Cobertura Preliminares 2013, Casa Fora do Eixo
Dia 3 - Benedito Calixto
Nota-se, logo no inÃcio de sua exposição no festival Preliminares, que Richard Stallman é uma figura, no mÃnimo, exótica. Numa ensolarada tarde de segunda feira, durante a ocupação da Praça Benedito Calixto pela galera da Casa Fora do Eixo, Stallman distribui adesivos falando mal da Apple (“iBad – bad for your freedomâ€, em português “ruim para a sua liberdadeâ€), faz um merchandising de seus botons, faz piada em português (“se a capital de Goiás é Goiânia, a capital do Pará é Paranoia?â€) e pede, inutilmente, para que não publiquem fotos dele no Facebook. Ao longo de sua conversa, boceja, acha graça das “aranhas†que pousam em seu corpo, tira o sapato, confunde um pingo de água com chuva e um pirulito na boca de um jovem na plateia com “tentáculoâ€, veste uma fantasia esquisita e sugere que não usemos cartões de créditos, celulares, e, claro, “softwares privativosâ€, sua pauta para o encontro.
Fundador do Movimento Software Livre, Stallman parte da seguinte premissa: ou os usuários têm o controle do programa, o que considera justo, ou o contrário, o programa tem o controle do usuário. Para que a justiça seja feita, quatro liberdades são essenciais: usar o programa como quiser para qualquer propósito; mudar o código fonte como bem entender; fazer e distribuir cópias idênticas do programa original; e, por último, o mesmo para cópias modificadas pelo usuário. As duas primeiras “regras†permitem o controle individual, que não é o bastante, enquanto as seguintes, o controle coletivo.
O que acontece quando em um software qualquer uma dessas liberdades está ausente? Segundo Stallman, o programa não é “livreâ€. Ele é “privativoâ€, pois tem o controle do usuário, privando sua liberdade. É um programa injusto. E qual o problema? Muitos deles podem ter objetivos malévolos por trás, como abusar, vigiar e privar quem os usa. Assim, o dono do software tem poder sobre os usuários, que ficam à sua mercê, indefesos, enquanto pode-se descobrir tudo o quiser sobre eles.
A importância de um software livre é que, tendo algo “malévolo†em algum desse tipo, os usuários podem corrigi-lo, e distribuir essa nova versão. Chamou de “defesa contra a maldadeâ€, que considerou imperfeita, mas “melhor do que ser indefesoâ€. Admitiu que se livrar do Facebook, do Windows, do Android, e tantos outros programas, é difÃcil. Todavia, pregou que a “liberdade requer sacrifÃcios†e acusou a sociedade atual de não se importar o bastante com esse direito. “Quem não está disposto a fazer sacrifÃcios, não valoriza a liberdadeâ€, declarou.
Stallman, muito preocupado com a questão da vigilância, profetizou que talvez “a informática, só com o que existe de tecnologia atualmente, resulte numa maldiçãoâ€. Parece exagerado ao extremo quando pede que a plateia se mobilize para, entre outras coisas, as escolas só usarem softwares livres, por exemplo, mesmo apresentando explicações plausÃveis para seus anseios. Stallman faz piada com si próprio quando, antes de encerrar seu discurso, se fantasia com uma túnica preta e um chapéu, feito com o que parecia ser um disco de vinil, simbolizando uma aureola. Ele conta da “Igreja do iMaxâ€, uma seita fictÃcia do software livre (nada a ver com as salas IMAX de cinema, vale ressaltar). Ele indaga qual tecla é a mais santa; conta sobre o ato bendito de “perder a virgindade†do iMax (usá-lo pela primeira vez); e declara seu objetivo “exorcizar todos os sistemas diabólicos e privativos e instalar softwares livresâ€. Ao final desse ato maluco, o sol bate em sua cara e o badalar do sino das 18 horas de alguma Igreja próxima tornou o momento ainda mais improvável. Um final de mestre que poucos esquecerão.
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