Lenine, Vivo

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Jean Faustino · Campinas, SP
4/1/2007 · 32 · 0
 

Eis-me aqui

Não me recordo bem onde foi que vi, pela primeira vez, a idéia de que o ser humano é um ser inacabado e que, conseqüentemente, a vida é a bigorna na qual se forja seu espírito. De qualquer maneira, foi uma surpresa muito agradável reencontrar esse pensamento numa recente música de Lenine que começa da seguinte maneira:

“Precário, provisório, perecível;
Falível, transitório, transitivo;
Efêmero, fugaz e passageiro.
Eis aqui um vivoâ€


Que o ser humano é precário e perecível todo mundo sabe. Sobretudo, quando um “ente invisível†como um vírus, ou algo do tipo, é capaz de nos deixar de cama por vários dias. Quanto aos demais adjetivos, eles também são bastante conhecidos.

No entanto, desses mencionados neste trecho da música, talvez o menos discutido seja o "provisório", ou seja, a característica que nos faz lembrar que o ser humano não é, aos vinte anos, a mesma pessoa que foi aos dez. E não será também, aos quarenta anos, a pessoa que foi aos vinte e assim por diante.

Como decorrência disto, às vezes, nos surpreendemos ao encontrar pessoas com as quais, no passado, tivemos muita afinidade, mas que, no presente, parecem ser outras. O que esquecemos, porém, é que nós também já não somos os mesmos...

Porém, voltando-se para a música em questão, vemos surgir na sua segunda estrofe, novamente o adjetivo “provisórioâ€. Desta vez, no entanto, na forma de sinônimos que, na verdade, parecem ser as conseqüências do caráter provisório do ser humano: instável, variável, inconstante e impermanente.

“Impuro, imperfeito, impermanente
Incerto, incompleto, inconstante;
Instável, variável, defectivo.
Eis aqui um vivoâ€


Um aspecto interessante de alguns desses adjetivos é que, embora se esteja tratando, aqui, do ser humano, eles são familiarmente conhecidos também como qualidades próprias do verbo. Assim, conforme a gramática da língua portuguesa, temos o verbo transitivo, o verbo defectivo e o imperfeito como um tempo do verbo no passado.

Por fim, na quarta e última estrofe da canção, esta enumeração de adjetivos volta a aparecer novamente. Mas, agora, sob uma interessante forma de negação:

"Não feito, não perfeito, não completo;
Não satisfeito nunca, não contente;
Não acabado, não definitivo.
Eis aqui um vivo,
Eis-me aqui."


Mais uma vez, o "provisório" volta a aparecer sob a forma do "não completo", "não acabado", "não definitivo". Entretanto, nesta última estrofe da música, aparece uma novidade após o refrão: o "eis-me aqui" – dito, no final, a título de últimas palavras.

Não sei onde o compositor se inspirou para realizar esta inclusão que encerra esta canção. Mas, além do seu significado contextual para a música, na qual o cantor estaria dizendo que ele também é um "vivo", o fato é que “eis-me aqui†é uma expressão recorrente na Bíblia. Nela, Moisés, Abraão, Isaías, entre tantos outros, utilizaram-se desta mesma frase para responder ao chamado de Deus. Veja-se, por exemplo, quando Deus chamou o profeta Isaías:

“Depois disto ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei,
e quem irá por nós? Então disse eu: Eis-me aqui,
envia-me a mim.â€
[ Isaías 6:8 ]



Talvez pelos grandes feitos que realizaram, estamos acostumados a ver esses "famosos" (Moisés, Abraão, etc.) como homens perfeitos e acabados. Contudo, se consultarmos a suas histórias pessoais, chegaremos à conclusão que, assim como o "vivo de Lenine", eles também foram seres provisórios, instáveis, não acabados, etc.

Veja-se, por exemplo, o caso do próprio Isaías – autor da frase acima mencionada. É verdade que ele respondeu a Deus dizendo “eis-me aquiâ€. Mas, antes de fazê-lo, primeiro reconheceu a sua condição de imperfeição e impureza ao dizer:


“Então disse eu: Ai de mim! pois estou perdido;
porque sou homem de lábios impuros,
e habito no meio dum povo de impuros lábios. (...)â€
[ Isaías 6:5 ]



Conforme eu disse, não sei onde Lenine foi buscar inspiração para o “eis-me aqui†desta música. Mas, o curioso é que parte da sua estrutura é equivalente ao caso do profeta Isaías que primeiro reconheceu a precariedade da sua condição para somente então colocar-se à disposição de Deus através do “eis-me aqui†sugerindo, talvez, que uma humildade de consciência pode nos fazer bem.

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