O Bom Dia Brasil, o Jornal Nacional, o Jornal da Globo, o Esporte Espetacular... todos deixam o futebol para o último bloco. É a notícia que mais importa. É o esquema tático pra deixar o telespectador parado na frente da TV. É o que mantém a audiência vencedora.
Se tiver desmoronamento de terra, greve de médico, escândalo no Senado, na Câmara, no Governo, operação “Chama a Imprensa” da Polícia Federal, surto de dengue, o que for, que o apresentador Zé Eduardo Bocão, assim como tantos outros do Brasil, fica revoltadinho. Revoltadinho pelo povo, seu povo que sofre com as mazelas da nossa sociedade injusta.
Uma vez teve uma matéria que era “não perca ainda hoje, não saia daí, que você vai ver a mãe que encontrou o filho no necrotério... uma cena forte, mas temos que mostrar”.
O menino tinha morrido afogado e ficou desaparecido por uma semana. Mostraram abrindo a geladeira e puxando o corpo. A mãe se horrorizando ao constatar que era mesmo o seu filho.
Mas ai de o Bahia perder na Fonte Nova, que aí sim ele fica revoltadão. Revoltadão pelo povo, seu povo que sofre com as mazelas do seu time.
O Jornal Nacional usa a mesma tática do Se Liga Bocão. Mostra os podres e depois a alegria (?) para termos uma boa noite e deixar as coisas como estão.
Mês retrasado cheguei cedo demais em uma reunião e fui na banca de revistas em frente para comprar alguma coisa para ler enquanto esperava.
Entre Sexy, Playboy, Private, Brasileirinhas, Anal Force, Buttman e Brazil, a Folha de São Paulo estampava “Mônica Veloso vai posar nua”. Ao seu lado, a Dieta Fácil mostrava Íris Stefanelli sorrindo de biquíni com o titulo “Perdi 5kg e minha vida mudou”, embaixo da Conta Mais, que mostrava a mesma Íris na capa, chorando e com a manchete “Outra crise amorosa na vida de Íris”. Já a Guia da TV dizia “Lucia grávida de Antenor”; a TV Teen dizia “Amor Bandido: Bebel e Olavo juntos até na cadeia” (o que se provou depois que era uma mentira); enquanto a Chega Mais escreveu na capa “Marion é a assassina” (outra mentira descarada da nossa imprensa, o que prova que a nossa imprensa, em todos os âmbitos, não apura os fatos corretamente, pois todos sabemos que o assassino foi o Capitão Nascimento.
A tática do “Se Liga Bocão” está para o “Jornal Nacional” assim como a tática da “Chega Mais” está para a “Veja”.
Tudo está ligado. Assim como o reflexo da situação de Bahia e Vitória que é apenas o reflexo da situação do estado da Bahia, em todos os âmbitos.
Levei uma do Cascão e uma do Cebolinha. Não iria aparecer na reunião com uma Anal Force na mão.
O resultado do jogo pouco me importa. Já disse isso uma vez aqui. Um amigo que sempre vai comigo ao Barradão, Marcelo, fica puto porque eu nunca tô olhando para o jogo, não grito gol, não faço “uhh” quando a bola passa perto, não xingo...
A gente foi uma vez assistir Vitória e outro time que não lembro qual – até liguei pra Marcelo pra poder escrever o nome do time aqui no texto, mas ele também não lembrou... coisas da segunda divisão – e a gente ficou ao lado da torcida “Os Imbatíveis” e pude constatar que a felicidade é uma bandeira.
Quando foi estendida a bandeira que cobre a torcida, o famoso bandeirão, que por sinal fede pra caralho, a alegria tomou conta do mundo.
“¨Uh é bandeirão, uh é bandeirão”, gritavam homens, mulheres e crianças.
O jogo estava marcado pras 16h. Nesse local do estádio, o Sol é irritante. Não bate um vento e o calor é desidratante. Embaixo do bandeirão, nem se fala.
Passei o primeiro tempo olhando pras nuvens, esperando a hora que elas chegariam perto do Sol.
– Vai porra, vai... corre...
E a nuvem passava do lado, mas não encobria o Sol.
