Entre ser/vil e bem/star

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sandra vi · Petrópolis, RJ
30/3/2007 · 23 · 1
 

Aqui em Petrópolis temos um número muito maior do que o aceitável, se é que é possível aceitar algum, de roubos à crianças e adolescentes, entre dez e dezessete anos, quando estão saindo da escola ou de outro tipo de aulas, em plena luz da manhã ou da tarde, em algumas das calçadas mais valorizadas do centro histórico, o que por aqui significa centrão da cidade mesmo! São assaltadas por outras crianças e adolescentes, entre treze e dezessete anos, conforme as descrições que as vítimas fazem...
Estão há mais de um ano nos jornais locais, em matérias nas TVs locais, ouvi causos ou estórias de filhos de conhecidos, o sobrinho do vizinho, essas coisas. É sempre o mesmo roteiro, lá vai a mochila, com tudo dentro e também acessórios como mp3, colares, pulseiras, anéis, relógios e é claro... os tênis, símbolos da inssa/so/ciedade de consumo predatório, diriam alguns mais exaltados... Ficam os roubados assim descalços, alguns chorando, uns zangados, outros sem graça, todos em diferentes tamanhos de pânico.
Dias atrás, conheci uma mãe cujo filho foi assaltado, também saindo da escola, meio-dia, em plena Avenida Koeler, ao lado do belo casario e do Palácio Rio Negro (onde se hospedavam presidentes e outro dia se hospedou o governador...), mas nesse caso, não foi assalto rapidinho sabe, arranca a mochila e sai correndo, não, os caras sacanearam, humilharam e tal. O guri, dezesseis anos, ficou bem passado, a família cuidadosa, mandou pra psicóloga, dias depois ele sofreu outro assalto, saindo da sessão de terapia!!
Na rua atrás do famoso Palácio de Cristal, quatro da tarde, um amigo encontrou um menino chorando de cabeça baixa e meias brancas, ainda deu pra ver logo à frente outro menino pouco maior com os tênis na mão. Meu amigo tentou ajudar, e começou a gritar “Pega! Pega!†pros taxistas da esquina, mas, o que tinha sido roubado pediu para ele parar: “O garoto vai me marcar, eu moro aqui pertoâ€.
Dizem os números oficiais que vivemos num dos lugares mais seguros do país. Bem, se pararmos pra pensar que 60 km pra baixo, no Rio e mais pra lá, Brasilzão adentro, crianças matam crianças, matam adultos que matam crianças, (alguns inclusive à mão, em casa mesmo), por que tanto sentimento por algumas mochilas e alguns objetos?
Primeiro porque penso ser óbvio que esses pequenos delitos são apenas partes primeiras de uma mais que provável pessimamente crescente trajetória, ora, os guris vão se aperfeiçoando, porque sei que agente ainda se a/bala. E é claro, porque meu menino anda por essas mesmas ruas, cheio de luz/alegria de viver.
Escrevendo este texto, lembrei de quando fomos ao Parque Municipal em Itaipava, soltar pipa com os meninos, como todo mundo que vai até lá, enquanto os dois guris e o amigo estavam na boa curtindo as cores e os vôos delas, perto, numa árvore, ficaram mochilas, coisas soltas, e duas pipas. Eu estava a uns dez metros de distância, quando um homem de bicicleta com um guri pequeno, parou, pegou uma das nossas pipas e saiu na maior, fiquei injuriada e gritei pro amigo: “O cara da bicicleta tá levando a pipa!â€. Quando o amigo parou o cara na curva, dissemos: “Pó, era só dizer: tô duro, meu menino tá louco pra soltar pipa, pode soltar junto, ou dar sei lá, mas levar assim na cara dura tá erradoâ€. Ele fez pose de indignado repetindo que tinha comprado na entrada, (naquele tempo ninguém vendia pipa por lá, hoje já tem no bicicletário), deu um cutucão no filho, perguntando com aquele tom de Insanta Inquisição: “Essa pipa é tua ou não é?â€. Pô, essa foi mais doída do que ver o cara pegar a pipa, botar o filho na roubada foi tirriver...
