Finlandia – Sobre uma tour que deu certo

Kazuo Kajihara
Apresentação na Cerveceria Nacional (Chile)
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Tiago Barizon · São Paulo, SP
23/9/2010 · 20 · 0
 

No último sábado, dia 18 de outubro, em São Carlos (SP), encerramos a tour de lançamento de “Nandharaâ€, do duo Finlandia, composto pelo violoncelista brasileiro Rapha Evangelista e pelo acordeonista e pianista argentino Mauri Candussi.

Foi um show muito especial, que não rolaria sem o apoio da Fátima Camargo e da Gabi, do projeto Contribuinte da Cultura, e da Daniela, Gustavo e todos os outros do Massa Coletiva, que nos receberam tão bem. O Espaço 7, onde rolou o show, se parece muito com a Cerveceria Nacional, em Santiago do Chile, local da primeira apresentação. Ficou aquela impressão de um ciclo que se fechou. Foi emocionante participar de tudo isso.

Mas, corporativista que sou, no melhor dos sentidos, não poderia deixar de analisar e passar aqui algumas notas sobre como essa tour aconteceu. Acho que muita gente se surpreendeu ao saber que essa tour não só se pagou como gerou meu pagamento de produção e ainda sobrou uma grana, mesmo que não muita, para os músicos. Isso se tratando de um projeto muito novo, com menos de um ano. Tour que não tem que pagar para rolar parece ser a exceção por aqui, então vale pormenorizar alguns fatos aqui.

No final fora 35 shows, mais de 35.000 km rodados, dois meses e meio na estrada, mais de 600 cds vendidos. Muitos day off, mas que permitiram ao Rapha e ao Mauri perseverar ao longo desse período todo, melhorar seus arranjos e ainda compor material para mais outros dois lançamentos que já estão programados.

A tour foi totalmente independente, sem apoio de nenhuma empresa ou edital. Todos os contatos foram feitos exclusivamente pela produção e, principalmente, pelos próprios músicos.

Quando o Rapha veio me falar pela primeira vez desse projeto eu não comprei a idéia logo de cara. Achei difícil de virar, um duo que toca música argentina e brasileira sobre bases eletrônicas. Sem ouvir ainda o som achei que sairia algo como o Gotan Project, misturando os ritmos do Brasil. Pensei que o circuito seria muito restrito.

Quando as datas começaram a aparecer, minha primeira surpresa. A agenda logo contava com datas tanto em teatros como em casas de shows. Centros culturais e institutos estavam apostando na idéia. Locais com a predominância de bandas de rock como o Asteroid (Sorocaba) e a Casa Fora do Eixo (Cuiabá) marcaram shows. Assim como grandes casas de concerto, como a Sala Vespucio de Santiago, o Centro Cultural São Paulo e o Centro Cultural BNB (Fortaleza).

Acredito que os fatores que ajudaram a fechar essas datas foram os segiuntes:

1 – A proposta musical do grupo
2 – O fato de ser uma dupla
3 – O diálogo com artistas da região
4 – Postura profissional

Vamos lá, por partes.

A proposta estética do Finlandia.

É uma pena ver que isso acontece, mas o excêntrico em uma proposta muitas vezes ganha mais do que qualidade musical. Claro que isso não quer dizer que o Finlandia não tenha qualidade musical, mas em muitos lugares o destaque ficava mais pelo fato de ter a mistura do que nas composições. No Brasil colava muito bem falar que o projeto era internacional, com um argentino. Na Argentina o mesmo acontecia, com um brasileiro na formação. Fora do Brasil e da Argentina, o encanto era redobrado. Some-se a isso a formação, violoncelo, acordeão e piano, sobre bases eletrônicas, relendo ritmos como o tango, cumbia, milonga, bossa, frevo, baião.

Se o Finlandia fosse um grupo de rock convencional, baixo, guitarra e bateria, por melhor que fossem suas composições, não sei se conseguiríamos fechar tantas datas.

Isso quer dizer que nenhum grupo de rock possa fazer uma tour que se pague? Ou então que toda banda com uma proposta de fusão de estilos e ritmos vá viajar com tudo garantido? Obviamente que não. Mas cada projeto tem que começar a planejar uma tour sabendo que é seu público e onde ele está para garantir algumas datas. E vale lembrar que viver de editais e SESCs é bom, mas perigoso.

Acima de tudo, o que sempre contou foi a qualidade do grupo junto com a proposta estética. Essa história toda de internet, cauda longa, redes sociais, sucessos virtuais, criou a falsa perspectiva de que qualquer grupo teria sua fama e sucesso garantidos se soubessem explorar essas mídias. Apesar da quantidade de lixo que vemos todos os dias na rádio, tv e em prêmios, sempre vai haver um grande número de artistas ruins, uma parcela razoável de coisas mediana e um pequeno apanhado dos que valem a pena escutar. E lixo sempre vai ser lixo, não importa se em cd, na tv ou na internet.

“Um duo que vale por milâ€

Assim falaram sobre o Finlandia no Baires, blog do portal da MTV.

Sem dúvida vale por mil também na hora de acertar uma tour! É infinitamente mais fácil negociar estadia e alimentação para duas pessoas do que para qutro. Fico pensando como que deve ter sido no começo do Móveis Coloniais quando eles queriam fazer uma viagem.

Um cachê de R$600 para duas pessoas é muito justo, para 4 ou 5 muitas vezes não serve nem como ajuda de custo.

Essa proporção garantiu em muitos momentos a continuidade da tour.

Interação com outros artistas

Além de querermos chegar e tocar, soa muito simpático convidar músicos locais para participar das apresentações. Além de enriquecer os shows, rola uma troca mesmo com esse pessoal. Em shows por paises como Peru e Chile, a mistura de ritmos fica ainda mais rica, no caso do Finlandia.

Mas para qualquer formato isso vale. Dividir o palco com um artista local é fundamental muitas vezes para conseguir um público com mais peso. E para o Finlandia uma chance de aumentar suas referências.

Trato profissional

Por último, mas não menos importante, a postura dos artistas e da produção durante o processo todo ajudou muito. Para começar, todos os shows foram negociados com pagamento, seja cachê ou bilheteria. Claro que isso não quer dizer que o grupo não possa se adaptar. Em alguns lugares em que o cachê não cobriria todos os custos, trocamos com um hostel as estadias por uma apresentação mais intimista para os hóspedes.

Alguns shows podem render uma mídia e exposição que não temos como medir e podem valer a pena, mas isso tem que ser analisado caso a caso. Não vejo motivo para todo ganharem alguma coisa com um show, menos o artista. Ele tem que se manter, afinal sem eles não existe mercado ou cena musical.

Vale ressaltar que essa tour foi planejada com alguns meses de antecedência, planilhada, conferida, nada feito no chute ou na base do “acho queâ€.

O resultado dessa tour ainda vamos perceber. Com o currículo e o clipping formado temos ainda mais argumentos para tratar a próxima tour, e a seguinte, e a que vier depois.

Com mais experiência, também já sabemos os pontos fortes e fracos na hora de estrutura uma tour. E nesse mercado novo, em que não existem fórmulas e manuais, meter a cara continua sendo a melhor escola.

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