No coração da Juréia

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Donizete Soares · São Paulo, SP
17/1/2008 · 58 · 0
 

Faça chuva ou faça sol. Caia durante ou no final de semana. Não importa! Há décadas, o 29 de setembro é dia santo na Cachoeira do Guilherme. É dia de São Miguel Arcanjo, o santo com que traja roupa de guerreiro e, na mão esquerda, carrega uma balança. Tem reza de manhã, tem reza à tarde e tem reza à noite. Tem almoço e janta pras visitas e, claro, tem festa noite adentro, ou melhor, tem baile até o sol raiar, lá pelas 6 horas da manhã.

Reza, comida e festa são ingredientes necessários, presentes e constantes em um sem-número de culturas. Na comunidade do Guilherme também, assim como em todas as outras que visitamos ao longo do Olhar Caiçara. É assim em Cananéia. É assim em Ubatuba. É assim na Ilha do Cardoso. É assim em Serraria, na Ilhabela. E é assim também na Cachoeira do Guilherme, em Iguape.

Há que se percorrer um longo caminho até chegar ao coração da Juréia – ou Estação Ecológica Juréia-Itatins. Nosso primeiro destino foi Peruíbe, tendo partido de São Paulo por volta das 16 horas. Da cidade, nos dirigimos ainda de carro, por uma bela e pequena estrada asfaltada até o bairro do Guaraú de onde seguimos, por estrada de terra, até Barra do Una, comunidade tradicional de caiçaras com cerca de 200 moradores, localizada em meio às águas dos rios que descem a Serra da Juréia e do mar do sul do Estado de São Paulo.

Já era bastante escuro – mas escuro mesmo! – debaixo de um céu cheio de nuvens, quando chegamos à simpática vila dos moradores da Barra do Una. Dormimos na casa da MONGUE, local especialmente destinado pela ONG, tanto para servir como centro comunitário e cultural dos moradores locais, como para abrigar pesquisadores interessados em estudar aquele ecossistema da Mata Atlântica.

Na manhã do dia seguinte, carregamos o barco com malas, equipamentos, comida... e nos equilibramos nele. Navegamos rio acima, inicialmente sobre as águas salgadas e doces e negras do Rio Una – que em Tupi-Guarani quer dizer preta, preto – margeado pelos mangues que alimentam a vida marinha. Alguns quilômetros depois, a cor escura se perde nas águas do rio, que agora se deixa invadir pelos guapés – tipo de vegetação aquática que, não raro, deixa espaço apenas pro barco passar.

Cerca de duas horas depois, nosso barco entra num dos tantos afluentes do Rio Comprido, como também é conhecido o Rio Una. Sobre as águas claras que vêm da Cachoeira do Guilherme, o caminho mais parece um túnel, uma passagem, um corredor formado de árvores que fazem questão de lançar seus galhos, suas folhas, seu cheiro, sua cor, seu peso sobre nossas cabeças. Estão assim dispostas para nos receber, nos assombrar, nos encantar? Ao mesmo tempo, parece isso e muito mais...

Talvez tenham sido estas as sensações que fizeram, nos anos de 1920, Henrique Tavares escolher a Cachoeira do Guilherme como sua morada e de mais 60 famílias que o seguiram. De acordo com Dona Paula Martins, seu avô, o velho Tavares, era líder religioso e teria vindo de Pariquera-Açu, próximo de Cananéia, para a Juréia, descontente que estava pelo modo como ele e seus seguidores eram tratados naquele lugar. Acomodaram-se, então, às margens do rio que se forma com as águas da Cachoeira. Ao que parece, depois dos brasilíndios que, tudo indica, sempre habitaram aquela região, Henrique Tavares foi o primeiro homem a pisar e estabelecer morada no coração da Juréia.

É nesse lugar de ímpar beleza, de exuberante natureza, de águas transparentes, cheio de pássaros que – como dizem os moradores locais, são os únicos que com eles ficam depois que as visitas vão embora – anualmente se festeja São Miguel Arcanjo, o protetor dos caiçaras ainda seguidores dos Tavares. Antes de morrer, Henrique Tavares teria transmitido ao seu filho, Sátiro, não somente a liderança religiosa como também o poder de curar as dores de quem o procurasse.

Por quase dois dias inteiros convivemos com essas pessoas. Falamos com eles, acompanhamos suas rezas, sentimos os gostos de suas comidas e nos divertimos com seu jeito único de dançar – o passadinho. Entrevistamos, fotografamos, gravamos em vídeo suas imagens, suas casas e os lugares por onde andam. Observamos suas falas, seus jeitos de pensar e de sentir as coisas do nosso tempo. Uma dessas falas, que em momento algum eles se esquecem, é o compromisso de sempre agradecer os que anualmente vêm visitá-los no dia da festa do seu padroeiro. Bem no coração da Juréia.

Veja fotos, ouça o podcast e aguarde o vídeo que o GENS fez sobre o Olhar Caiçara. Clique aqui.

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