MENTIRAS: VERDADES AGREGADAS

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Ygor Fontenelle carneiro · Rio de Janeiro, RJ
7/3/2009 · 40 · 0
 

A revista Época, em uma de suas edições de fevereiro, mostrou eficiente matéria a respeito da “mentiraâ€. O material inspirou-se no caso da brasileira Paula Oliveira, que é acusada pela polícia Européia de mentir sobre um suposto ataque neonazista sofrido por ela numa estação de trem da Suíça.
No tal ataque, Paula teria sofrido cortes com estiletes e abortado da gravidez de gêmeos. A “gravidezâ€, já comprovadamente falsa, ajudou e ajuda a alavancar as suspeitas sobre a versão “complementar†da conversa, ou seja, a do ataque físico. Além da ausência de provas documentais ou testemunhais, os médicos atestam pra provável hipótese de que Paula se “mutilouâ€, por se localizarem os cortes ao alcance das próprias mãos , serem superficiais, poupando as partes mais sensíveis do corpo, tal como órgãos genitais e rosto.
O claro constrangimento do pai de Paula diante do caso e das declarações de “amigos†de Paula, que não se furtam em dizer que a jovem “gosta de inventar coisas†praticamente dão o ultimato: foi tudo mentira! Um típico caso de uma pessoa que mente sem se preocupar com os detalhes, sem se informar sobre o universo do que se está mentindo. Informação é tudo.
A reportagem é bem interessante, claro, mas, de uma forma geral, parece direcionada a um “ público “ sofisticado demais, como médicos, psicólogos, antropólogos etc. Em dado momento, tudo parece uma filosofia do tipo “por-que-mentimos-de-onde-viemos-pra-onde-vamos†ou qual a razão do “por queâ€, do “porquêâ€, do “porqueâ€...
Sim, é verdade que o público alvo da revista Época não é o mesmo do jornal “Meia Horaâ€, onde a palavra “esculacha†recebe a função de nome, verbo, advérbio, pronome...Há de se dizer que não somos cientistas em geral, mas “cientistas em gerais†(dessas de estádio mesmo, que, por sinal, foram extintas, o que nos coloca, ainda mais, fora do contexto).
O escriba até tenta responder as perguntas fugindo da norma mais científica e indo pra norma mais social, afinal, a revista já fala em demasia em córtex, cérebro, hemisférios, patologias... O início da reflexão proposta cá, é a seguinte: você mente? A resposta, sabemos, é sim. E sua mentira é, provavelmente, continuada( como os crimes continuados do Direito Penal). A justificativa pros mentirosos (pra todos, como se nesse momento justificador, todos contassem exatamente a mesma mentira ou a mesma verdade) é que a mentira gera uma espécie de “proteçãoâ€. Se sempre falarmos a verdade, diriam os “cascateirosâ€, perderíamos amigos, empregos, oportunidades. Nunca seríamos felizes de fato. Não temos o direito de falar sempre a verdade, afinal de contas, ela dói, e não queremos machucar ninguém, não? Principalmente, claro, nós mesmos. Deixa isso pra Paula Oliveira.
Essa “tal†de verdade causa muitos danos e a mentira aparece como alívio. Nem sempre a mentira faz “fugir†da verdade, ela, às vezes, é como aquele zagueiro, que é contratado pra fazer sombra ao líbero e estrela do time. Se o cara vacilar...põe o zagueiro novato no seu lugar. Fazer sombra: é esse o papel da mentira.
Mentir é uma arte e só os melhores mentirosos são, de fato, felizes. Eles são especialistas em “desmontarem†uma realidade amarga. Já sofreram tanto na vida, que usam a mentira de uma forma cirurgica. A mentira é sua companheira pra todos as horas...TODAS mesmo, pois vive sempre frustrado com a realidade. A pior coisa pra uma mágico é quando lhe revelam seu segredo e, óbvio, não existe maior mentiroso/mágico que um bom mágico/mentiroso.
Os melhores mentirosos são aqueles que parecem inserir um ponto negativo em suas mentiras, algo pouco agradável, pra dar uma legitimidade maior ao resto da fantasia, enquanto a pessoa se distrai com o trecho que parece ser(e é) verdade. Por exemplo: “Cara, ontem eu transei com 10 mulheres, mas, aí veio a coisa chata:eu broxei e fui embora, cheio de vergonha!â€. Viram? O ponto negativo presente pra legitimar o que é muito, muito maior?