– Uhhh – dizia eu.
Marcelo ficava pirado:
– Presta atenção no jogo, porra.
Comemorei quando uma nuvem de aproximadamente 5 minutos se colocou na frente do Sol.
– Beleza, boa, isso aê... – até aplaudi.
Aplaudi mais que os dois gol do Vitória, que ganhou por 2 x 1.
Pior que o Sol, só o cara atrás da gente, uns 50 anos, bigode, corpo de quem pegou muito peso na vida, que gritava com uma voz ensurdecedora “éééééééééééééé” toda hora, em qualquer momento. Uma simples cobrança de lateral e ele “éééééééééééééé...”. A única coisa diferente que ele gritou foi “vai no pescoço dele”, quando um jogador adversário veio em disparada pela lateral.
A irmã de Cris mora em Recife e por conta disso, nunca fui tanto para algum lugar como tenho ido para Recife. Qualquer feriado/promoção de passagem aérea, Cris quer ir pra lá, principalmente de um ano e meio para cá, quando nasceu Felipe, seu afilhado.
Mês retrasado, a gente estava lá e eu fui assistir Sport x Vasco, a contragosto de Cris.
– Fala mal do futebol, mas quer ir pra todo jogo.
Falei do blá, blá, blá de que pra mim é como ir ao cinema, não dei muita bola e fui. Até porque tem uns três anos que não via um jogo da primeira divisão.
Dizem que na Bahia a torcida do Baêa é feita, em sua maioria, pelo povão, enquanto a do Vitória é feita pela elite econômica. Acontece o mesmo com Inter e Grêmio, Cruzeiro e Atlético... e Sport e Santa Cruz. E o Sport é tido como o time da elite econômica do estado de Pernambuco.
A Ilha do Retiro, estádio do Sport, é um estádio interessante. Arrumado, limpo, fácil acesso, policiais tranqüilos...
– Qual o melhor lugar pra ver o jogo? – perguntei a um deles, que estava na portaria do estádio, antes da partida começar.
– Visitante?
Na minha ingenuidade, disse “sim”, pois não deixava de ser um visitante... um turista.
– Aí você vai ter que atravessar lá pelo outro lado.
Só aí entendi que o termo “visitante”, naquele dia, significava “vascaíno”.
Expliquei o mal entendido e disse que queria ficar na torcida do Sport mesmo. Fui de verde. Neutro. Green Power Futebol Clube.
O jogo foi O x O, mas pelo menos vi uma defesa de pênalti.
No feriado de 12 de outubro, Recife outra vez, e descobri, antes da viagem, que teria no Arrudão o jogo Vitória x Santa Cruz, pela 30º rodada do campeonato brasileiro da segunda divisão. Cris já viajou pirada. Nunca vi o Vitória jogar fora de Salvador. Não perderia essa experiência.
O jogo foi no sábado, às 16 horas. Sol pocando.
No jogo do Sport, fui com Rodrigo, marido da irmã de Cris. Mas nesse feriado era Dia das Criança e ele passaria com os filhos. Fui sozinho. De táxi. Eu e meu caderninho.
– Estádio do Arruda, por favor.
Depois de uns dois minutos de trânsito, perguntei pra quebrar o gelo:
– Vai tá muito cheio?
– Vaaaaiiii, num vai o quê... ó pra li – disse o taxista, apontando para uma multidão que andava pelas ruas, numa rua paralela a nossa, com camisas, bandeiras e faixas do Santa Cruz.
De repente, do nosso lado, no lento tráfego, pára um ônibus lotado, entupido de torcedores. Um menino de 10 anos está com metade do corpo pra fora da janela, batendo no ônibus e gritando o mantra “Porra, caralho, eu gosto é de fuder... porra, caralho, eu gosto é de fuder...”.
– É muita coragem ir num jogo desse – disse o motorista.
Eu comecei a anotar algumas coisas no meu caderno e percebi ali o que perceberia muitas vezes naquele dia, o respeito por quem escreve.
– Jornalista? – disse ele com uma voz forte.
Pra facilitar as coisas, eu minto pela metade. Afinal estou fazendo papel de jornalista.
– É... sou.
– De onde?
