Meu livro foi vendido em dois bazares. Eu fiquei no do Rio Vermelho, enquanto Paulinha, que também foi revisora do livro, ficou no bazar de Jaguaribe. O meu foi sexta e sábado, na véspera do dia das mães, e o dela só no sábado.
O meu foi feito num espaço novo no Rio Vermelho chamado Espaço. Foi construído dentro do conceito de engenharia ecologicamente correta. Não tem ar-condicionado, mas tem janelas enormes, dois andares com oito metros de pé-direito e descarga com dois botões. Botão 1 para descarga de três litros, botão 2 para descarga de seis litros.
No andar de baixo, na entrada, onde funciona a loja do Espaço, foi montada uma parte do bazar. Atrás desse ambiente, está o Café e o caminho para ir até o segundo andar, seja pelo elevador ou pelas escadas, para ver as outras coisas do bazar, que foram montadas lá em cima, onde funciona uma sala para diversas oficinas que acontecem por lá. E no hall do elevador e das escadas, em frente ao Café, estávamos eu e meus livrinhos.
Achei o lugar que me deram muito bom, tinha boa iluminação, era passagem obrigatória, e ainda tinha o Café, o que fazia muitos ficarem ali, esperando os quitutes.
Além disso, um bazar é basicamente de coisas voltadas para o artesanato. Tinha canetinhas, santinhos, enfeitezinhos, utensiliozinhos, acessoriozinhos... No andar de cima, tinha roupas, bolsas, pratas... Então, ali na passagem, eu ficava meio que distante do conceito bazar, o que achei interessante.
Às 14 horas, o bazar foi aberto. Logo de cara, chegou uma mulher, faixa dos 45, olhou os livros expostos, disse “oh, que lindo”, abriu um, ficou folheando e perguntou, ao ler na dedicatória impressa no livro “para meus pais, Paulo e Marlene...”:
– Você é filho de Paulo e Marlene? Menino, te vi na barriga...
Continuou olhando e disse:
– Mas não é infantil, de colorir?
– Não... é de ler...
Enquanto ela fazia o cheque, ela foi dizendo “mas menino, te vi na barriga”.
O marido dela chegou, ela me apresentou dizendo que eu era filho de não sei quem, ele disse que lembrava e foram embora.
– Menino, te vi na barriga – disse ela de novo, se despedindo.
Junto com o livro, estou entregando um pequeno estojo, especialmente e artesanalmente embalado para o livro, com quatro lápis de cera. Um souvenir.
Como foi a primeira venda, esqueci de dar o lápis a ela. Uns dez minutos depois, o marido dela apareceu, meio esbaforido:
– Esquecemos o lápis de cera.
Comecei bem. Fiquei confiante.
Logo depois, um cara chegou, olhou o livro, folheou e:
– Tá bonito – disse ele.
– Eu te conheço de algum lugar – disse eu.
Ele ficou me olhando fazendo aquela cara de quem tá pensando e respondeu:
– Da Berinjela?
– Isso... da Berinjela.
Berinjela é um sebo a que vou de vez em quando aqui em Salvador.
“Ele também vende livros”, pensei.
– Depois eu volto com mais tempo – finalizou ele.
Lembrei que diversas vezes eu digo em alguma livraria, inclusive na Berinjela, o clássico “depois eu volto com mais tempo”. Como tempo é dinheiro, “depois eu volto com mais tempo” quer dizer “depois eu volto com mais dinheiro”. Ainda mais quando vem depois do diálogo:
– Pô, muito bom seu livro, interessante, muito bonito, gostei mesmo, quanto é?
– Trinta.
– Beleza, depois eu volto com mais tempo.
Três senhoras apareceram. Pensei em contratá-las para vender o livro. Uma de verde berrante, outra de rosa berrante e outra de laranja berrante. Seriam as Para-Coloridas.
A de laranja berrante disse, ao ver o livro:
– Oh, que lindo... é para criança? – perguntou abrindo um e dizendo em seguida, desapontada, ao constatar por conta própria que não era o que ela imaginava: – Oxe, mas é pra ler e não pra colorir.
É nessas horas que eu fico feliz.
E ela começou a falar mal, dizendo que o nome não tinha nada a ver com o livro...
– Oxe, o nome do livro é Para Colorir, nada a ver, eu pensei que era uma livro de colorir, aliás, DEVERIA (ela disse com bem ênfase o “deveria”) ser um livro DE ( o “de” também) colorir... é cada uma... Quem é o autor? – perguntou para mim.
