Entre Branquinha, Zé Pequeno e BOPE...

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Paulinha Barboza · Camaçari, BA
8/10/2007 · 44 · 0
 

Entre Branquinha, Zé Pequeno e o BOPE , quem somos nós?

Há muito me intriga a violência urbana carioca mostrada nas telas dos cinemas. Sempre contemporaneizada com os problemas socioeconômicos de sua época, nos traduz uma imagem chocante do que acontece nas grandes cidades brasileiras.
Já se passaram onze anos que Branquinha e Japa causaram pânico ao seqüestrar, por engano, pai e filha norte-americanos (em â€Como nascem os anjos“, lembram?). Crianças de armas nas mãos surpreenderam menos em 1996 do que em 2002, já no â€Cidade de Deus“, sabe como é: o cinema nacional ainda não estava na moda. Mas, o que não surpreende e nem causa polêmica é a violência cotidiana nas favelas. E aí você pensa:
- Ah, mas isso tanto me comove!!
Sim e daí? Muito antes de Branquinha a vida real já produzia crianças para o crime organizado e a violência e a corrupção policial já corriam soltas nas metrópoles brasileiras, mesmo assim, a sociedade permaneceu inerte, em posição imparcial, de acordo com os interesses inerentes a cada uma das classes sociais. Afinal, quem criou a Cidade de Deus, o Zé Pequeno, a Branquinha, o Santa Marta e o BOPE foi o Estado com o consentimento pleno da sociedade. Nesse sentido, as classes mais pobres não reagiram por se sentirem impotentes ou por estarem constantemente oprimidas pela polícia ou pelo crime organizado. As elites não se manifestaram (a não ser nos casos de seqüestro) por disporem de aparato para se manterem relativamente distantes da guerra urbana e, de quebra, poderem lucrar com tudo isso. Mas, e a classe média?
Na classe média mora todo o nó do pacto social, onde convive a violência cometida pelo capitalismo e implementada pelo Estado. Há de se concordar com Max Gonzaga quando diz â€toda a tragédia só importa quando bate à minha porta“ e reconhecer a conivência de quem, mesmo tendo consciência e capacidade de discordar, reivindicar, criar problema, carregue consigo um quê de â€não tenho culpa“. E mesmo quando engajada nas discussões sociais, não abre mão de tentar igualar o seu padrão de consumo aos das classes superiores, ainda que esse padrão de consumo gere crianças para o narcotráfico (e nisso o â€Tropa de Elite“ está coberto de razão). Só aproveitando o ensejo para retornar à história do crime fica muito cômodo falar em narcotráfico e em violência policial desde que não haja ladrão na sua porta. Além disso, nos resta saber como cada um de nós reage quando algum neomalthusiano propõe a remoção das favelas. Esse tema, por fim, encontra-se em pauta, mas não se fala sobre ele uma palavra e nem se escreve sobre ele em nossas gratas discussões virtuais.



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