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Inserções filosóficas: Desejo x Vontade

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leandroDiniz · Niterói, RJ
24/3/2007 · 19 · 0
 

Da diferença entre desejo e vontade

Essas duas palavras geralmente dão a entender a mesma idéia, na corrente usual elas denotam o mesmo significado, mas cujas apreensões vão muito além da mera similaridade. São modos diferentes. E sempre poderemos alegar que procurar a diferença entre as duas é querer encontrar nada onde não há coisa alguma, e para que essa diferença? Faz alguma diferença na vida?

Há algum tempo foi-me perguntado de que servia pensar, e pensar mesmo, sobre as coisas, sobre conceitos, sobre definições, etc. Pensar sobre as coisas é um modo frutífero, mas até então não tinha resposta para isso, porque pensar é melhor que não pensar?

Em meio a um mar de pessoas que por mais juntas que possam estar continuam dando sinais claros de sua solidão, em meio a essas pessoas que são tão sozinhas quanto me considero ser (há diferença entre isolamento e solidão), creio que pensar é simplesmente viver, se se pensa verdadeiramente, só temos como pensar vivendo e viver no pensamento.

Muito bem dito por Proust: “Até o ato tão simples a que chamamos ‘ver uma pessoa que conhecemos’ é em parte uma ação intelectual. Preenchemos a aparência física do ser que vemos com todas as noções que temos a seu respeito, e, para o aspecto global que nos representamos, tais noções certamente entram com a maior parte. Acabam por arredondar tão perfeitamente as faces, por seguir com tão perfeita aderência a linha do nariz, vêm de tal forma matizar a sonoridade da voz como se esta fosse apenas um envoltório transparente, que, cada vez que vemos esse rosto e ouvimos essa voz, são essas as noções que reencontramos, que escutamos.”

Viver é uma ação intelectual em si, ”o significado de uma mensagem é a mudança que ela produz na imagem” (The Image – Kenneth E. Boulding) que temos de nós mesmos e do mundo. Qualquer que seja essa mensagem, seja interna ou externa e já que organizamos nossa vida através de imagens viver é pensar do nível mais prosaico até o verdadeiro nível profundo do pensamento mesmo.

E nesse nível pensar é viver, pois a mínima alternância da certeza que temos das coisas muda completamente a forma que vivemos, importamo-nos com certas coisas que achamos relevantes, etc. Nesse nível, que eu considero um dos mais frutíferos para se pensar realmente, pois tem um alcance inimaginável, há uma certa diferença entre o desejo e a vontade.

Que todos estamos sozinhos é regra. Ninguém vive por mim, ninguém pensa por mim, ninguém deseja por mim, nada, nem uma única coisinha minúscula, e se os mais afobados dizem que pela empatia, submissão, e demais sentimentos que envolvem duas pessoas, podemos ser influenciados... bem nada me impede dizer que eu sou o único a carregar o peso e as conseqüências da influência.

Nesse nível, que pretendo escrever minimamente aqui, é que há essa diferença entre desejo e vontade.

O desejo se assalta sobre nós, passamos a desejar alguma coisa por n motivos diferentes e razoes mais obscuras possíveis. Ele é tipicamente avassalador. Nem sempre impulsivo, mas sempre inquietante.

No nível filosófico, Spinoza, conduz muito bem o pensamento na sua Ética e demonstra, demonstração cuja eu aceito de bom grado, que não é porque uma coisa é boa que a desejamos, mas só porque a desejamos é que ela se parece boa para nós. E nesse nível ocorre toda uma inversão do desejo. Achamo-nos sempre inadvertidamente impulsionados à alguma coisa, por acharmos que essa coisa em si possui uma atração única, indizível. Mas aceitando o que mestre Spinoza diz, é justamente porque desejamos aquilo que a sua falta se parece como uma tortura.

O desejo em muitos níveis é espontâneo, mas nunca incontrolável. Qualquer homem sabe que uma ereção é algo involuntário, e se acha que tem controle... nos vemos algumas vezes embaraçados por uma que não estava nos planos em horas que nunca imaginaríamos ser possível. Ela em si não quer dizer nada, só nos diz que manifestamos um desejo, ruim daquele que inventou decotes, rasgos, tecidos finos e maleáveis...

O desejo se abate sobre nós muitas vezes por conta do nosso inconsciente, são reflexos instintivos.

A diferença entre o desejo e a vontade. Percebi essa ligeira diferença ao ver um poema de Adélia Prado, curtinho, que diz assim:

“Eu não quero a faca e o queijo, eu quero a fome”

Por sei lá que cargas d´água aconteceu. Ali estava algo inquietante. A fome é desejo, instinto, comemos quando estamos com fome para satisfazer nosso organismo. Mas “quero a fome” é algo a mais. Querer a fome é querer comer, com apetite.

A vontade está explícita nesse ponto mesmo. Vontade é um querer com apetite. Essa vontade se expressa fora do âmbito do desejo, que é impulsivo, já a vontade é querer querer.

Olhamos para uma mulher na rua e a desejamos, olhamos para nossa mulher em casa e queremos desejá-la. O desejo é falta, carência, ausência. A vontade é potência, auto-estímulo, cultivo.

A paixão, tão cara a nossas juventudes e tão malfadada em nossos “adultos”, é desejo, falta, dor e ausência. Amor é essa vontade espontânea de amar, dar-se, cuidar e atender. Há quem diga que a paixão é boa, creio que à pessoas lúcidas ela seja tão mais rala quando mais esclarecido for, e quando ela passa... bem quando a paixão passa temos que dar-nos conosco. E muitas das vezes em nossa falta de vontade de amar, que antes era desejo na falta. Meses ao lado de alguém, ele não nos falta mais e assim nosso desejo acaba, restando somente conviver com ela. Mas como conviver com alguém que não temos o apetite? Não temos essa vontade de amor...

Cada um com seu pensamento e sua vida, cada qual se avalia e diz-se se ama realmente outrem ou fica com ele por medo, carência, utilitarismo ou qualquer outro tipo desses. Como diz Adélia, não quero a carne, não quero o gozo, quero é o tesão... que seja pela vida, pela amada, pela fotografia, pelo cinema, pelos esportes ou seja lá que cousa for. Viver é pensar e pensar é viver, no nível mais profundo está a vontade, que tanto falta em nós, e abunda o desejo, nada mais comum que o desejo em nossa sociedade instantânea de renovados desejos diários e subseqüentes.

Nesse nível, pergunta-me o camarada “para que serve pensar assim?”, logo digo para finalizar: Para saber-me mais perto da vontade de viver que do desejo de vida.

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