“Educai as crianças e não será preciso castigar os homens” (Pitágoras)
Tão lógica e surrada quanto esta sábia epígrafe pitagórica é a idéia de que não é possível abordar com profundidade, neste pequeno texto, a Educação, por ser um assunto tão extenso quanto rico, mágico, polêmico e essencial à vida. Por isso vamos direto para a escola, sem entrar no mérito da família, que é fonte do caráter e base da sociedade, mas considerada, aqui (pela desestruturação vigente), um futuro produto da educação e não mais produtora desta.
Mato Grosso do Sul, com 9% de analfabetos plenos e milhares de analfabetos funcionais (que sabem ler e escrever, mas não interpretam texto), ficou fora da lista dos estados que estão conseguindo eliminar o analfabetismo da população. O estado também está abaixo da média na avaliação do ensino fundamental (Brasil, 3.8; MS, 3.2) segundo pesquisa do MEC/IDEB-2005, que aponta desanimadores índices para as regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste do Brasil.
O pensamento de Pitágoras nos faz refletir por que as cadeias prisionais de hoje equivalem às escolas que faltaram ontem e por que há mais gastos para suprir vagas em penitenciárias do que em escolas públicas. Daí que, se governo e sociedade acreditarem que a educação salva e edifica e que as crianças nascem vocacionadas e com muita energia para o aprendizado, poderão ver, também, que é possível humanizar e iluminar o mundo, diminuir a pobreza, tabus, preconceitos, desigualdades e injustiças e até inibir a corrupção e a violência, transformando a escola naquilo para que foi ou deveria ter sido criada: um laboratório de cidadania.
Este laboratório, no entanto, tem a sua essência na educação infantil, onde tudo começa, onde se projeta o futuro do indivíduo e se planta a semente do aprendizado, da liberdade, do respeito e onde deveriam estar os melhores mestres da pedagogia e não os leigos e “tiazinhas” do velho e equivocado sistema. Por isso é que é incoerente denominar de “pré-escola” aquela que, na verdade, é a própria base escolar. Estudiosos como Piaget, Vygotsky, Bakhtin, Paulo Freire, Hellmut Becker, Theodor Adorno e até Jesus Cristo, por exemplo, apontam a pureza e a potencialidade da infância como a matéria-prima da grande fórmula para o milagre humano, que os apedeutas do poder e da falsa educação ignoram, assim como fazem com o filosófico e milenar ensinamento supracitado.
E por não se dar o devido valor à educação infantil é que os outros segmentos escolares acabam não dando certo, gerando evasão de alunos e desperdícios financeiro, emocional e intelectual, equivalentes à construção de castelos sobre a areia. Está aí o gargalo da educação e, por conseguinte, a base das seqüelas sociais.
Como a educação infantil é a química para os principais ensaios humanos, o tradicional ensino de 1ª a 4ª séries (agora, Ensino Fundamental Menor) é a segunda etapa mais importante desta seara onde ainda se pode tratar o broto, conter as pragas e salvar a planta, com persistência e paciência, a exemplo do “bambu chinês”. Mas, se houver falhas nesse início (e há muitas), as demais etapas vão se tornar, em vez de laboratórios continuados da cidadania, verdadeiros centros de reciclagem quase sempre malsucedidos, que formam os aglomerados de analfabetos funcionais (no Brasil são 60 milhões). Estes subprodutos culturais alimentam os laboratórios da ignorância, da fome, do desemprego, da violência, do gasto público e da infelicidade geral.
Se os pensadores de ontem e de hoje insistem numa educação consciente, livre e crítica, com assistência integral e especialista, evitando que o ensino-aprendizagem se paute apenas no professor-modelo (anoréxico e mal pago), que torna o aluno em mero discípulo seguidor de estereótipos (o guia e o guiado), é porque a interação entre o saber de ambos é a grande meta a ser atingida e em que vale a pena investir. Mas, assim como a educação no Brasil pouco evoluiu desde os períodos colonial e imperial, a profissão docente continua desvalorizada, por culpa dessa recorrente cultura governativa que tem a teoria da educação na ponta da língua e também na ponta dos pés.
Se a própria universidade está virando “escolacho” de 3º grau, enclausurada e perdida, às vezes, na ignorância e no pedantismo acadêmico, com desprezo à ciência, à pesquisa e à tecnologia, sentem-se à vontade os estúpidos governos para não investir na valorização do magistério, nem em equipamentos didáticos modernos, cuja omissão adiciona aos números crescentes de analfabetos funcionais uma nova classe: a dos analfabetos virtuais.
Bastam-nos, portanto, o sofrimento do mercado com a falta de mão-de-obra especializada, a dor da sociedade com o despreparo do indivíduo, a indignação do indivíduo com a irresponsabilidade do governo e a vergonha do país por ditar uma educação falida e carente de saber e sabedoria, para repensarmos o ensino-aprendizagem e transformarmos a escola no verdadeiro laboratório da cidadania. Pois, somente assim, com uma educação libertadora, pouparemos do castigo os homens e também as crianças.
José Pedro Frazão
Ex-Secretário de Educação de Anastácio
“Deixai vir a mim os pequeninos e não os embaraceis, porque dos tais é o Reino de Deus” (Lucas 18:16)
“Sejam os nossos filhos, na sua mocidade, como plantas bem desenvolvidas” (Salmo 144)
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