Os piores mentirosos são os que mentem sobre o que desconhecem. Eles precisam se informar, pra, no caso de uma suspeita ou pergunta desconfiada, tenham argumentos pra se sair pro brechas legais. Sendo assim, a boa mentira tem que se preocupar com os detalhes, detalhes que a verdade ignora por um só motivo: é verdade, não há a necessidade de se usar a simpatia quando se é rico e bonito. O pobre e feio precisa, sim, se preocupar com os detalhes que os “bem nascidos†esquecem, por pura falta de necessidade.
O grande desafio do mentiroso é tentar adaptar um objeto lícito, verdadeiro com a mentira que conta. O problema é que a tal adapatação é absurda muitas vezes. Pra exemplificar: Imaginem, caros leitores, que querem se passar por muito, muito ricos. Uma das maneiras, claro, seria arranjar um carrão, alugado ou emprestado. Desfilar com esse carro seria uma forma de legitimar sua mentira, afinal, o carro, é sim, um objeto verdadeiro, lícito. Pra incrementar mais: imagine que você, que quer se passar por rico, estude direito na UCAM. Ora, não custa muito colocar aquele adesivo bem cafona no vidro do carro, só pra seus colegas de faculdade processarem a informação verídica com a fantasia do carro. Se bem que nunca se vê carrão com esse tipo de adesivo,né? Não importa, faça assim mesmo, afinal você tem fama de ser o esquisitão da turma mesmo, não tem? Sua “mentira†está mais que legitimada!
Mas, como já diz o time campeão : “Ganhar o título é difícil. E mais difícil ainda é se MANTER como campeãoâ€. Pois é, contada a mentira, é necessário “sustentar†a maldita.
Já dizia o filósofo, que o melhor “filósofo†é aquele que sabe comparar coisas com coisas. Quanto mais distantes “as coisasâ€, mais difícil a comparação e, claro, quando a comparação ocorre, pra ser respeitado o filósofo-comparador, é necessária uma ótima argumentação. Então, lá vai: a MENTIRA é como a dívida com o CHEQUE ESPECIAL, não importa seu tamanho, ela cresce, cresce e você não sabe explicar como ela chega “naquele†patamar. Quando a mentira, tal como o Cheque Especial, começa a crescer, crescer, você é obrigado a “pedir ajuda†a alguém, ou seja, é preciso a formação de um álibi, uma pessoa que vai ajudar a segurar e sustentar a encrenca. No Cheque especial, a mesma coisa: você precisa da ajuda de “alguém†pra cobrir a dívida, ou seja, pega-se emprestado com outrem, pra pagar a dívida. Daí, claro, uma nova dívida nasce. O “álibi†da vez, óbvio, é o novo credor. Às vezes, o indivíduo pega o empréstimo com a mesma pessoa jurídica a quem deve, só pra dívida “ficar em casa†e, meu amigo, dependendo dos juros, é na casa sim, na casa do ...deixa pra lá. Mas, esse problema da dívida ocorre por uma simples razão: não escutastes o economista que apareceu domingo, no Fantástico, que lhe orientou a não “fazer novas dívidasâ€, mas sim, comprar à vista. Ah, ah, ah. Como se fosse fácil. Vivemos no Brasil, aquele país descoberto pela Bahia. E é a Bahia que nos rege...â€AS CASAS BAHIAâ€, onde você compra um DVD por R$ 199,00 ou em 20 x R$20,00. Parcela pequeninha, que não dói no bolso. É assim que funciona, ô economista “filhinho de papaiâ€, que teve grana pra pagar a PUC na graduação e fazer uma pós no IBMEC. Suas contas, desde criança, são no débito automático, não sabe qual é o prazer de pagar só “vintão†por mês pra ter aquele DVD.
Mas, voltando ao assusnto do Cheque especial X Mentiras, todos sabem que a dívida do cheque especial cresce pela presença de juros, são juros “compostosâ€, juros de dívida em cima de uma ...DÃVIDA. É matemática financeira pura. E qual seria a “matemática†da mentira? Por que a mentira, que não lida com os números, mas sim com uma subjetividade que se vale da imaginação de cada mentiroso, parece gerar “jurosâ€. Ou seja, a mentira vai crescendo, crescendo. Estranhamente, a mentira parece ser majorada todos os dias, com juros compostos!
Sendo assim, a melhor maneira de se mentir, é mentir com “consciênciaâ€. Ao mentir, não se pode andar por um terreno às cegas. Antes de chamar alguém de amigo, é necessário conhecer o sujeito. Quando se sabe sobre o que se mente, os juros são menores e a possibilidade de se “pagar a dívida†lá na frente, com uma das “parcelas do 13º†é muito grande, e o melhor: sem ninguém ficar sabendo.