– Eu.
– Ah, meu filho, como é que um livro se chama Para Colorir e não é de colorir? Sinto muito, mas você errou no nome.
Juro que pensei em dizer “e você acha que acertou com esse laranja berrante?”, mas me contive. Também não dei muita atenção. Não quis tentar expor o meu ponto de vista para ela. Ela saiu de mau humor. Que otária. Otária berrante.
Uma ex-namorada apareceu e disse que ia olhar o bazar inteiro e que depois voltava pra comprar o livro, que iria pagar no cartão.
O bazar aceitava cartão. Uma das expositoras tem uma máquina.
O negócio estava bom. Um livro vendido pra uma mulher que me viu na barriga e outro para uma ex-namorada.
Uma mulher que passou por mim diversas vezes, e que em todas dizia “vou comprar o meu, mas no final”, finalmente comprou.
– É para meu afilhado, Bruno. Gosta muito de ler e gosta muito de música, ele tem uma banda, se chama Os Jones, já ouviu falar?
– Acho que já – menti.
Valeu, Brunão. Força para Os Jones.
Vendi o quarto livro às 18:37.
Uma menina, aproximadamente 24 anos, comprou para ela. Estava acompanhada da mãe. Pagou no cartão. Na subida para chegar até a máquina, puxei assunto:
– O livro é para você?
– É, sim.
– E você já tinha ouvido falar no livro ou conheceu agora?
– Conheci agora. Mas gosto muito de ler e aí compro muito livro e vou lendo. Gostei da capa e da história do seu.
Perguntei quais eram os seus escritores favoritos.
– Stephen King e Paulo Coelho.
Gostei da sinceridade. Nada contra o Paulo, mas é difícil alguém assumir que gosta de ler Paulo Coelho. Irônico é que ele é o mais vendido, o mais traduzido, o mais tudo... mas ninguém diz que lê.
Muitos param e perguntam do que se trata o livro. De tanto responder, fui ficando com o discurso afiado. As perguntas eram as mesmas: “Por quê o nome é Para Colorir?”, “fala do quê”, “é pra criança?”.
Uma mulher de uns 38 viu o livro, pegou, disse “oh, que lindo” e chamou sua filha, Juju, de 4 anos, para ver.
– Venha ver, Juju, que lindo...
Aí ela abriu bem em uma página que tinha em caixa alta a palavra “PUTAQUEPARIU”. Folheou um pouco mais e abriu em outra que tinha a frase “porra de reggae, eu quero ter uma banda de rock, PORRA”, e fechou o livro na mesma hora.
– O que é, mamãe? – perguntou Juju.
– Nada não, vamos ver lá em cima o que é que tem – largou o livro na mesa e se virou bruscamente.
Carlão apareceu no bazar. Carlão é um amigo da oitava série, que desde 1995 eu não via e que foi no lançamento do livro. Ele está no livro, em uma história que eu conto que em um trabalho da escola, de última hora, eu decidi dar a guitarra pra ele se apresentar, ao invés dela ficar comigo, e quando ele se viu com a guitarra, inflamou, achou que o mundo era dele e entrou na sala dando um chutão na porta e gritando “ROCK AND ROOOOOOL”. E Carlão não era nada do rock. Nem ouvia.
Ele ficou conversando comigo e observando as pessoas que paravam para perguntar sobre o livro.
“Por que o nome é Para Colorir?”, “é de colorir? é de criança?”, “fala do quê?”
Aí eu dizia que era músico e que tinha um blog e, depois de dois anos escrevendo, quando cheguei a 120 crônicas, selecionei algumas, fiz outras inéditas, coloquei numa ordem que conta uma história, mesmo as crônicas sendo independentes, e que começa com um texto do dia que ganho minha primeira bateria e que termina quando eu saio do meu último projeto musical e resolvo largar o rock para tentar a literatura.
– Pô, massa, quanto é?
– Trinta.
– Massa, valeu, depois eu volto com mais tempo.
Carlão disse que vender livros no Brasil é difícil, que eu tinha de traduzir o livro pro francês, que lá ia vender.
Uma expositora de pratas do andar de cima desceu para olhar o livro.
– Amanhã eu compro – disse ela.
– Beleza – disse eu.
– Leve agora e amanhã você paga – disse Carlão.
Ela levou o livro e, quando foi embora, Carlão me deu uma bronca dizendo que eu não tinha tato para vendedor.
2º dia. Sábado.
Duas mulheres apareceram, me viram, e uma delas disse, entusiasmada:
– Ricardo?
