Família Gretchen

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Dico da Fonseca · Porto Alegre, RS
30/7/2007 · 23 · 2
 

Eu gostaria de registrar aqui o meu carinho pela "família Gretchen". Só o fato de lembrar de minha irmã cantando para mim, em minha infância, o Conga, la conga e fazendo paráfrases/paródias numa seqüência de calçados (Chinelo, chinelo, chinelo..., Tênis, tênis, tênis...) já seria suficiente para legitimá-lo. No entanto, esse sentimento surgiu nesses últimos meses e reacendeu esta lembrança saudosa.

Quando menciono a família Gretchen, estendo este carinho à Tammy, a filha da dançarina/cantora que há alguns meses teve seu nome e imagem veiculados na mídia pelo fato de ter assumido publicamente a sua homossexualidade.

Apesar desse ato honrado e corajoso, o que mais me agradou nesta moça foi o seu carisma, a sua simpatia e, acima de tudo, o contraste entre um visual “masculinizado†e uma fala e postura suaves e delicadas. Achei interessante a maneira como a jovem respondeu às questões que lhe eram impostas no programa sensacionalista “Boa noite, Brasilâ€, emitido pela Band: sempre com educação, coragem e maturidade.

Não só o ato de assumir a sua homossexualidade em público merece respeito, mas, sobretudo, o fato de assumir o quanto no passado havia suprimido os seus desejos e adulterado a sua identidade com o objetivo de agradar a sua mãe, sempre envolvida em shows.

É claro que isto provavelmente tenha feito com que muitos encontrassem aí a razão pela qual a menina “transformara-se†em uma lésbica. Afinal, com a ausência da mãe, haveria uma identificação com a imagem do pai e daí, babaus, eis que a menina vira menino! Pois, sim!

Minha intenção não é fazer uma leitura freudiana do caso. Sinceramente, creio que isto tenha sido muito importante na construção de sua identidade, mas até que ponto isto foi decisivo, são discussões que não estou interessado, não tenho condições nem vontade de tecer. Entretanto, não poderia deixar de relacionar seu comportamento maduro e doce com a sua relação paternal. Segundo ela, seu pai deu-lhe apoio de modo incondicional, independentemente de sua orientação sexual. É mole ou quer mais? Plaft, plaft, tapa na cara de muitos!

E, aproveitando a deixa freudiana, um outro motivo que me fez tomar a decisão de escrever este pequeno texto foi ter visto em uma destas casas de shows aqui do centro de sampa a informação de que a Gretchen iria fazer um show erótico. É óbvio que o fato em si não tem nada de extraordinário, mas sim o fato de ela assumir em público sua postura religiosa: independente do que faz com o seu corpo e a sua imagem, Gretchen afirma ser cristã e mais especificamente evangélica!

Ah, como isto me delicia! Na verdade, não morro nem um pouquinho de amores pelos evangélicos, mas comecei a ter um carinho especial por esta em específico só por parecer tão contraditória aos princípios reacionários evangélicos que tenho escutado ultimamente.

Mas a questão ainda não é essa! Não é o ar provocativo que me agrada, mas sim a beleza do ato. Por qual motivo uma pessoa que faz shows eróticos não poderia ser cristã? Não vejo impedimento algum, somente dignidade. Sempre fico imaginando estas pessoas que se dizem corretas demais, santinhas demais, boazinhas demais, “cristãs†demais, fazendo diabruras entre quatro paredes.

Não que eu acredite em diabos como entidades autônomas como o pregam estas religiões medievais, paradoxalmente tão em voga na atualidade. Na verdade, – mais uma vez aproveitando a deixa do parágrafo anterior, mas agora uma deixa sartreana –, o inferno é os outros! Sobretudo, (e voltando aos paradoxos) os outros que insistem em fugir do capeta, pois – agora conforme Nietzsche –, talvez estejam expulsando o que há de melhor em suas vidas!

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Dico da Fonseca
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FozIber
 

Profundo texto aond as contradições nos são mostradas exteriores a nós, os diabos personificados - nos púlpitos também os há, nem todos mas os suficientes. A história dessa jovem e um profundo agradecimento por parte do autor foi o suficiente para levantar e reforçar as polémicas que teimam em perdurar. Muito bem e muito bom.

FozIber · Portugal , WW 29/7/2007 06:27
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FozIber
 

Peço perdão pelo dúbio de uma afirmação minha no meu comentário anterior e que passo a ressalvar: polémicas sobre hipocrisias que teimam em perdurar e, por exemplo, a que chamam - por não terem argumentos -, de contranatura como se nós tivessemos imaginação para sermos anti-naturais. »

FozIber · Portugal , WW 29/7/2007 07:39
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