Nas entrelinhas da história de Nenê Macaggi

Fotomontagem sobre fotos e Laucides Oliveira e Gilvan Costa
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Gilvan Costa · Boa Vista, RR
24/4/2006 · 55 · 0
 

Ela nasceu Maria Macaggi, em 24 de abril de 1913, em Paranaguá, no Paraná, mas foi como Nenê que ela entrou para a história da literatura e da comunicação em Roraima.

Nenê Macaggi aportou por terras amazônidas no início dos anos 40, enviada pelo então presidente Getúlio Vargas, para fazer um trabalho jornalístico descrevendo a situação dos então territórios da região.

Fixando-se primeiro no Amazonas, em 1941, no ano seguinte veio para Roraima, onde deu continuidade ao seu trabalho jornalístico e literário.

Sim, Nenê Macaggi já era uma escritora renomada quando chegou por aqui. Entre seus trabalhos de contos, crônicas e romances podemos destacar Água Parada e Chica Banana, ambos da década de 30, e Contos de Dor e Sangue, da década de 40.

Mas a importância de nenê Macaggi para a literatura roraimense se intensificou quando ela começou a escrever sobre o cotidiano da vida da gente daqui.

Seu romance A Mulher do Garimpo, escrito na década de 70, é considerado o marco inicial da produção literária no Estado. Depois vieram outras obras, como Conto de Amor, Conto de Dor (década de 70), Exaltação ao Verde (década de 80), A Paixão é Coisa terrível (década de 90), entre tantas outros.

Elena Fioretti, membro do Conselho Estadual de Cultura e uma das estudiosas da vida da escritora, afirma que a intenção do órgão é fazer a reedição de todas as suas obras.

“Já conseguimos alocar recurso para a segunda edição de A Mulher do Garimpo, e a primeira edição do livro Nara-Sue Uerená – O Romance dos Xamatautheres do Parima, que Nenê deixou pronto e ficou por mais de 15 anos esperando para ser publicado”, comemora.

Controvérsia

Um fato inusitado abalou a vida de Nenê Macaggi em Roraima.

Explica-se. Em 1992, quando o governo do Estado inaugura o Palácio da Cultura, dá a ele o nome de Nenê Macaggi. Meses depois, a Assembléia Legislativa entrou com uma ação, alegando que não era permitida a denominação de logradouros públicos com nome de personalidades ainda vivas. Então, o nome foi retirado.

“Isso abalou sobremaneira a vida de Nenê, que na época já estava com a saúde debilitada e triste pela falta de incentivo na publicação de suas obras”, lembra Fioretti.

Depois do falecimento de Nenê Macaggi, em 04 de março de 2003, o Conselho de Cultura iniciou todo um processo solicitando que o governador decretasse a renominação do Palácio com o nome de Nenê, e assim aconteceu.

Seguindo o trabalho de resgate da história da escritora e como forma de escrever seu nome para sempre na história, o Conselho de Cultura fez uma indicação através da Câmara de Letras sugerindo a criação do Dia do Escritor Roraimense, no dia 24 de abril, data do nascimento de Nenê.

“Essa é uma data muito significativa, primeiro em função da memória da Nenê, e segundo que é uma demonstração de uma iniciativa pública, para se valorizar através de uma data cívica a produção literária do Estado”, justifica, garantindo que o Conselho pretende, a partir de agora, estimular a criação de prêmios, exposições e a produção literária, nessa data.

Roraima Entre Linhas

Após tantos anos de vivência com Nenê Macaggi, Elena Fioretti já estava totalmente envolvida com a escritora e sua obra.

No início de 2005, surge mais uma oportunidade de eternizar o trabalho de Nenê, desta vez, através da televisão.

Convidada a participar do projeto DocTV, do Ministério da Cultura, ela não teve dúvidas de que aquela seria uma chance muito boa de guardar para sempre viva a imagem daquela mulher tão rica de histórias e realizações.

“Para mim a história da Nenê estava muito viva. Da época da primeira exposição até a renominação do Palácio, foi um momento de muito envolvimento com a vida dela, com as coisas dela e, também, percebendo sua indignação pela falta de apoio, decidi por fazer este documentário sobre ela”, explica Fioretti.

Inscreveu seu trabalho para seleção e, após ter seu roteiro classificado, iniciou um árduo trabalho de captação de informações.

O cenário escolhido para o documentário foi a região do Tepequém, no município de Amajari, onde se concentrava grandes reserva extrativistas de minérios, sobretudo diamante e ouro, na primeira metade do Século XX, e onde Nenê Macaggi passou grande parte da sua vida.

“Nós entrevistamos várias pessoas contemporâneas de Nenê e coletamos dados substanciais sobre a sua trajetória em Roraima. Pessoas como Dorval de Magalhães, Jaber Xaud e Laucides Oliveira proporcionaram verdadeiros relatos de história de vida que foram utilizados no documentário”, afirma.

O documentário, que trata da cultura regional e as relações entre os pecuaristas, garimpeiros e indígenas, por meio da obra de Nenê Macaggi, será exibido pela Rede Pública de Televisão (TV Cultura), no dia 30 de abril, às 23h, (horário de Brasília).

“Eu fico impressionada que ainda hoje, mesmo depois de tantas discussões, trabalhos sobre a sua vida, exposições, tanta gente diz que nunca ouviu falar dela, que não sabia quem ela era”, lamenta Fioretti.

Homenagens

Além da renominação do Palácio e da instituição do Dia do Escritor Roraimense, nesta segunda-feira, dia 24, às 19h, também será feita uma avant-premiére do documentário Nenê Macaggi: Roraima Entre Linhas, vencedor do DocTV II, dirigido por Elena Fioretti.

“Também estaremos fazendo uma projeção de uma exposição virtual do fotógrafo Orib Ziedson, retratanto todos os locais por onde Nenê Macaggi viveu. Vamos inaugurar também a Sala de Referência Nenê Macaggi, onde os visitantes poderão conhecer um pouco da biografia e da história da escritora, além de ter acesso a alguns objetos dela”, adianta Fioretti.

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