– Oi...
Ela tinha acabado de ler o livro e a sua colega estava lendo ele no momento. Parou, segundo ela me disse, só para ir no bazar. Disse que estava na página 86.
– Eu queria muito te encontrar, para falar do seu livro...
– Você sabia que eu estaria vendendo o livro aqui?
Ela não sabia, foi lá para dar uma olhada e viu os livros expostos e, segundo ela, “a ficha foi caindo”.
Conversando, descobri que ela leu o livro da amiga, antes mesmo da própria amiga, que ganhou de aniversário de um amigo. Como 90% da venda do livro passa por mim, eu perguntei quem foi o comprador. Ela disse o nome e lembrei na hora.
– Fiz uma dedicatória pra você falando das baratas, né?
– Issoooo – disse ela, entusiasmada.
O comprador do livro me disse, enquanto pensava na dedicatória:
– É um presente para uma amiga que viu seu livro na minha mão e se identificou muito com o texto das baratas.
A amiga, que já leu o livro, comprou um para ter o dela.
Uma outra mulher (aliás, você aí que tá solteiro e fica procurando mulher nos bares da vida, deveria freqüentar os bazares da vida. Só tem mulher) olhou o livro, fez as perguntas A, B e C, a conversa fluiu e descobri que ela é produtora de um programa de rádio daqui de Salvador, que eu já tinha dado entrevista para falar do livro. Mas no dia em que eu fui, ela estava no período de férias.
– Ah, você já foi lá no programa?
– Já. Até deixei um livro lá.
– Ah, foi?! – perguntou ela, bem surpresa.
Quase que eu digo “aliás não, me lembrei agora, não deixei não, me enganei”, mas achei melhor não.
– Foi, deixei um lá – disse desestimulado.
Ficou aquele clima chato, ela olhando o livro, fazendo caras e bocas, batendo as unhas no livro, meio com vergonha de se despedir sem comprar... mas se despediu e se picou.
Eu e minha boca maldita.
Depois Cris apareceu com umas amigas. Duas delas compraram e pediram dedicatória. Na segunda dedicatória, me deu um branco, não lembrava o nome da menina. Já saímos juntos algumas vezes, mas foi branco mesmo. Usei todos os truques, perguntei “é para você mesma?”. Ela podia responder:
– É, sim, eu mesma, Fernanda.
Ou então:
– Não, é para minha prima, Silvana.
Mas ela disse só o “isso, para mim”.
Olhei para Cris com aquela cara de me socorra, não sei o nome de sua amiga, me salve... e Cris, mais uma vez, me salvou, dizendo:
– Paula, ele esqueceu seu nome.
– Paula – repetiu Paula, quase na mesma hora.
Tentei me redimir na dedicatória, mas acho que não tinha mais jeito.
Depois, em casa, Cris disse que tentou, mas que não teve jeito, que a melhor saída que encontrou na hora foi dizer a verdade.
Disse a ela que ela podia ter feito a mesma coisa, só mudado a frase, dizendo “Paula, depois vamos lá em cima ver as bolsas”.
Um cara com uma bateria estampada na camisa apareceu no café. “Livro vendido”, pensei. Se aproximou, a conversa de sempre aconteceu (com ênfase na parte da primeira bateria), e perguntei, confiante:
– Você toca bateria?
– Ah, não, comprei na loja tal (ele disse o nome da loja, mas me esqueci). Eu sempre quis ter uma bateria – continuou ele –, sonho de criança, mas cresci e fui deixando pra lá.
A mulher dele apareceu e o levou lá pra cima. Gastou todo o tempo comprando bolsas e roupas. Quando desceu, passou por mim já se despedindo:
– Eu ainda tenho outra camisa igual em casa, só que vermelha.
– É mesmo?! Poxa, que legal! – disse eu.
Uma meio riponga abriu também em uma página onde tinha “PUTAQUEPARIU” escrito.
– Sabia que isso aqui é o nome de uma cidade de Minas Gerais?
– O quê?
– Isso aqui – ela virou o livro e apontou para o PUTAQUEPARIU.
– Putaquepariu? – perguntei.
– É...
– É mesmo?! Poxa, que legal! – disse eu.
19:20
“Se todas fossem iguais a você...” ²
Incrível, uma mulher chegou, disse “ai, que lindo”, folheou rapidinho, disse “que lindo” de novo e perguntou quanto custava.
– Trinta.
– Me dê dois – disse no ato.
Essa foi rock.
