Manaus e a nova praça: rua de mão única

Sandro Marandueira/ Coletivo Difusão
As tribos urbanas na antiga Praça do Congresso
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Clayton Nobre · Belo Horizonte, MG
11/1/2013 · 11 · 0
 

Diz a lenda que os mendigos que se encontravam no Largo de São Sebastião antes de sua reforma no centro de Manaus (AM) foram encurralados com cordas nos calcanhares e lançados no Rio Negro pelas sacadas do porto da Manaus Moderna. Suposição das mais baratas, é claro. Ainda que nos perguntemos sobre o paradeiro dos loucos, lorota não deixa de ser lorota. O fato é que também não deixa de ser plausível com o processo político-cultural de Manaus hoje, quando higiene e limpeza ganham pauta maior no âmbito da cultura tradicional do que do saneamento urbano.

Um exemplo disso está bem claro nessa passagem de ano que deu de presente a Manaus uma nova Praça do Congresso. Além da já conhecida barraca baiana, ganhamos também uma barraquinha de churros, uma banquinha-sebo pra fazermos nossas leituras matinais antes de ir ao IEA (Instituto de Educação do Amazonas), bater um papo e dar um gostoso bom dia aos novos guardinhas do patrimônio estrategicamente localizados. Toda parafernália das boas-vindas ao Papai Noel foram transferidas do Largo para a nova praça. A árvore de natal imensa foi pra lá. O presépio de Jesus também. E a trilha sonora, idem.

Quem passou na praça nesse final de ano, e certamente por hoje ainda, não escuta mais o rap ou o barulho dos skates na rua. Foram sutilmente instaladas caixas de som atrás da manjedoura de Jesus, com as músicas de natal, jingle bells orquestrados pelo jazz e outras operetas americanas que não conhecemos. A próxima lenda da cidade já está sendo desenhada. Pra onde foram enclausuradas todas as tribos de skatistas, grafiteiros e artistas de rua da Praça do Congresso?

É esse o tipo de projeto que contamina as ideias de desenvolvimento do poder público cultural da cidade. Em Manaus, cultura e saudosismo são faces da mesma moeda. Muito tem de coerente nesse processo de resgate das praças da cidade com o que se espera de um espaço público. São lugares de lazer, são recuperadas, preservadas, cuidadas. Mas não deixa de ilustrar um pouco o medo do que o próprio território representa nos termos da cultura e do comportamento de uma Manaus contemporânea, multiforme, remixada.

Manaus sustenta, nesses projetos, uma forte característica xenofóbica, sendo ela própria a estrangeira. A cultura de uma cidade não passa do comportamento que ela mesma exerce em seus espaços públicos. São as escritas grafadas pelos grafiteiros e skatistas, ao produzirem sua própria topologia de ocupação urbana na metrópole, são os sinais de outras tribos, a música viva, os encontros, que marcam o contexto da cidade e constituem, enfim, um diálogo público. É o que nos representa.

Esse medo de si mesmo reflete diretamente no investimento público. Vejamos o concerto nataliano de 2012, vide Glorioso, no Largo de S. Sebastião. Foram 6,25 milhões de reais gastos na produção da empresa norte-americana Hardrive, a mesma da Disney, para bancar todas as tecnologias, o emprego temporário, os ensaios, os 22 telões, lançando-se como maior concerto da história não lembro muito bem de qual referência. Mas o que Manaus produz mesmo, ninguém conhece.

Na ânsia do resgate pela Manaus Moderna - a parisinha dos trópicos - a limpeza das reformas varre e coibe a configuração das novas experiências e a forma inventiva como os próprios atores sociais podem intervir no embelezamento e redirecionar o sentido dos fluxos. Este, talvez, é um dos piores sintomas desse medo. O acesso é livre, mas dentro dos limites das novas praças, podemos muito pouco interferir.

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