– É pra um site lá da Bahia.
– Ahhh, o jogo hoje é Santa Cruz x Bahia?
– Não... Santa Cruz x Vitória.
Continuei anotando e ele então passou a olhar de canto de olho para o que eu ia escrevendo. Não fiquei à vontade, até porque estava anotando o nosso diálogo e sobre o fato de ele estar olhando. Ele continuou olhando, mesmo eu virando um pouco de lado, e quase bateu o carro.
Já que ele não conseguia não olhar quando eu escrevia algo, achei mais seguro só escrever algo quando parasse em algum sinal fechado.
A arquitetura do Arrudão é a da escola Coliseu. Uma Fonte Nova menor. Naquele dia foram 34 mil pessoas. Dessas, umas 15 mil tentavam comprar um ingresso uma hora antes do início do jogo.
Achei melhor comprar na mão de um cambista.
– Quanto é?
– Dois.
– Um só – disse eu.
– Dois.
– Não, só quero um.
– Sim, to dizendo que é dois. Dois reais.
– Esse ingresso é pra que setor do estádio?
– Arquibancada.
O termo arquibancada deve ser sempre averiguado em cada lugar que você for. Pra cada lugar pode significar uma coisa.
Ele disse que era pra parte de cima.
– E é o melhor lugar pra ver o jogo.
– Por que? – perguntei.
– Porque se você ficar embaixo recebe mijo, chinela e bomba.
– E bate Sol?
– Pra você pegar sem Sol é 40 conto, na cadeira. Onde fica a elite.
– E embaixo quando custa?
– Oito.
Tirei os dois reais e fui para a entrada do estádio. Eram 15:15. Ainda estava em dúvida se ficaria na torcida do Vitória ou na do Santa Cruz. Ou um tempo em cada uma.
Na entrada, em uma rampa, uma barreira da Tropa de Elite da polícia pernambucana, perfilados, tapando parcialmente a passagem, gritavam “todo mundo aê, levantando a camisa, bora... todo mundo levantando a camisa”.
Um menino de 4 anos que ia nos ombros do pai, talvez por instinto, levantou a sua pequena camisa número 10.
Todo mundo que passava tinha que levantar a camisa. Se quiser levar uma arma na meia pode.
Continuei em frente e, inevitavelmente, estava espremido na multidão que gritava “Uh inferno aê, uh inferno aê...”. Do nada, as paredes viram um funil e depois uma subida em espiral. Essa subida durou eternos 12 minutos em um calor infernal ao som do hit “Uh Inferno Aê”. E o nome do time é Santa Cruz.
Mesmo espremido, eu comecei a anotar algumas coisas e um cara do meu lado, que segurava duas filhas, percebendo que eu não prestava atenção no caminho enquanto anotava, me alertou sobre um desnível que estava logo em frente e que certamente eu cairia.
– Jornalista?
– É...
– De que jornal?
– É pra um blog.
– Hein?
– Internet.
– Ah...
Já chegando na parte de cima do estádio, quase nas arquibancadas que meus dois reais tinham direito, passamos colado com a parte das cadeiras, onde tinha sombra. Quatro meninas de menos de 15 anos, mini-saia, top do Santa Cruz e batom, olhavam o povo passar.
– Ei, princesa – gritou um.
Elas riram.
– Gostosa – gritou outro.
Elas riram mais ainda.
Chegando na arquibancada, vi que a torcida do Vitória estava do outro lado. E que o Sol estava na minha frente. E que ele só sairia dali quase no fim do jogo.
Fui comprar uma água e desci um lance de volta. Andei pelo estádio e vi algumas pessoas aglomeradas perto de um portão de ferro, onde 2 funcionários tomavam conta. De repente, eles abriram a porta, três pessoas passaram e eles trancaram de novo rapidamente, aos gritos de “fecha, fecha” do que parecia ser o comandante ali. Achei estranho. O clima no ar era de algo estranho. Todo mundo se olhando... Fiquei observando.
Dois caras com a camisa do Santa Cruz pararam do meu lado e ficaram olhando também. Eu anotava no caderno.
– Como é que faz pra descer? – perguntei.