Um casal de gays se aproximou.
– Que lindoooo... a-do-rei, você que escreveu?
Respondi que sim.
– Nossa, a-do-rei...
Quase que eu digo “então com-pre”.
– Ah, mas não é de colorir?
Disseram que iam no andar de cima. Tomara que não voltem com sacolas com bolsas dentro. Mas todas voltam com sacolas na mão. Uma amiga minha que vende bolsas faturou legal.
– Um país se faz com mulheres e bolsas, Lobato.
Agora foi a vez de uma mulher com vestido de onça.
Perguntou sobre o livro e disse que ia comprar para um amigo que era músico, mas que antes ia dar uma olhada lá em cima e subiu. No mesmo instante, apareceu uma outra vestida com uma camisa de malha estampada com aquelas duas máscaras que representam o teatro. Uma sorrindo e outra chorando.
Eu fiz uma sacola para ser entregue com o livro e, na sacola, colei com uma fita dupla-face o tal estojo com os quatro lápis de cera.
– É um imã? – perguntou ela, puxando o lápis.
TEC, e a fita-adesiva descolou, fazendo os lápis caírem no chão, se espatifando. Ela puxou com tanta força que, além de descolar a fita-adesiva, rasgou o papel.
– Não, é fita-adesiva – respondi, com a máscara do sorriso na cara, pegando o lápis no chão.
– Ah, e vem com o livro?
– Vem, sim.
– Poxa, e para quem chegou atrasada?
– Hein?
– E para quem chegou atrasada? – repetiu ela, também com a máscara sorridente.
“Atrasada para onde, minha senhora? A senhora quer dizer: ‘e para quem não vai comprar o livro, tem lápis também?’”
Mantive a máscara do sorriso, peguei um estojo e dei para ela, que subiu.
E os gays desceram. Felizes e sacolejantes. Fingiram que eu não estava na mesa e passaram direto.
Vi então a de oncinha descendo as escadas. Estava cheia de sacolas odiosas na mão.
Quando eu tinha uma banda de cover dos Beatles, a gente costumava dar apelidos às músicas.
You won’t see me ³, por exemplo, era uma delas. A apelidamos de You oncinha. “Vamos tocar You oncinha”, dizíamos, ao invés de You won’t see me.
Quando ela veio descendo as escadas, fiquei cantando na mente:
“You oncinha (you won’t see me)
you oncinha (you won’t see me)...”
Foi quase um mantra. Meu obrigado aos quatro de Liverpool. Oncinha levou um livro.
Na hora de arrumar as coisas para ir embora, liguei para Paulinha para saber como estava lá, no outro bazar. Ela disse que também já estava indo embora e que vendeu cinco livros. Perguntei o perfil dos compradores:
– Porra, teve de tudo, inclusive uma senhora de uns 75 anos que comprou por causa do título...
– Putz, então ela achou que era para criança?
– Não, eu expliquei a ela, e ela disse que iria comprar mesmo assim, que tinha de comprar um livro que era para colorir e comprou.
“Through the wide screen I'm gonna see me kissing you babe, in tecnicolor” ⁴;;
United Colors of Para Colorir
O livro Para Colorir quer provar que ele é para colorir e está lançando o concurso “Para Colorir”.
Escolha uma ou mais ilustração do livro e pinte. Pode colorir quantas quiser. Estou disponibilizando aqui todas as ilustrações.
Você pode imprimi-las, treinar nelas e depois passar para o definitivo, no livro. Após pintar, bata uma foto e mande para paracolorir@gmail.com
Dez serão premiados por um júri altamente qualificado: eu, Ricard Sans (o ilustrador do livro) e Chiara, minha sobrinha de seis anos.
A premiação será uma camisa do desenho escolhido pelo pintor.
Junto com o livro, mando quatro lápis de cera. Um verde, um azul, um amarelo e outro vermelho. Porém, pode usar outras cores e outros tipos como hidrocor ou lápis normal. Recomendo o lápis de cera, até pelo tipo de papel do livro.
O prazo de entrega é até o dia 15 de junho de 2008.
___________________
(1) Bailes da vida, de Milton Nascimento e Fernando Brant.
(2) Se todos fossem iguais a você, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.
(3) You won’t see me, de Lennon e McCartney.
(4) Tecnicolor, de Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias.
Fico feliz em saber. Tanto tenho certeza como espero seja mesmo
o teu esforço (imagino o esforço que é escrever um livro assim), venha ser coroado de êxito para ti e não apenas para os vindouros
abraço
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