momo, e enfatiza-se a contradição: enquanto os que reclamam a falta dos verdadeiros carnavais já curtiram sua nostalgia com os blocos pré-carnavalescos e deixam a cidade em busca de outras folias, e a classe baixa que não vai visitar parentes no interior fica na cidade (pois viaja na medida do viável e do possível). Em alguns lugares, o povo dá continuidade à uma tradição: os bois de carnaval. Após o concurso do bumba-meu-boi em Maceió, (uma polêmica chamá-lo assim, pois alguns pesquisadores afirmam que o que é apresentado no carnaval é o entremeio do folguedo, presente em todos os Estados do País e espalhado pelo mundo com suas variações culturais), ainda é possível assistir a algumas exibições, sem tantas indumentárias, bumbos e dançarinas.

Atualmente, mais de sessenta grupos em todo o Estado mantêm as apresentações no período, sendo os mais tradicionais o Boi Fubá, de Pão de Açúcar; e o boi de Zé de Liça, do município de Quebrangulo. ?Em Alagoas, os brincantes do guerreiro pegam o boi, presente no folguedo, e saem nas ruas para arrecadar dinheiro. É uma diversão e uma forma de sustento?, explica o folclorista Ranilson França. Para o concurso, entretanto, os grupos se preparam o ano todo.

O boi (mais tradicional) é o que percorre as ruas de Chã do Pilar, o boi do Cícero do Vale, que de amanhã até terça, apresenta-se pelas ruas da cidade, a partir das 10h. Aliás, o município ainda é uma prova viva que existe carnaval para além de programações oficiais e grandes centros: amanhã, também às 10h, da mercearia Santo Expedito, na Praça Nossa Senhor das Graças, sai o bloco Piriquitos do Anísio, com quase 50 anos de tradição, tirando as famílias das portas de casa e chamando para a folia ao som da orquestra da pequena cidade. Na terça-feira é a vez do Bloco Fura-Couro partir da rua da caixa d?água, às 10h30, para sacudir os moradores ao som dos frevos e das marchinhas. Sem forçar a barra, indo de casa em casa, acrescentando novos elementos a velhas tradições. Um carnaval como deve ser, sem que alguém diga ou imponha sua forma de existir.

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