Uns quatro anos atrás, numa matéria na TV, um ladrão de bolsas e carteiras que atuava por estas mesmas ruas de Petrópolis (tendo como alvo predileto na época, velhinhas e velhinhos) respondeu candidamente para a repórter: “Ah! a gente pega o ônibus na Baixada, vem fazer uns selvicinhos por aqui que é bem mais tranqüilo, né, e de tarde a gente volta pra casa...â€
Afinal durante quanto tempo se cultivou e glamurizou a imagem do homem do Rio e do brasileiro em geral, como aquele mais que astuto, ardiloso e vil em suas tramas e tramóias? Em Petrópolis eles andam “pelo mau caminho†com uma linda paisagem em clima ameno... é bem mais tranqüilo.
Sei que é de nossa natureza construir e desconstruir. Quando soube que eu ia virar síndica, outro amigo conhecendo a mais de trinta anos meus atos e desatinos carburantes detonantes (maiores detalhes num comentário sobre o texto Eu odeio pessoas burras) exclamou: â€Cara vão te matar em seis meses!â€. Sei que a gente exclui e estranha dentro de todos os extratos, camadas, micro e macro grupos, a gente exclui e nega e desdenha partes de nós mesmos!! Por que não os/dos outros!?
Não estou aqui pra dar uma de busca da santidade, nem demagogia de Pollyana, sem nossa parte de tormento e revolta, não sobreviveríamos como espécie, mas é inegável que o tanto de estranheza, desarranjo ou contrariedade no tempero do chamado caldo social, pode andar ou desandar o desenvolvimento de uma região, de um país. De menos ou sob total controle não existe, já por demais, o que parece passível de vir a ser, se já não é, (há controvérsias, entre os ainda vivos) é o horror na sua mais crua crueza.
Busco encarar sem asco o mais estranho em mim e no outro, não quero sentir nenhuma estranheza por aquele meu semelhante que cheira mal, que berra nas ruas, que está prisioneiro numa fazenda, des/perdi/çadi/do numa selva urbana, não me permito esquecer das meninas vendidas, comidas pelai, nem dos que levam oito horas de carroça, bote, pra chegar numa escola.
Nos últimos três anos, por ler, ver e ouvir e entrevistar pessoalmente, necessitantes, participantes e uns ditos bambas do universo hoje genericamente denominado de “socialâ€, conheci experiências impressionantes de transformação positiva tanto de gente e lugares que viviam entre o falta tudo e o horror, quanto de grupos que até não viviam, como diríamos, mal... Conheci luminosos agrupamentos de seres/fazeres/ em razoável harmonia individualmente coletiva, no campo e na cidade.
Considerando nossos séculos de desleixo, descaso, desacerto, desmando, des/administração, desatino, pra tentar ser um lugar senão melhor, pelo menos razoável, pra não darmos uma de num tô nem aí pro angu, só se a gente, a gente, os ímpares, os soltos unidos, os des/e/organizados, os grandes amigos sozinhos, em coletivos vários, empreendermos pequenas grandes coisas!
Sei que a bola, a hora, tá com a gente, sempre esteve, aliás. Entre teses, hipóteses, dados im/proba/possibili/dades, rios de relatórios, fatos concretos e in/ou/visíveis, sei um que vale, é o de multi/aplicar nossas habilidades, nossas artes, entre alguéns que a gente não conviveria por algum motivo ou razão, é só escolher uma ati/vida/atitu/de pra participar, uma vez por mês já ta bom.
Uma das pessoas/histórias que conheci, cresceu e amadureceu num lixão, com uma máquina de costura e retalhos e roupas que alguéns de nós jogamos fora, ela começou a produzir peças e mais peças, numa entrevista ela explicou maravilhosamente sua força de boa/vontade: “Sabe, a gente pode morar mais ou menos, pode vestir ou comer mais ou menos, mas a vida, a vida a gente não pode viver mais ou menos, tem que viver mesmoâ€.
Reluzfaisquemos, por inteiro, meus queridos des/conhecidos.

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Bia Marques
 

incandescências, mulher!

Bia Marques · Campo Grande, MS 31/3/2007 16:09
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