Para celebrar o centenário do indigenismo no Brasil, a Associação Revista do Cinema Brasileiro realizará nos próximos dias 27 e 28 de outubro, para o Sesc, no Sesc Consolação, em São Paulo, o encontro Memórias Sertanistas, que reunirá sertanistas, antropólogos, historiadores e jornalistas.
Na ocasião, o público terá oportunidade de conhecer uma história do Brasil que não está escrita, mas que foi vivenciada com luta e dedicação por homens que seguiram os passos do Marechal Rondon.
As lembranças desse Brasil especial, mas pouco conhecido, vão ser reveladas pelas conversas e entrevistas com os últimos sertanistas em atividade, que contarão suas experiências de vida. Muitos deles fizeram dos Ãndios sua famÃlia e do sertão sua casa, lutando para a sobrevivência do Ãndio e pensando sempre na defesa de seus valores e de sua cultura.
Mediado por Noel Villas Boas, Felipe Milanez, Carmen Junqueira e Betty Mindlin, as mesas terão entre os convidados, nomes como Aritana Yawalapiti, lÃder do povo Yawalapiti, Mércio Gomes, antropólogo e ex-presidente da Funai, Roberto Almeida, repórter do jornal O Estado de S. Paulo que entre dezembro de 2009 e janeiro de 2010 cobriu a expedição da Funai no Vale do Javari, além dos sertanistas Afonso Alves da Silva, José Carlos Meirelles, PorfÃrio de Carvalho, Rieli Franciscato, entre outros. O encontro é coordenado pelo cineasta Marco Altberg.
História - O Brasil comemora este ano o centenário da criação do indigenismo brasileiro. O Serviço de Proteção do Ãndio e Localização de Trabalhadores Nacionais (o SPI), criado em 1910, teve como figura central o marechal Candido Rondon. Eram tempos de violência contra os Ãndios, ainda sem uma polÃtica de Estado depois do fim do Diretório dos Ãndios, que vigorou na época do Império. Sob a liderança de Rondon e com apoio do movimento positivista, a criação do SPI, instituição da República, foi uma resposta polÃtica para garantir a sobrevivência das nações Ãndias.
A tradição indigenista brasileira surge como uma verdadeira vanguarda humanista, propondo a proteção e o respeito aos povos indÃgenas. Ao contrário do bandeirantismo, que avançava sobre os sertões devassando os ocupantes tradicionais, o indigenismo rondoniano propunha a convivência pacÃfica entre todas as nações que formavam o Brasil.
O SPI resistiu até 1967 quando, logo após o golpe militar que instituiu a ditadura, foi substituÃdo pela Fundação Nacional do Ãndio (Funai). Manteve-se o quadro de funcionários, as atribuições e, sobretudo, o espÃrito indigenista e humanista da instituição.
Grande parte dessa história recente do Brasil não está nos livros escolares, não está nos arquivos nem em jornais, mas nas memórias de pessoas que viveram essa época.
PerÃodo que inclui a ditadura, marcado por uma brutal violência contra os Ãndios na disputa pela terra e no saque de recursos naturais dos seus territórios. Não foram necessárias muitas décadas para ver o cerrado sendo tomado por migrantes do Sul, a Amazônia sendo rasgada por estradas, e milhares de homens e mulheres pobres testando suas esperanças na derrubada de florestas, nos garimpos. Ao final, o mundo desigual do Brasil foi se repetindo por toda parte.
Nesse turbilhão de transformações, uma das grandes riquezas foi devastada: a diversidade cultural, a identidade indÃgena, com todos os rituais e modos únicos de ver o mundo.
Trabalhar nas frentes pioneiras, distantes, hostis, incrustadas no sertão do Brasil, defendendo os Ãndios frente à expansão desordenada da sociedade nacional é uma tarefa difÃcil. É o trabalho que move os sertanistas ao longo dos últimos 100 anos. Coragem, desapego, habilidade, dedicação? Pouco importa, o fato é que conseguiram estabelecer essa relação entre “nós†e “elesâ€, ao lado de importantes lÃderes indÃgenas, contribuindo para que o Brasil se conhecesse como um paÃs multiétnico.
