“Por ser muito boazinha, não pôde morar aqui. Foi ficar com os anjinhos. Deus a levou para siâ€. Epitáfios como esse estão espalhados por todo o cemitério São João Batista, localizado no Bairro Floresta. Eles são muito mais que palavras bonitas. São expressões de respeito, carregadas de sentimentalismo e religiosidade, que nos revelam a maneira triste que a cultura ocidental encara a morte.
Ao longo dos anos ciência e religião buscaram explicar o fenômeno. No entanto, ambos estimularam ainda mais o caráter mÃtico que envolve a questão. Isso pode ser verificado na maneira como encaramos o fim da vida. IndivÃduos de todas as idades, ao se defrontarem com a morte, colocam em questão a própria vida, com seus medos, angústias e possibilidades.
Fui ao cemitério com o objetivo de entender melhor a morte. Eram oito horas da manhã. Nesse horário a movimentação é mÃnima. O silêncio paira sob a superfÃcie empoeirada, enquanto uma leve brisa anuncia o tom fúnebre que contamina o local. A aflição parece querer me dominar.
Essa é uma reação normal, pois em nosso inconsciente a palavra morte está associada ao desconhecido, o que gera medo. “A morte faz parte do mundo irracional e do incógnito, e a nossa racionalidade se opõe a ela porque abominamos o desconhecidoâ€, afirma Enock Pessoa, psicólogo social e professor universitário.
A morte também está ligada à irreversibilidade. Por esse motivo, é comum que até mesmo pessoas em estágio terminal não estejam preparadas para morrer. Travam assim uma verdadeira luta pela vida, em busca de uma possÃvel recuperação.
É ciente dessa batalha, que a missionária Vera Lúcia de Menezes visita pessoas que estão nos leitos da Fundação Hospitalar do Acre. O objetivo é levar aos doentes um pouco daquilo que ela acredita ser a palavra de Deus. “Essa palavra soa como bálsamo, traz esperança à s pessoas, mesmo para aqueles que estão desenganados pelos médicosâ€, afirma.
O trabalho desenvolvido pela missionária é como uma terapia. Em meio à s orações e leituras da BÃblia, Menezes dialoga e brinca com os pacientes. “É muito bom, me traz tranqüilidadeâ€, diz José das Chagas Souza, internado no hospital para tratar dos rins e do coração.
Mas nem sempre as preces de Vera Lúcia parecem dar certo. A própria missionária alega ter a consciência de que algumas daquelas pessoas não viverão por muito tempo. Entretanto, ainda acredita que o trabalho que desenvolve é válido, pois para ela a morte é uma passagem. “Todos caminhamos para a eternidade, só precisamos escolher para qual estamos indo. Para mim, a morte é apenas um sonoâ€, declarou.
Essa crença na vida após a morte não é recente. Estudos antropológicos atestam que o Homem de Neanderthal já possuÃa esse credo. A ornamentação dos corpos, a sepultura cuidadosamente escavada e decorada são evidências de que há 230.000 anos atrás o ser humano já acreditava na existência de vida após a morte.
Ainda assim, a cultura Ocidental tende a repudiar a morte, encarando-a como uma despedida. Para o psicólogo social Enock Pessoa, isso tem uma explicação. “A cultura ocidental é mais voltada para a vida e para a exterioridade, enquanto que a morte é contra tudo issoâ€, diz.
Aceitação - ao longo dos anos a psicologia buscou formas de tratamento para pessoas em estágio terminal e seus familiares, no intuito de minimizar o sofrimento acarretado pela morte. “A gente trabalha para que a pessoa compreenda a sua situação, para que ela possa tomar posição e superar o sofrimento psÃquico, ou pelo menos diminuÃ-loâ€, declara a psicóloga Sheila Garcia, do HUERB – Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco.
Quando uma pessoa falece, a famÃlia deve acompanhar todos os estágios da morte. Se isso não acontecer, são maiores as possibilidades de alguém dessa famÃlia apresentar problemas psicológicos. “Devemos vivenciar todos os passos, para termos facilidades de elaborar o luto. Caso contrário podemos ficar em sofrimento ou com algum transtorno mentalâ€, ressalta Garcia.
Nos hospitais o acompanhamento psicológico de pacientes em estágio terminal, bem como em seus familiares, já é uma prática comum. Em alguns postos de saúde também. No Barral y Barral e no Centro de Saúde do Tucumã, por exemplo, existe atendimento psicológico aberto a toda comunidade, inclusive para pessoas com doenças crônicas ou HIV.
Muita boa, me emocionei!!! Abraços amigos!!!!
Aquinei, obrigado pelo voto. Na verdade estou um pouco triste, pois me dediquei a essa matéria e a votação não foi como pensava. Mas tudo bem, a gente tenta novamente...
Jailson de Macêdo · Rio Branco, AC 10/8/2007 16:05Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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