Na Terapia de Regressão, experiências são revividas e trabalhadas para curar traumas do presente
No filme Minha Vida na Outra Vida, dirigido por Marcus Cole, é narrada a história de Jenny Cockell, uma americana que teve lembranças da sua última encarnação, vivida na Irlanda e falecendo em 1930. Durante a trama, Jenny sai em busca de seus filhos da vida passada e descobre situações inusitadas, como nomes de pessoas e lugares que já havia visto antes em sonhos e visões.
E quem pensa que histórias como estas só acontecem em filmes, se espanta ao descobrir como possÃveis experiências de vidas passadas podem trazer à tona enigmas guardados no inconsciente, que se aplicam a conflitos vividos na vida atual. Foi o que aconteceu com a administradora *Andréa Sampaio, 25 anos, que resolveu experimentar a Terapia de Regressão por influência no namorado, que já utilizava a técnica há sete anos, para resolver traumas decorrentes da morte do pai. Curiosa, entrou pela primeira vez no consultório de terapia regressiva e observavou a utilização de um cristal como forma de energização: “Como o Cláudio é inocente, meu Deus!â€, pensou, duvidando da técnica utilizada pelo terapeuta: “Me segurei pra não dar risadaâ€, ironiza. Católica praticante, Andréa não acreditava em reencarnação. “Achava que tudo relacionado a espiritismo fosse macumbaâ€, lembra. Mas resolveu iniciar a terapia por insistência do namorado.
Na primeira sessão começou imaginando um lugar onde gostaria de ir. Visualizava uma praia tranqüila, mas não conseguia se concentrar o suficiente para ir mais além. “Tomei um susto quando de repente não conseguia mais abrir os olhosâ€. Neste momento, começaram a passar na sua mente cenas em que ela se via numa famÃlia pobre, que precisava plantar para sobreviver. O pai tinha abandonado a casa e morava apenas ela, o irmão e uma mãe amargurada. Devido à frustração pela vida, a mãe só podia oferecer maus tratos à filha, o que gerou depressão, anemia e anorexia na mesma. “Me vi morrendo numa cama, sem condições de levantar. Meu irmão era o único que cuidava de mim. Percebia que ele era o mesmo irmão que tenho nessa vida, e até hoje somos muito apegados. Ele sente o que eu sinto, mesmo quando estamos longeâ€, conta.
Andréa saiu perturbada do consultório. “Não queria voltar lá nunca maisâ€. Toda aquela história era contra sua minha religião, mas as coisas começaram a fazer sentido e trazer explicações para problemas que, até então, não tinha respostas. Portadora de bulimia, distúrbio alimentar que leva as pessoas à ansiedade e vômitos auto-induzidos, Andréa já havia tentado diversos tratamentos convencionais com psiquiatras e nutricionistas, mas nunca conseguia descobrir o verdadeiro motivo do problema. “Eu achava que a bulimia era resultado de uma obsessão estética, mas através da regressão descobri que o verdadeiro motivo era o medo de crescer, engordar, ganhar corpo e perder a proteção do meu pai na vida atualâ€. Já que foi abandonada pelo pai na vida passada, desenvolveu a bulimia como uma forma de não se tornar adulta e, consequentemente, perder a proteção e os cuidados do pai na vida presente.
Descobrindo o verdadeiro processo da doença, Andréa, que já foi internada por hipoglicemia, pesando 42 quilos, conseguiu engordar quatro e curou oitenta por cento do problema. “Minha relação com minha mãe atual também melhorou muitoâ€, garante.
Karma de outras vidas - O principal problema que afeta a vida de Andréa é o relacionamento com a sogra. “Só de ouvi o nome dela me irritavaâ€. Apesar de muita gente se identificar com o fato, a dificuldade era muito mais profunda e, por isso, resolveu buscar respostas na terapia de regressão.
Desde o falecimento do pai, o bancário *Cláudio Andrade, 31 anos, se tornou o responsável pela casa, assumindo o papel de “marido†da mãe. Na época, ele tinha 22 anos e já sentia na pele o peso da responsabilidade que era assumir um lar. “O relacionamento de Cláudio com a mãe não era normal. Ela tinha uma espécie de controle e posse sobre ele, que o obrigava a viver em função dela. Ele dirigia pra ela, a levava no supermercado e até pegava e deixava o namorado dela em casaâ€, reclama Andréa. A presença constante da sogra começou a atrapalhar o relacionamento, e logo nos seis primeiros meses começaram a surgir as crises iniciais.
