Forró em Canindé

Ratão Diniz / Imagens do Povo / IMA
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Thiago Paulino · Aracaju, SE
20/6/2007 · 40 · 2
 

A festa estava bonita, a vizinhança se mobilizou toda. O “Arraial dos Namorados” enfeitou a rua com bandeirinhas coloridas e palhas de coqueiro. A beleza maior, no entanto, estava nas crianças correndo com roupas juninas, moradores sentados nas suas portas olhando a movimentação. Pequenas barracas de comidas juninas exalavam os perfumes de seus sabores. Canindé do São Francisco (SE) já está recebendo as bênçãos dos santos festeiros dessa época. E, desde início de junho, Santo Antônio, São João e São Pedro olham a cidade em festa.

Os moradores do município que fica na beira do Rio São Francisco têm o hábito fazer os arraiais de rua ou de bairro. Estimuladas pelo projeto “Minha rua é 10” da prefeitura, as ruas disputam prêmios para a maior animação e beleza do arraial. “Já estamos no terceiro ano fazendo este projeto. O custo é baixo e é aí que está o verdadeiro São João, moradores se organizam para fazer as comidas, arranjar os tocadores”, comenta José Pedro, secretário de turismo de Canindé.

As origens dos festejos juninos no nordeste estão muito ligadas à religiosidade e também à celebração da colheita. Mesmo com os processos de urbanização, os arraias são mantidos como forma de brincar em comunidade e festejar os meses mais chuvosos. Quem conhece as diferentes paisagens das regiões do agreste e sertão nordestinos sabe que tudo se modifica no inverno, a paisagem seca e árida das caatingas retorcidas cede espaço para um verde forte e vivo. É quase como uma espécie de natal do sertanejo que vê o verde renascendo e junto com ele uma maior fartura.

Festa na rua

O “Arraial dos Namorados” estava cheio. No comando da sanfona Gilson e seu trio Os pestinhas do Forró. O nome da rua? Algumas meninas têm dificuldade de informar, apontam para um senhor que observa atentamente o trio fazendo suas evoluções na zabumba, triângulo e sanfona. O senhor estufa o peito e fala: “Rua Errrcílio Porrrrfídio de Brito” ( assim mesmo com os ‘erres’ bem puxados como os locutores da antiga era dos rádios). O sanfoneiro Gilson, que é do município vizinho de Poço Redondo, além de tocar o fole distribui sua simpatia tirando uma graça, no meio da música, com a desenvoltura dos casais de dançarinos. Após algumas músicas uma pausa: alguém no microfone anuncia a entrada da quadrilha Pé no Salão. Todos vestidos de cangaceiro e maria-bonita: não podia faltar também as figuras do noivo, da noiva e do padre. Amplificados pela caixa de som, somente a zabumba, o triângulo e o microfone do “puxador”. As sandálias batidas na rua de paralelepípedos fazem o resto da percussão que é acompanhada pelo coro de vozes dos integrantes da própria quadrilha.

A Pé no Salão foi campeã em um concurso de quadrilhas realizado em Canidé no ano retrasado. Tem como uma de suas especialidades a dança do xaxado(1) que ajudou o grupo a levar alguns campeonatos. Quem traz essas informações é Odom, de 12 anos, que ao perceber que estou tomando algumas notas, sobe no meio fio da rua para tecer, no pé do meu ouvido, alguns comentários de especialista. “Esse passo é muito bom” (...) “aquela menina dança muito bem” (...) “o outro puxador é bem melhor” (...) “aquele outro é muito bom no xaxado” e fala apontando um sujeito magro de camisa laranja. Realmente o cangaceiro vai pro meio da roda atrás de sua dama, e tome xaxar. Sua perna parece de borracha, mas bate firme no chão. E haja fôlego para cantar e dançar ao mesmo tempo. Odom me fala que a quadrilha está com outra formação e que já foi bem melhor. Após afirmar que ele é uma especialista pergunto se ele também dança quadrilha. Ele estufa o peito e solta um suspiro, dizendo que está “dando um tempo” e eu acrescento: “por enquanto”. No meio da rua a dança continua faiscando: as damas vão uma a uma para o meio da roda e seus pares saem “à caça” xaxando. Empolgados os jovens da Pé no Salão cantam: “Óia eu aqui de novo, xaxando / óia eu aqui de novo, para xaxar... vou mostrara para esses cabras que eu ainda dou no coro/ isso é um desaforo que eu não posso levar..”(2). Com alguns integrantes roucos de tanto cantar a quadrilha segue “o caminho da roça” e faz sua despedida.

Zabumba e forró

Mais uma pequena pausa, alguém anuncia que o projeto Revelando os Brasis está na cidade. A festa segue. O sanfoneiro Gilson e seus Pestinhas do Forró retomam a festa. Já tarde do forró, um sujeito de camisa vermelha e boné se aproxima por trás do zabumbeiro como quem não quer nada. Aí que aparece um momento interessante da festa ... a transição de um tocador pro outro. O cabra de camisa vermelha começa a pegar a zabumba e o outro entregando o instrumento não pára de dar sua batida. A destreza do novo tocador é claramente perceptível nos belos solos percussivos, “castigando” a zabumba. Gilson, que não é besta, percebe a mudança de zabumbeiro acelera sua sanfona e solta: “Ói.. esse cabra que pegou a zabumba é bom!”. O centro da rua agora é ocupado pelas performances dos casais cada qual com seu estilo peculiar. Seu Zé Grande, sujeito alto, como a alcunha já diz, porte elegante, camisa de botão aberta no peito, chapéu de massa, na faixa de seus 70 anos e pai de nove filhos é um dos mais animados. Não deixa seu par descansar uma música. Uma moça baixinha que é animação em forma de dança está no mesmo nível de desenvoltura, trocando de parceiro toda hora, mas nunca ficando parada. Encostados na mesa de som, três amigos gaiatos soltam gritos e dão suas gargalhadas ao observar os casais levantando a poeira do arraial. É mais uma noite da época de São João, na rua de uma cidade na beira do rio São Francisco e o forró segue arrastando pé na madrugada.


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1. Xaxado é dança de trabalho e de celebração da colheita. A batida do pé no chão imita a o puxado da enxada (também chamada de xaxado) no roçado arrastando a terra para fortificar o pé de milho, feijão ou fava. In: PAULINO, José. Vozes e Toques Sergipanos –Forró, Toadas e Aboios

2. Óia eu aqui de novo - Feita no final da década de 70 pelo compositor Antônio de Barros e presenteada ao rei Luiz Gonzaga. A música foi um desabafo e ao mesmo tempo uma bela resposta de Gonzagão para aqueles críticos que diziam que ele estava velho demais para cantar seu forró.

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Professor Paulino
 

O texto Forró em Canindé veio numa hora boa porque mostrou a celebração do ciclo junino numa cidade do sertão sergipano onde o povo não é expectador, mas brincante. Forró é para se dançar! Os mega-shows que acontecem nas cidades que nsta época disputam o maior São João são mais espetáculos para se assitir do que para dançar.
O Forró em Canindé (SE) mostrou este lado da participação do povo. Gostei.

Professor Paulino · Aracaju, SE 20/6/2007 23:14
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Thiago Paulino
 

Profesor,
Vc captou bem o espírito do texto... ifelizmente a iniciativa de se estimular os arraias de rua como a da prefeitura de Canindé é um exceção. A maioria das demais administrações prefere o forró espetáculo.. o que acaba deixando de lado este belo acontencimento que é brincar em comunidade. Obrigado pelo elogio.

Thiago Paulino · Aracaju, SE 21/6/2007 01:25
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