– Rapaz... acho que é máfia... dá dois reais pro cara e ele abre... Jornalista?
– É...
– Pra que jornal?
– É pra um site lá da Bahia.
– Ah... E Edílson?
– Ta mal, né? Não fez nenhum gol desde que estreou... a torcida tem vaiado muito ele.
– Vai vaiar hoje de novo, né não?
Dei risada.
Um dos funcionários saiu de perto da porta e foi para o outro lado, se encostar na parede. Lentamente chegaram dois torcedores e conversaram com ele baixinho.
Ele pegou o dinheiro, foi pra porta, os dois seguiram ele, ele abriu, passaram uns 5, pois a pequena multidão dava uma empurrada e eles fecharam. Depois descobri que tinham mais 5 atrás da porta, fazendo a força pra fechar. Mas a multidão tava crescendo e se aglomerando ali. Eles abriram pra mais dois passarem e a pequena multidão, uns 50, invadiram, empurrando a porta e gritando “êêêêêê”. Eu fui no bolo. Só não gritei “êêê”.
Consegui passar e quando estava descendo, vi que alguns estavam subindo de volta, gritando “aaaaah”. Imaginei que devia ser a polícia, que devia estar bem na porta da parte inferior e quando viu a baderna já chegou batendo e trazendo de volta. Um segundo depois constatei que era mesmo a polícia. A Tropa de Choque pernambucana. Dando de cacetete em todo mundo.
Na minha adolescência, dei minhas pichadas pelos muros da cidade.
Existiam os grupos de pichadores, cada um com sua sigla. Você pichava o seu nome, apelido ou o que for, e depois colocava a facção que você pertencia, tipo: “Sapão G.M.”. Sapão é o “nome” e G.M é a facão, que, nesse caso, significava Grafiteiros Malditos.
Sapão é um amigo meu, Flavinho. Hoje economista. Uma vez ele pichou no muro da escola e uma semana depois o muro apareceu pintado, todo azulzinho. Ele foi lá e pichou “Não adiantar pintar o muro que eu venho e picho de novo. Sapão. G.M.”.
A minha era G.O.P. Que era do alunos do Anchieta. Significava “Garotos Obcecados pelo Piche.
PUTAQUEPARIU.
Nome horroroso.
Pituba, 19h, cada um com seu spray na mão, em um muro branquinho, quando a porta se abriu e um cara correu pra pegar quem pichava. Segurava um pedaço de pau.
Fredinho estava só olhando nessa hora. De frente pra gente.
Passei por ele gritando “corre Fred”, mas ele ficou parado. O cara passou por ele batido. Ótima tática.
O elevador do meu prédio tem a mania de parar, do nada, no meio de algum andar, mostrando os tijolos quebrados e o cimento comido das partes entre os andares. Numa dessas paradas, num dia desses, estava lá, no cimento: “Godzilla G.O.P”. Fiquei emocionado. Um ciclo que se fechou.
Pensei na tática de Fredinho quando vi a multidão e os policiais vindo em minha direção. Encostei na parede e fiquei fingindo que anotava algo em meu caderno. Olhando pras cenas e escrevendo. Os policiais passaram batido por mim.
Um bom caminho pra ser jornalista é ser pichador na adolescência.
Cheguei na parte de baixo e poderia, enfim, ficar na parte coberta, na sombra. O que era também vantajoso em relação a proteção contra objetos oriundos de cima.
Fui andando na direção da torcida do Vitória e no caminho me encontrei com os dois que perguntaram por Edílson.
– Conseguiram entrar no bolo? – perguntei.
– Conseguimos... e tu, levasse paulada da polícia?
– Não, consegui passar.
– Deu sorte, os homi tão que tão hoje... Agora vê se faz uma matéria da vitória do meu Santinha, hein... – disse um.
– Fale bem do meu tricolor – disse o outro, na hora de se despedir.
Continuei andando e resolvi parar na fronteira das torcidas, próximo aos policiais, ainda na torcida do Santa Cruz.
Assim que me sentei, vi uma Havaianas caindo lá de cima, nas costas de um senhor que estava na parte descoberta. Muitos olharam pra cima pra tentar descobrir o culpado entre os 10 mil da arquibancada superior.