O sofrimento faz parte deste trabalho. Não há um sertanista sequer que não tenha testemunhado povos sendo dizimados pelo ataque daqueles que querem expulsar o Ãndio de suas terras, pelos “pioneiros†da sociedade brasileira e pelas epidemias, levadas com o nosso “progressoâ€, contra as quais não tinham defesa.
Os sertanistas formam a linha de frente que busca diminuir o choque do contato com a nossa sociedade. Nos vários momentos - da ditadura militar, da abertura democrática, da expansão econômica ou crise -, eles estavam lá onde nem a imprensa nem os cientistas conseguiam ou podiam chegar. Estes relatos de trajetórias de vida e de luta humanitária são experiências que pela primeira vez serão compartilhadas no encontro Memórias Sertanistas.
PROGRAMAÇÃO
Dia 27/10, quarta-feira
19h Abertura
Com as presenças de Danilo Santos de Miranda (SESC SP) e Elias Bigio (Funai).
Mesa com Aritana Yawalapiti, George Zarur e Elias Bigio
Mediação de Noel Villas Bôas e Felipe Milanez
21h Coquetel de abertura
16h ATIVIDADE EXTRA
Os últimos isolados
Série dirigida pelo britânico Adrian Cowell.
Filme 1: Fugindo da extinção
(Return from Extinction / 52min / 1999)
Filme 2: O destino dos Uru Eu Wau Wau
(The Fate of the Kidnapper / 52min / 1999)
(Entrada franca - Limitado à lotação do espaço)
Dia 28/10, quinta-feira
10h O Parque IndÃgena do Xingu e os irmãos Orlando Villas Bôas
Aritana Yawalapiti conversa com Carmen Junqueira e George Zarur.
Mediação de Noel Villas Bôas
13h30 A tradição indigenista rondoniana, darcysista, orlandovillasboasiana, chicomeirelesiana, carlosmoreirana e bonifaciana
Palestra com Mércio Gomes
14h Mesa 1
Afonso Alves da Silva
conversa com Felipe Milanez e Mércio Gomes
15h Mesa 2
PorfÃrio de Carvalho
conversa com Felipe Milanez e Betty Mindlin
16h Mesa 3
Odenir Pinto
conversa com Felipe Milanez e Mércio Gomes
Coffee break
17h30 Mesa 4
José Carlos Meirelles
conversa com Ulysses Fernandes e Silvio Da-Rin
18h30 Mesa 5
Rieli Franciscato
conversa com Felipe Milanez e Roberto Almeida
19h30 Mesa 6
Altair Algayer e Marcelo dos Santos
conversam com Felipe Milanez e Betty Mindlin
20h30 Encerramento
SERTANISTAS
Afonso Alves da Silva
Começou no SPI com 16 anos, na linha de frente da equipe de Chico Meirelles nas expedições de contato com os Kayapó, no Pará. Com a experiência que adquiriu, participou posteriormente de expedições de contato com diversos povos, como Korubo e Arara – ocasião em que foi flechado. Vive em Altamira e, com 72 anos, é o mais velho sertanista em atividade.
Altair Algayer
Foi assistente de campo do sertanista Marcelo dos Santos. Participou dos primeiros contatos com os Akunt’su e Kanoê, que vivem na Terra IndÃgena Omere, e na identificação da área ocupada pelo “Ãndio do buraco†(sobrevivente de um genocÃdio no sul de Rondônia), a TI Tanaru, e da identificação da TI Massaco, de uso exclusivo de um povo isolado.
José Carlos Meirelles
Entrou na Funai em 1971 e foi para o Maranhão, onde trabalhou com os Urubu-kaapor e realizou os primeiros contatos com os Awa-Guajá. Depois, no Acre, participou da demarcação de três terras indÃgenas para Ãndios isolados – certa vez foi flechado no rosto no posto em que trabalhava. É chefe da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e Ye’Kuana.
