Música, design e milícias de resistência cultural

Ilustração: Jorge du Peixe e Valentina Trajano
Ilustração de Jorge du Peixe e Valentina Trajano (Revista Eita - #2)
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Leo Antunes · Recife, PE
16/10/2009 · 2 · 1
 

Traçar uma relação da música com o design não é uma tarefa tão difícil. Se pensarmos design como o ato de projetar, então a construção de uma carreira de um artista ou banda tem inúmeros pontos comuns com a visão de um designer. É visível perceber na recente história da música que a atuação de designers foi importante na formação da imagem de grandes artistas. A roupa usada em shows, o projeto gráfico de um disco, o plano de luz, videoclipe, website e tantas outras ações, são aspectos que transcendem a percepção tradicional da música. Refiro-me, aqui, à embalagem de um produto. De um produto cultural, claro.

Com a chegada de novas mídias o consumo da música vem sendo complementado por informações não sonoras que aos poucos se fundem com a própria música e que, consequentemente, dão origem a um novo produto. Ou seja, a embalagem é também parte integrante do produto. Ela deixa de ser descartável para ser essencial. Com o avanço de técnicas de iluminação, cenário e até figurino, os shows são cada vez são mais atraentes. A produção de DVDs chegam, em inúmeros casos, a ter uma circulação até maior que os já tradicionais CDs. É aí onde o designer pode e deve contribuir com o mercado fonográfico, que no caso específico de Pernambuco está em plena estruturação.

MERCADO PERNAMBUCANO - Hoje, no atual contexto cultural de Pernambuco, identificar indícios de um real mercado de música é algo confuso. Diferente do mercado de design que já existe linhas de negócios bastante consolidadas. A meu ver, Pernambuco sobrevive de isoladas iniciativas independentes e na maioria das vezes financiadas por instituições públicas - via editais – muitas vezes sem um claro projeto de continuidade. Uma espécie de assistencialismo cultural que contribui de maneira negativa para a formação de um mercado autônomo. Um mercado que gere a médio e longo prazo empregos e renda para todos os profissionais envolvidos.

As iniciativas independentes citadas, por sua vez, injetam energia nos pequenos e médios eventos, porém, por outro lado, não conseguem se auto-sustentar diante do pouco dinheiro circulante e da tantos encargos tributários. É uma guerra! Um mercado de guerrilha composto por milícias apaixonadas por música.

Raras são as casas de shows que abrigam a diversidade musical do Estado, e escassos os profissionais especializados em gravação e amplificação de som. E, para completar, contamos com rádios “alienígenas” que só tocam músicas impostas pelas redes nacionais e, claro, pela prática do jabá - um clico vicioso que vai na contra-mão da avalanche de bons discos lançados por pernambucanos.

É um cenário difícil, admito, porém existem ações em andamento que apontam para uma saída. Destaco aqui, o curso de Economia da Cultura da Fundação Joaquim Nabuco e o curso de Produção Fonográfica da Faculdade AESO-Barros Melo. Onde esta lógica assistencialista pode ser subvertida com a formação de profissionais capacitados para criar um mercado onde a iniciativa privada seja um membro ativo da engrenagem cultural. Diante disso, teríamos como consequência direta o fortalecimento da atuação de designers nos projetos de música, abrindo até outras atuações que não sejam apenas de criação de encartes.

A nossa alegria é que Pernambuco tem uma produção musical de qualidade artística invejável e reconhecida por críticos de todo o mundo. E mesmo diante de todas as dificuldades, nossos músicos-mártires não desanimam. Ou seja, a matéria-prima existe em abundância, basta aprendermos a embalá-la e ressignificá-la.

*Artigo também publicado na Revista Eita - #2
**Sobre o autor: Leo Antunes é produtor cultural, designer e professor do Curso de Produção Fonográfica da AESO-Barros Melo

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Viktor Chagas
 

Opa, Leo,

Bacana o teu texto. A associação entre música e design me fez lembrar de cara esse texto do Egeu, sobre o "fim das capas de disco".

Acho que o tom é bem próximo dessa tua argumentação: a remodelação do mercado da música, a partir da introdução do mp3 etc, também vem impactando outros mercados, entre eles, o do design. Não à toa os projetos que contam com um design mais elaborado são aqueles que são financiados por editais, pois eles já estão com as contas pagas de saída.

Acho que a discussão dá panos pra manga... :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 15/10/2009 00:55
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