Um terreno pequeno, de esquina, na Praça da Liberdade. “Aqui é um triânguloâ€, diz o porteiro se referindo ao espaço. Ao lado, uma obra barulhenta no vizinho museu. É onde a avenida Brasil se encontra com a Praça da Liberdade. O edifÃcio foi construÃdo na década de 50. 10 anos depois que o grande arquiteto Oscar Niemeyer finalizou o conjunto arquitetônico da Pampulha. São pouco mais de 10 andares: cálculo não-exato, natureza de um gênio que mostrava que a arquitetura pode ser simples e sofisticada, ao mesmo tempo, sem brigar. Aliás, Niemeyer tinha disso: nada de ângulos retos. A curva sempre encantou e foi a identidade do arquiteto até o fim de seus dias neste planeta. Assim ficou reconhecido internacionalmente. O comunista brasileiro tinha ideias sólidas e se preocupava com a humanidade. Ouço em uma reportagem: “Estamos formando bons arquitetos hoje… mas esquecemos o lado humano desses jovens! Muitos saem da faculdade sem se quer ter lido um livroâ€.
Pois bem, muito belo-horizontino já torceu a cabeça imaginando como seria um dos prédios mais ilustres da cidade por dentro. Não há muros: o estacionamento é debaixo dos pés das vigas de concreto que sustentam o edifÃcio. A porta é de vidro e a portaria é apenas um pequeno espaço, pequeno detalhe. O elevador? Antigo! Nada de contemporaneidade nele. Sobe de uma vez com suas portas de madeiras…. e faz barulho. O meu encontro é com uma senhora de 94 anos que mora em um dos andares, lá do alto, daquela construção em curvas. Bato, delicadamente, na porta. A senhora caminha com dificuldades… Mas com sorriso e alegria de viver.
- Você me desculpa, seu menino, mas é que eu já estou ruim de memória. Qual é a sua televisão mesmo?
Estava como repórter. Ela apertou firme minhas mãos. Sorriu para o cinegrafista e o auxiliar de externa. Com muita educação, perguntou qual era o melhor lugar para gravar a entrevista.
- Sabe, meu pai foi o fundador dos biscoitos Aymoré. Mas antes se chamava ‘fábrica de biscoitos Stella’. Ele comprou um terreno próximo ao Rio Arrudas e trouxe maquinário da Suécia… O pessoal falava que não ia dar certo. Mas como bom descendente de inglês, papai teimou. E deu no que deu: uma das maiores distribuidoras de biscoito do Brasil atualmente. Depois compramos um terreno onde é o Diamond Mall. VivÃamos em um castelinho, próximo ao antigo campo do Atlético Mineiro.
- A senhora é de Belo Horizonte?
- Que nada! Nasci em Caeté, há 94 anos. Casei com um dos médicos do antigo hospital de Belo Horizonte. A instituição funcionava atrás da Igreja de São José. O necrotério também era ali perto. Um aperto danado. Meu marido era muito amigo da famÃlia do governador Milton Campos. Tinha fila na porta da minha casa com gente pedindo emprego.
- E por que morar no Niemeyer?
- Depois que meu marido morreu, minha filha queria que vivesse em um lugar seguro… Aqui é uma maravilha! Tem uma história que ouço desde que me instalei entre essas curvas. Niemeyer se inspirou para construir o prédio ao ver uma pilha de discos de vinil. E construiu, ele era danado. Não sei se é verdade (…) Mas ficou charmoso demais! O terreno pertencia a uma famÃlia de médicos. Eu adoro morar aqui. Olha só esta visão… Posso ver a Praça da Liberdade da janela da minha casa todos os dias. Na minha época de adolescente, namorei muito lá. Que saudades! (Solta uma gargalhada!)
Ela me ofereceu sorvete caseiro. Dona Stella, com 94 anos, também costurava para passar o tempo. É o verdadeiro espÃrito humano, de fé e parcimônia com as coisas. Hábitos e cultura adquiridos no século passado e que fazem muito bem no dia de hoje. A Nossa Senhora MÃstica perto da janela, a porcelana da década de 50, os quadros de arte na parede… Parecia cenário de novela de época.
- Gostou do sorvete? Eu misturo o chocolate com o ovo para formar um creme delicioso… não tem gordura não! Tudo feito com carinho! E que é uma delicia. Sentiu o gosto de brigadeiro, não é mesmo? Tem que congelar pra ficar bom.
Se pudesse, teria ficado a tarde inteira com ela. O relógio e as obrigações profissionais não deixaram. Mas antes, pedi uma fotografia. Quero mostrar aos meus netos – no futuro – que conheci pessoa tão ilustre e de tantas histórias. Um patrimônio de Belo Horizonte. Dona Stella é digna de documentários e filme de cinema.
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