Em muitas espécies de animais os fatores ambientais impedem que a competição dentro da própria espécie conduza ao desastre. Não existe, no entanto, força regulatória agindo sobre o desenvolvimento cultural da humanidade. Sob a pressão da fúria competitiva nós não apenas esquecemos o que é útil para a humanidade, mas até mesmo o que é bom e vantajoso para o indivÃduo.
Konrad Lorenz, Os oito pecados mortais do homem civilizado
O meio-ambiente é coisa particularmente difÃcil de se defender, porque o agressor somos nós mesmos. Nossa condição como espécie é paradoxal: quanto mais poder adquirimos de manipular o meio-ambiente em nosso favor, mais perto estamos de descaracterizá-lo irremediavelmente para nossa destruição.
O projeto da hidrelétrica de Mauá prevê a inundação de uma área de 100 quilômetros quadrados entre Ortigueira e Telêmaco Borba, aqui no estado do Paraná. A usina terá potência máxima de 362 megawatts (MW), suficiente para abastecer uma cidade de 1,1 milhão de habitantes. Dos R$ 950 milhões necessários para a obra, R$ 700 milhões serão bancados pelo BNDES, sendo que a construtora J. Malucelli já assinou contrato para executar o projeto.
Quem não apostaria nessa barganha? 100 quilômetros quadrados de que ninguém vai sentir falta em troca da energia elétrica para uma grande cidade pululando de consumidores, votantes e impostos.
A não ser que você leve em conta, naturalmente, o custo ambiental. Já em 2005 um parecer do Ministério Público Federal advertia que [1] a barragem coloca em risco a sustentabilidade das tribos indÃgenas que habitam a região da bacia do Rio Tibagi; a área a ser alagada [2] contém 15 espécies na lista vermelha de espécies ameaçadas do Paraná, [3] cobrirá 200 propriedades e [4] não deverá poupar a Fazenda Monte Alegre, “composta por um mosaico de florestas nativas associadas a monoculturas florestais, sendo uma das responsáveis pela incomum riqueza de mamÃferos na bacia do Rio Tibagiâ€; além disso [5] o estudo menciona 15 sÃtios arqueológicos na região a ser alagada, “com vestÃgios relacionados a diversos grupos humanos, perÃodos históricos e tradiçõesâ€.
DeverÃamos deixar que um punhado de Ãndios, um grupo disperso de sitiantes, umas bromélias que nem dão flor e umas poucas gravações na rocha se interponham no avanço do progresso? Se não poupamos - Deus nos perdoe - as Sete Quedas, não seria preciosismo embargar a usina Mauá?
O problema do custo ambiental são, naturalmente, dois. Primeiro, o fato dele ser muito difÃcil de avaliar. Os ecossistemas são ao mesmo tempo infinitamente complexos e infinitamente recatados. Até que seja tarde demais, não temos como estimar o impacto ambiental da perda de uma única nascente, quanto mais de 100 quilômetros quadrados de campos gerais. Ecossistemas são difÃceis de avaliar porque tudo funciona quando eles estão funcionando; fica, conseqüentemente, difÃcil encontrar argumentos em sua defesa. Não sabemos tudo que vai deixar de funcionar quando eles deixarem de existir; não temos como saber, literalmente, o que estamos perdendo.
Em segundo lugar, o custo ambiental não tem peso para frear projeto algum, porque o empreendedor e o polÃtico sabem muito bem que (salvo descartáveis exceções) não é um custo que eles mesmos terão de pagar. Se tudo der certo, a nota promissória da dÃvida ambiental será deixada convenientemente para as próximas gerações.
A maior parte das pessoas que serão prejudicadas talvez ainda nem exista, por isso não consomem os seus produtos nem votam em você - e não têm como processá-lo! No nosso mundo, cujo deus chama-se Agora, quem seria insensato de levar esse fantasmas futuros em conta? Todo polÃtico quer uma obra grandiosa para inaugurar, todo empreendedor quer a sua fatia para construÃ-la.
Quem ousaria se colocar no caminho desse tanque de guerra a fim de salvar um trecho monótono de campos gerais, que não têm o glamour visual da Mata Atlântica e tudo que faz é nos prover de ninharias como rios e água pura?
Um estudo recente da Frente de Proteção do Rio Tibagi revela que há um enorme risco não contabilizado esperando a água da barragem para vir à tona. O perigo, desta vez, são lagoas ácidas, hectares de rejeito tóxico e dezenas de minas abandonadas que babam ferrugem amarela e metais pesados.
Num vale de Telêmaco Borba, junto a uma curva do Tibagi e numa área que pertence à Klabin Papel e Celulose, aguardam os resÃduos quÃmicos de 60 anos de extração de carvão mineral. As fotos que ilustram o relatório da Frente de Proteção mostram bocas de minas abandonadas das quais brotam enxofre e ácido sulfúrico e lagoas transparentes com o carimbo azul-turquesa da drenagem ácida. O laudo anexo do SEBRAQ (arquivo PDF) comprova a presença de metais pesados (cádmio, chumbo e manganês) em concentrações escandalosamente altas nas amostras coletadas. Sabe-se com segurança que a rede inundada de galerias abandonadas estende-se por quilômetros terra adentro, onde as concentrações tóxicas tendem a ser muito maiores.
“Se inundadasâ€, conclui o relatório (arquivo PDF), â€as minas funcionarão como chaminés de ácidos e metais pesados que fluirão diretamente para dentro do lago, provocando um desastre ambiental sem precedentes no futuro reservatório e impedindo o uso da água em Londrina e outras cidades localizadas rio abaixo.â€
A descoberta gerou uma viagem de helicóptero ao local por parte do secretário do Meio Ambiente, Rasca Rodrigues. “É um complicadorâ€, disse Rodrigues. “Não é para alarmismo, mas é um passivo ambiental significativoâ€.
Da mesma matéria da Gazeta do Povo:
Pós-doutor em GeoquÃmica, o professor André Bittencourt foi responsável pela parte do levantamento técnico que trata da qualidade da água. Ele se defende, afirmando que não explorou a parte sobre as minas e rejeitos de carvão por uma razão quÃmica. Os rejeitos só são poluentes em contato com o oxigênio e, se ficassem imersos, não causariam danos. “Essas minas dão muito mais problema como estão do que embaixo d’águaâ€, assegura. Ele também acredita que, tanto no rio como na eventual represa, a quantidade de produtos tóxicos produzida pela mina desativada se dilui com facilidade na água.
Outra matéria da mesma edição traz o tÃtulo “Dona da área [Klabin] investiu R$ 600 mil em recuperaçãoâ€. Procurei, mas o texto não diz de que forma foram gastos os 600 mil, e na recuperação de quem.
Hoje (quarta-feira, 8 de agosto) pela manhã um evento no Plenarinho da Assembléia Legislativa do estado estará debatendo o caso Mauá. A deliberação da tarde, nas galerias da Assembléia, contará com a presença de cerca de 100 representantes da região atingida.
O governador Roberto Requião defendeu esta semana a importância da usina no “plano energético nacionalâ€. A Copel é sócia majoritária no empreendimento, com participação de 51%; a Eletrosul tem 49%.
Fiquei indignada ao ler seu texto. Duas vezes, mil vezes. Aqui em Minas temos vivido a mesma situação. Empresas famosas no mundo inteiro que operam por aqui há décadas abusam do meio ambiente na nossa cara. O que podemos fazer? O governo faz vista grossa, é muita grana em jogo. Vitória para voces! Parabéns pelo texto.
anamineira · Alvinópolis, MG 12/8/2007 07:28Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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