Cinco minutos de jogo e gol do Vitória.
A torcida do Vitória comemorava enquanto dois torcedores do Santa Cruz e um de camisa do Bahia colaram na “fronteira”, bem em minha frente, e ficaram apontando pra algum dos 300 torcedores do Vitória, fazendo bico de malvado e dizendo “é você, você e você...”. Todos estavam de calças esportivas do Santa Cruz, inclusive o do Bahia, camisetas sem mangas mostrando o braço malhado e as 49 tatuagens, e segurando um cigarro em uma das mãos.
A torcida do Vitória nem aí pra eles, mandava no Arrudão. Só se ouvia ela, que era 100 vezes menor.
“Vitória arrêa, arrêa, arrêa, arrêa...”.
Gol do Santa Cruz.
E lá vem os 3 de novo. Só que dessa vez com mais 100 atrás. Mesma cena. Cigarro na mão, apontando e dizendo “você, você e você, vai tomar pau, porrada...”.
Essa geração saúde é meio doentinha da cabeça.
Olhei pra torcida do Vitória humilhada e não pude deixar de pensar com raiva “isso que dá cantar grito de guerra de axé music”.
Tem que gritar “bota pra fuder, bota pra fuder...”.
Porra de “Arrêa, arrêa...”!
Na torcida do Vitória uma bomba explodiu. A polícia, que estava colada, não gostou e foi atrás do autor do estouro. Foi arrastado pra fora do estádio aos gritos de “vai fi de rapariga, solta bomba agora que eu quero ver” de todos ao meu redor.
Pênalti contra o Vitória. A torcida tricolor comemorou como se fosse um gol.
Defesa de Nei. A torcida baiana comemorou como se fosse um gol e começou a gritar a merda do “arrêa, arrêa...”.
Anotando e assistindo o jogo, não reparei que um cara se aproximava de mim.
– É pra jornal?
– Mais ou menos... é pra um site na internet.
– Ah... Você é jornalista esportivo?
– Mais ou menos... tenho um blog.
– Ahh, sei... Pensei que você era do Diário de Pernambuco.
– Não... sou de Salvador.
– Ah...
Passou uns dois minutos calado do meu lado.
– Esse time do Vitória é bom. Uma vez eu fui em Salvador. Passei embaixo da Fonte Nova. Bonita, né?
– É, é massa.
– Não deu pra eu conhecer o Barreirão, pois era longe.
– Barradão – disse eu.
– Hein?
– O nome do estádio é Barradão.
– Ah... então, não deu pra eu conhecer, mas ainda vou voltar lá em Salvador, tenho parente lá, Genilson, mora em Stella Mares, conhece?
– Stella Mares? Conheço sim.
– Não, Genilson?
– Ah, conheço não...
– Ele mora em Stella Mares.
Aí passava um tempo e ele ficava calado. Eu escrevia alguma coisa e ele:
– A Fonte Nova é do Bahia e o Barreirão é do Vitória, né?
– Não. A Fonte Nova é do Estado e o Barradão é do Vitória.
– Ah... eu pensei que a Fonte Nova era do Bahia.
Gol do Vitória. De Edílson. O primeiro gol dele na temporada.
"Isso Capetinha... Uh inferno aê, uh inferno aê", pensei.
Nesse momento não tinha ninguém ao nosso lado e eu não consegui conter um pequeno impulso de comemoração. Senti que ele também.
– Você torce pro Vitória, né? – disse ele, cochichando.
– Torço – respondi, cochichando mais ainda.
– Eu torço pro Sport – disse ele quase sem voz.
Acabou o primeiro tempo e Seu Eduardo, enfim perguntei seu nome, começou uma série de perguntas sobre a Bahia. Comparou os dois estados em relação a violência, a cultura, ao futebol, disse mais uma vez que gostaria muito de conhecer o Barreirão (desisti de corrigir) e disse que a melhor profissão pra um brasileiro é ser jogador de futebol.
Eu ia anotando algumas coisas que ele falava, o que me deixou preocupado, pois ainda faltava o segundo tempo todo e o caderno, que é bem pequeno, estava acabando por conta de Seu Eduardo.