A discussão já começava na hora de escolher o programa do fim de semana: “Eu queria jantar num restaurante japonês, mas ela queria comer acarajéâ€. Acabavam indo, os três, satisfazer os desejos da sogra. “Nunca saÃamos sozinhos juntos, porque ela ia atrás, ou ligava mais de quinze vezes para o celular deleâ€, critica.
Todos os dias “a sogra†levava e buscava Cláudio no trabalho, gerando brincadeiras e gozações entre os colegas de trabalho. Por sugestão do terapeuta, ele passou a ir de ônibus, mas antes teve que ouvir, de dentro do elevador, os gritos da mãe alertando que “não existia ex mãe; apenas ex namorada e ex psicólogoâ€.
Mesmo com todos os percalços, o relacionamento continuou e com o passar do tempo a namorada se tornou noiva. “Ela faz chantagem perguntando se ele tem certeza que vai casar e deixá-la sozinhaâ€, conta Andréa. Todo esforço da sogra foi em vão, pois Cláudio já está de casamento marcado com Andréa para o final do ano, mas a sogra pensa que a cerimônia só será realizada no ano que vem. “Eu comecei a tirar ele de casa e levar para a minha, sem cobrar nem exigirâ€, comemora.
Foi numa sessão de terapia de regressão que ela descobriu que, numa vida passada, a mãe de Cláudio era a esposa, traÃda e trocada pelo amor de Andréa. O resultado disso tudo foi que “a sograâ€, acabou matando-a por ciúme do marido, que hoje é seu filho. Parece confuso, e foi exatamente este o sentimento que Andréa sentiu ao sair da clÃnica. “Nunca saia tranqüila das sessões. Fico desnorteada e angustiada. Sentia muito medo, gritava e chorava muito. Ela me matou com um punhal no peito e eu senti toda a dor. Era um sentimento realâ€, relata. Confirmando toda a história, Cláudio também fez uma regressão e relatou a mesma versão ao terapeuta.
Para solucionar o conflito, foi realizada uma regressão na qual Andréa não permitia que fosse morta pela sogra. “Cláudio amadureceu muito em relação à mãe e hoje ele já consegue dizer não a ela. Meu relacionamento melhorou bastante. Através da regressão eu comecei a enxergar coisas que eu não via antes e comecei a compreender melhor o que eu passo hojeâ€, analisa: “Se não fosse pela regressão nós já terÃamos terminado, pois eu não ia suportarâ€.
Depois de passar pela experiência, Andréa passou a acreditar em vidas passadas e começou a questionar questões filosóficas da vida: “Por que existe um mendigo? Será que Deus gosta mais de mim do que dele, por eu ter uma condição melhor? Hoje eu percebo que fui pobre e sofrida na vida passada e agora tive a oportunidade de melhorarâ€.
Segundo Andréa, a sogra, que é espÃrita, também costuma buscar respostas e conselhos a entidades espirituais em sessões de umbanda. “O mais engraçado é que os espÃritos dela só dizem o que convém à elaâ€, zomba. A única coisa que eles esqueceram de avisar é que o filho vai se casar em dezembro, e não em março, como ela pensa.
“Matei pessoas no passado†– Esta foi a conclusão que o fisioterapeuta *Carlos dos Santos, 35 anos, chegou para explicar os problemas que lhe acometem à garganta desde mais novo. “Possuo refluxo laringofarÃngeo, mas achava que era rinite alérgicaâ€, diz.
Foi através de uma visão mediúnica num centro espÃrita que Carlos descobriu ser um soldado romano que perseguia cristãos em outras vidas. Para confirmar esta afirmação fez uma sessão de terapia de regressão e logo teve a certeza: “Vi as imagens em flashes indefinidos, como um sonho em preto e branco. Parecia um filme que passa na nossa mente e eu resistia achando que tudo era fruto da minha imaginaçãoâ€. Era difÃcil acreditar no que estava vendo, pois a racionalidade não permitia que ele distinguisse a realidade da imaginação. Por isso resolveu pesquisar melhor sobre o assunto em livros e descobriu uma frase que dizia: “não se preocupe se é imaginação ou não, o importante é que seja terapêuticoâ€.
Percebendo que prováveis fatores imaginários não invalidavam a realidade dos fatos, Carlos se entregou completamente à s sessões de terapia e descobriu que fora um lÃder comandante bárbaro, que torturava homens e mulheres; um belo e corajoso cigano de uma tribo em Sevilla, no Sul da Espanha; um árabe cercado de mulheres num Harém do Marrocos e até mesmo um pensador revolucionário da Revolução Francesa.