José PorfÃrio Fontenele de Carvalho
Trabalhou com os Waimiri Atroari, Guajajara, Apurinã, Jamamadi, Krikaty, Wapixana, Macuxi, Taulepang, Jaminawa, Awaeté, Parakanã. É autor dos programas Waimiri Atroari e Parakanã, responsáveis pela recomposição étnica e demográfica destes povos. Sem nunca medir esforços para defender os Ãndios, Carvalho foi demitido seis vezes da Funai.
Marcelo dos Santos
Indigenista desde 1975, passou mais de 14 anos com os Nambiquara do Norte e com os Negarotê – no sul de Rondônia, região marcada por violência. Organizou as expedições de contato com os povos Akunts’u e Kanoê e da localização do “Ãndio do Buracoâ€. Trabalhou no Instituto Socioambiental e chefiou a Coordenação Geral de Ãndios Isolados da Funai.
Odenir Pinto
Fez o primeiro curso de indigenismo da Funai, em 1970. Seu avô era indigenista e seu pai era indigenista. Nasceu na aldeia Bakairi, na época do contato com um povo Xavante vizinho. Trabalhou com diversos povos, participou da demarcação das terras xavantes e do contato com os Krenakarore (Panará). Perseguido durante a ditadura, foi anistiado em 1993.
Rieli Franciscato
Integrou a equipe que confirmou a existência de Ãndios isolados da Terra IndÃgena Massaco. Participou de expedições na reserva Jaru, no rio Madeirinha, chefiou o posto indÃgena na terra Uru-eu-wau-wau. Fez expedições para localizar Ãndios isolados dos grupos Yraparakuara, Hi-merima, Kawahiwa, e diversos povos que habitam o Vale do Javari.
REPRESENTANTE INDÃGENA:
Aritana Yawalapiti
Liderança do povo Yawalapiti
CONVIDADOS
Carmen Junqueira
Antropóloga e professora da PUC/SP
Mércio Gomes
Antropólogo, doutor em antropologia pela Universidade da Florida, professor da UFF e ex-presidente da Funai
George Zarur
Antropólogo, doutor em antropologia pela Universidade da Florida e Pesquisador Internacional da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais. (FLACSO)
Betty Mindlin
Antropóloga e economista, com mestrado pela Universidade de Cornell e doutorado pela PUC/SP, é autora de Diários da Floresta (Terceiro Nome, 2006) e outros livros
Elias Bigio
Historiador, doutor em história pela UNB, é chefe da Coordenação Geral de Ãndios Isolados e de Recente Contato da Funai
Roberto Almeida
Repórter do jornal O Estado de S.Paulo. Entre dezembro de 2009 e janeiro de 2010 cobriu a expedição da Funai no Vale do Javari, chefiada pelo indigenista Rieli Franciscato.
Silvio Da-Rin
Cineasta, realizou diversos documentários, entre eles Fênix, PrÃncipe do fogo e Hércules 56. Gerente executivo da TV Brasil, foi Secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura. Prepara o documentário “Sertanistasâ€, tendo José Carlos Meirelles como personagem central.
Ulysses Fernandes
Biólogo, produtor cultural e indigenista. Realiza trabalho de pesquisa de campo entre etnias do Alto Xingu e da Terra IndÃgena Raposa Serra do Sol. Co-autor do livro “Jogos e brincadeiras do povo Kalapaloâ€
CURADORIA
Felipe Milanez
Advogado e jornalista, mestre em ciência polÃtica pela Universidade de Toulouse, ex-editor da revista Brasil IndÃgena, da Funai, e da National Geograhic Brasil. Publicou diversas reportagens sobre povos indÃgenas e o trabalho dos sertanistas.
Noel Villas Bôas
Bacharel em direito e filosofia, membro do Conselho Indigenista da Funai por dois mandatos, e filho de Orlando e Marina Villas Boas
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