“Tenho de sair daqui”, pensei.
Ele disse que o pai dele era escritor e que ele nunca foi bom de escrever, mas que se deu bem no vestibular que fez em 1994.
– Foi quando o Brasil foi campeão, com Taffarel, Dunga e Romário. O tema do vestibular foi “Copa do Mundo”. Me dei bem.
Seu Eduardo foi ver o segundo tempo na torcida do Vitória, o que me fez permanecer na do Santa Cruz. Ele até me convidou, mas recusei.
O Vitória fez mais um gol no início do segundo tempo e temi pelo futuro do jogo quando a torcida rubro-negra começou a cantar “Poeira, poeira, levantou poeira”.
Mas o jogo permaneceu 3 x 1 até fim. Os torcedores do Santa Cruz agora chamavam todos os jogadores do time de “fi de rapariga”.
– Vai seu fi de rapariga.
– Fi de rapariga duma égua.
– Esse time de fi de rapariga não serve nem pra jogar fora.
Anotava isso e lembrei do cara que conheci na confusão pra descer, que pediu pra eu falar bem do Santinha dele.
A revolta tomava conta de todos ali. O ódio pelo técnico, pelo árbitro, pelo gandula, pelo cara que perdeu o pênalti era absoluto.
Dois pés de Havaianas, um preto e um azul, ambos de um pé esquerdo, caíram próximo de mim, que estava agora na parte descoberta.
Muitos olharam pra cima chamando os 10 mil da arquibancada superior de fi de rapariga.
Edílson, que estava sendo vaiado constantemente nos jogos anteriores, saiu aclamado antes do fim do jogo. Ele resolveu os todos os problemas daqueles 300 que estavam ali.
Na saída do estádio, indo pegar um táxi, passei por mais 3 pés de Havaianas, inclusive um azul de um pé direito.
O taxista que peguei estava pirado. Ouvia a resenha no rádio.
– Essa Santa Cruz é um bando de fi de rapariga, sei não, viu? Como é que o fi de rapariga me perde um panalty?
– É foda...
– Ah, que é isso? 34 mil torcedores e o fi de rapariga me perde um pênalti, esse técnico é brincadeira...
Voltamos o caminho todo com ele no monólogo reclamando sobre tudo e sobre todos. Desligou o rádio no meio da transmissão, quando mostrava o “replay” do gol de Edílson.
Pra quebrar o gelo, perguntei:
– O Santa Cruz ainda tem chance?
– Que nada, acabou hoje. Esse jogo era decisivo. Agora é rezar pra não cair pra terceira, porque pra primeira divisão, só ano que vem.
– É foda...
– Como dizem por aí: “o sonho acabou” – gritou ele, com ênfase ao dizer “acabou”.
Ficou um silêncio no carro.
Eu pensava “digo, não digo, digo, não digo...”. Vou dizer:
– John Lennon.
– Hein?
– Essa frase, “O sonho acabou”, é de John Lennon.
– Ahhh.
O silêncio permaneceu no carro até o fim da corrida, quando ele disse:
– Dez reais e cinqüenta centavos.
Paguei, agradeci e me despedi.
Já fora do carro, ele me chamou.
– Como é mesmo o nome do cara?
– Que cara?
– Da frase.
– Ah, John Lennon.
Ele tentou dizer o nome e não se saiu muito bem.
– Tem um papel aí não, pra anotar? – perguntou ele.
Puxei meu caderninho, arranquei a última folha e escrevi “O sonho acabou, de John Lennon”.
Em tempo: Um amigo meu, torcedor do Baêa, que já foi meu patrão em uma agência de propaganda, fez um blog muito divertido – www.baheaminhaporra.blogspot.com – pra falar do seu Baêa. Ele me pediu um texto sobre o Baêa e eu disse que vou assistir o jogo dessa quarta-feira 31/10/07, na Fonte Nova, Baêa x Bragantino, só pra fazer o tal texto.
– Mas man, na moral, tente fazer um texto curto – me pediu ele.
– Dá não man, é muita coisa que acontece.
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(1) Porrada, de Arnaldo Antunes e Sérgio Britto. Titãs.
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