Na vida em que era um comandante Bárbaro, Carlos conta que afogava pessoas e dava ácidos para que estas morressem. “Essas atrocidades cometidas no passado me trouxeram os problemas atuais na gargantaâ€, afirma, garantindo que a terapia regressiva foi o processo disparador para a cura de sua doença.
Outro fato que marcou a vida de Carlos através da regressão foi a cura de uma dor inexplicável que sentia no peito: “Fiz todos os exames cardÃacos possÃveis e nada foi diagnosticadoâ€. Através da regressão descobriu que, numa outra vida, foi amarrado por correntes que puxaram-lhe peito e o dilaceraram até a morte. “O terapeuta me conduziu a fazer um enterro simbólico desse corpo. O personagem acabou e a dor tambémâ€, garante.
“Já me vi também morrendo enforcado durante a Revolução Francesa. Não tenho nenhum conhecimento técnico sobre a área histórica, mas me veio na cabeça as palavras ‘jacobinos e girondinos’. As regressões serviram como auto conhecimento. Por mais que pareça fantasia, não importa. Este é um processo de compreensão da vidaâ€, relata.
Espiritualidade e Ciência - A Terapia de Regressão tem origem desde a Antiguidade e era utilizada pelos Hebreus, Astecas e Incas para tratamento em pacientes com diversos distúrbios nervosos. A técnica só foi regulamentada no Brasil em 1964, através do Decreto nº. 53.461. Segundo o Médico e Psicoterapeuta Transpessoal, Formado em Terapia Regressiva Integral pela Woolger Training Brazil, Moacir Oliveira, são utilizadas técnicas em estado alterado de consciência para acesso à s memórias do inconsciente, dentre elas, regressão a vidas passadas. “Fazemos um relaxamento, onde a pessoa tem percepções de conteúdos que não são percebidos em estados atuaisâ€, explica.
Para ele, o objetivo não é comprovar crenças, mas sim realizar um processo terapêutico para melhor qualidade de vida. “As pessoas que procuram a terapia de regressão geralmente já passaram por outras terapias convencionais e não obtiveram o resultado necessário. As linhas psicoterápicas normalmente são fundamentadas no princÃpio cartesiano, baseado no funcionamento orgânico, deixando a questão da espiritualidade para a religião e separando-a da ciênciaâ€, analisa Oliveira, ressaltando que a hipnose também já fora utilizada pelo fundador da psicanálise, Sigmund Freud.
Para exemplificar um quadro clÃnico encontrado no seu consultório, Oliveira cita uma questão de impotência sexual: Um jovem com perda de ereção, buscou a solução na medicina convencional, sem qualquer alteração de ordem fÃsica diagnosticada. Através da regressão a vidas passadas se viu com um comportamento sexual promÃscuo, que acarretou a morte da mulher. A história foi reelaborada através da terapia, para que ele retirasse a culpa que sentia e resolvesse o problema da impotência. “É normal haver um questionamento após a vivência dessa nova realidade. Não procuramos provar esse fenômeno, mas fazemos a catarse dos traumas ou assuntos inacabadosâ€, esclarece.
O Medo da morte – Este é um dos motivos que mais afastam as pessoas da terapia de regressão, além do receio de ficar “preso†na outra vida. Para Oliveira, a maioria das pessoas tem rejeição em reviver a dor do passado e da morte, por isso evitam o assunto como um instinto de proteção. “A regressão tende a diminuir esse medo. Não existem relatos na literatura que o paciente tenha revivido e permanecido na vida interior. As lembranças se conservam e vão sendo diluÃdas de forma tranqüila. A situação é revivida e trabalhadaâ€, garante.
Nem sempre é necessário voltar para outras vidas. Muitas vezes a origem do problema é percebida durante a infância, adolescência ou até mesmo na vida intra-uterina. Segundo Oliveira, tudo é feito de maneira consciente, sem indução ao estado hipnótico. “Dependendo do problema o paciente é regredido até o momento da experiência traumática para perceber e corrigir a influencia na vida atual. A regressão é uma ferramenta que permite extrair conteúdos do consciente profundo para aliviar os sintomas do presenteâ€, elucida.
Como disse um importante personagem da Revolução Francesa, Maximilien de Robespierre "A morte não é o sono eterno. A morte é o inÃcio da imortalidade!". Talvez ele tenha mesmo razão.
*Os nomes foram trocados para manter a privacidade dos entrevistados.
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