Outros podem dizer que a “omissãoâ€, que, de fato, não é uma mentira, tem natureza igualmente negativa. Pode-se dizer que a Omissão é a ferramenta que faz os homens se sentirem “menos culpadosâ€, pois não praticaram o fato, apenas “tiraram o corpo foraâ€. Sabe aquele professor que aplica um teste valendo 2pts pra “ajudar na notaâ€. Será que tirar zero nesse teste resulta na PERDA de 2 pts ou no DEIXAR DE GANHAR 2pts? A segunda opção parece mais correta, mas ninguém disse que o professor é de matemática, onde só há o número, não há a pessoa. Não existiu o Antropocentrismo(iluministas) X Teocentrismo (Igreja), pois bem, existem o Antropocentrismo( alunos que precisam de 2pts) X Numerocentristas(professores de matemática, onde só há o certo e o errado, o sim e o não). Sendo assim, numa visão subjetiva da questão, o teste zerado representa, sim, uma perda. A omissão represente a “não†briga com a verdade, sem o pacto demoníaco da mentira. Mas, a mentira é fundamental se quer ganhar tempo, fazer com que os outros sigam por um caminho “falso†enquanto pensa no que fazer. Para o “inimigoâ€, deve-se sempre MENTIR, pois a OMISSÃO representa o silêncio e, como quem cala, consente, nunca se deve concordar com o inimigo.
O filme “Tropa de Eliteâ€, em sua cena mais famosa, reforça a idéia de “verdade agregadaâ€, partindo de uma premissa verdadeira, construindo uma situação falsa, fantasiosa. Em dado momento, o Cap. Nascimento sobe o moro e aos tapas, palavrões e xingamentos, atribui ao “playâ€, comprador de droga, a CULPA pelo tráfico, violência, morte e tudo de ruim que acontece no Rio de Janeiro. “ É você quem financia essa merda, seu viado!â€-brada. Nascimento tem suas razões, afinal, veja o raciocínio: você, aluno do IFCS-UFRJ, hippie e “doidão†por dedução, compra, todos os dias, no Mercadinho da Esquina, uma Coca Cola 2 Lts. O lucro operacional gerado pro Mercadinho do seu “refri†é de R$ 1, R$1,50 por dia. O que resultaria em cerca de R$ 40 por mês “cheioâ€. Já é uma contribuição. No caso das drogas, mesmo sendo ela comprada pelo “playâ€, estudante de economia da PUC(aquele mesmo, que quando deixar de ser doidão, vai te dizer pra não comprar o DVD financiado), pra dar só uma “apertada†no Cardeal Leme, não deixa de ser uma “ajuda†pros TRAFICA. Isso vale tanto pro “paly’da Gávea, pro doidão do IFCS e pro engravatado da Estácio do Menezes Cortes( quem vos escreve conhece bem os 3 ambientes). Temos, nesse caso, uma verdade. A acusação de Nascimento passa a ser mentira no momento em que ele “se esquece†da corrupção dos policiais que representa um “ganho†pros traficantes muito maior que os dos “plays†apertadores. A corrupção, no filme, é tratada com cinismo, colocando os policiais “comunsâ€( e não os do BOPE) com irônicos, os verdadeiros cínicos do Nelson Rodrigues. O cinismo da Filosofia, bem arrumada lá pelas bandas do IFCS. Mentira. Todo policial corrupo, na vida real, não faz aquela cara de cafajeste que colocaram no filme. Eles sorriem ao pedir o “da cervejinhaâ€, mas, na real, não é “só risoâ€, mas sim, uma careta. E o Luciano Huck, quando é assaltado, e “escreve†um artigo pedindo a ajuda do Cap. Nascimento, não sabe o que escreve. Não sabe mesmo, pois se soletra mal(como provou em suas gincanas), como pode escrever? Huck sempre foi o “Plano Bâ€. Foi “Plano B†na Band(quando o “plano A†era a Feiticeira e a Tiazinha) e é “plano B†com a Angélica, quando o “plano A “ era o Maurício Mattar. Huck não conhece o Cap. Nascimento(no máximo, conhece o Wagner Moura, possível convidado de suas festinhas). Não conhece direito nem as pessoas que ele “ajudaâ€, reformando seus carros e casas. Não conhece nada. E se vai escrever “Nascimentoâ€, acaba escrevendo “NASSIMENTOâ€. E você, no que acredita?

Ygor Firmo Fontenelle Carneiro

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