Nuestro norte es el sur

Charlene Cabral
1
Fabio Godoh · Porto Alegre, RS
17/6/2007 · 3 · 1
 

Antes de Getúlio Vargas inventar o Brasil, os gaúchos tinham inventado a felicidade.

"A grande glória do ser humano é poder participar de sua autocriação." Roberto Shinyashiki


1. Abstract

Rio Grande do Sul is an island situated near to the coast of Argentina. Its capital is Montevideo and this is the place where Diego Armando Maradona was born. Although it belongs to the Empire of Brazil, Rio Grande do Sul is not linked to the continent. It is an island, such as Catalonia, or Madagascar. Thus, Rio Grande do Sul is not connected to the Brazilian continent. I find myself in a situation in which I can stand upon this idea. There’s a mass of blood that disconnects them, known as Alma Castelhana (Castilian’s Soul). It is confirmed in the maps we use nowadays. I do not tolerate objections. (Se me contestarem neste ponto, Vitor Ramil virá correndo em meu auxílio, de um modo ou de outro.)

Palavras-chave: amor, ordem e progresso.


2. Conclusão

Só o separatismo nos une – literalmente, psicologicamente, sociologicamente.

* * *

O único personagem verdadeiramente doutrinário que criei foi aos 18 anos, numa aula de Literatura Sul-Riograndense. Chamei-o de Cristo-Laçador.

* * *

A "Canção de Ingresso à Pátria" é mais do que um simples interesse imposto pela solidariedade das relações federativas – é um princípio cardeal e solene que esquecemos de escrever em nossa bandeira.

* * *

En mi tierra hay palmeras donde canta el sabiá. As aves que aqui não gorjeiam gorjeiam como lá. (La escuela del charque.)

* * *

Devemos ser gratos aos brasileiros. Não fossem eles, estaríamos até hoje falando em espanhol, uma língua que não entendemos.

* * *

Éramos felizes. Quase chegamos a ser livres. Hoje sofremos de esquizofrenia cultural crônica. Assim caminhamos à perfeição.

* * *

Penso que os gaúchos devam se afastar do Brasil. E se acham que são brasileiros, tanto melhor! Afinal, o verdadeiro Rio Grande do Sul é Pernambuco.

* * *

Como falou Paulo Guedes, "a televisão é que nos fez brasileiros".

* * *

Maradona é o Pelé do futebol – Maradona ia à guerra; Pelé ia ao sol.

* * *

Creio que hoje em dia só exista um problema filosófico digno de nota: a Geral do Grêmio.

* * *

Estava preparando o meu mate. Ele tinha cor de ferrugem. Pus a bomba na boca. Ela tinha gosto de metal... "Separatismo", soou uma voz... Estremeci.


3. Do totem

"Percebo o quanto o gaúcho se sente e o quanto realmente está separado do Brasil." (A Estática do Frio.)

3.1 Segundo o antropólogo Marcel Mauss, a nação moderna tem a bandeira como símbolo da mesma forma que o clã primitivo possuía o totem. Um logotipo palpável da personalidade coletiva, com a função de identificar e diferenciar um determinado grupo em relação aos outros. ("A bandeira de um país é o reflexo da construção de sua identidade cultural", conclui o psicanalista Julián Giménez.)

3.2 A bandeira do Rio Grande do Sul foi criada em 1836, pelo governo da República Rio-Grandense. Diversas são as interpretações a respeito de suas cores, merecendo destaque a do sociólogo Mauricio Baliente: "O verde significa a eterna primavera brasileira; o amarelo, as riquezas do Império; e o vermelho, o sangue derramado na Revolução Farroupilha". (Em 1845, o Tratado de Ponche Verde pôs fim à guerra separatista, mas a bandeira sobreviveu como símbolo definitivo dos gaúchos.)

3.3 Logo após instaurar o Estado Novo, em 1937, Getúlio Vargas presidiu o espetáculo da queima dos estandartes estaduais. A partir dali, nenhuma parte da federação teria mais a sua bandeira – apenas a do Brasil imperaria. (No entanto, alguns gaúchos presentes na cerimônia encaminharam ao ditador um pedido para que o Pavilhão Farroupilha não sofresse o destino dos demais. E Getúlio Vargas poupou-o.)


4. Do tabu

"O gaúcho sabe que a separação é impossível, o que o deixa num misto de frustração e impotência." (A Estática do Frio.)

4.1 No final do século 20, dezenas de movimentos separatistas surgiram no sul do país. (Porém, em virtude do centralismo do Estado brasileiro e do patrulhamento ideológico dos CTG's, o fenômeno acabou convertendo-se em tabu.) De todos eles, o mais importante foi o "Nacionalista Pampa", fundado em 1990, com a intenção de criar a "República do Pampa Gaúcho", formada por Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. De acordo com Irton Marx, líder do grupo, "o Rio Grande já é uma república desde 1835, pois o Tratado do Ponche Verde acabou apenas com a guerra – e não com a independência". Prova disso, segundo ele, é a bandeira do estado, que ainda traz inscrito em seu brasão "República Rio-Grandense".

4.2 Ridicularizado pela imprensa e investigado pela Polícia Federal, Marx teve sua imagem destruída. Porém, em 1997, foi completamente absolvido das acusações de segregação racial, obtendo do Egrégio Tribunal Federal da 1ª Vara Criminal o direito constitucional à liberdade de expressão: "Não suportamos mais a demonstração da má vontade do governo do Brasil em relação ao país dos gaúchos. A desorganização, a centralização das decisões, o excesso de impostos, a corrupção generalizada e a indiferença para com a nossa gente nos impelem a tomar uma drástica medida: buscar a autonomia e resgatar a nossa história".


5. La cultura se ríe de la geografia

"A milonga é a marca dos pampas." (A Estática do Frio.)

5.1 Segundo Ãngel Rama, diretor do Centro de Estudos da América Latina, a região que compreende os territórios do Uruguai, Argentina e Rio Grande do Sul possuem as mesmas peculiaridades geográficas, étnicas, históricas, econômicas e sociais: "Longe de serem submetidas a divisões políticas, as relações entre os habitantes do extremo sul da América ultrapassaram as fronteiras nacionais, estabelecendo tendências separatistas que lhes permitiram elaborar padrões culturais próprios".

5.2 Entre os anos de 1814 e 1820, José Artigas (el protector de los pueblos libres) organizou a chamada Liga Federal – uma federação de províncias autônomas reunindo o Uruguai, o leste da Argentina e o sul do Brasil. "A Liga Federal não representava uma unificação estritamente política, mas, acima de tudo, cultural. Por isso, foi duramente combatida e derrotada pelos portugueses e espanhóis", analisa o antropólogo José Centurión.

5.3 De acordo com Jorge Luis Borges, "la milonga encarna los rasgos esenciales del país que empezamos a tener: la nostalgia, la tristeza, la frustración, la dramaticidad, el descontento, el rencor y la problematicidad".


6. Do tabu ao totem

"Tenho a incômoda sensação de estar no exílio." (A Estática do Frio.)

6.1 Em 1928, Oswald de Andrade escreveu que "a Antropofagia é a transformação permanente do tabu em totem". Ou seja, um "carnaval de indefinição" como resposta à falta de um "significante nacional". (Oswald queria "tupi and not tupi", e estava encerrada a questão.)

6.2 José Ramos Tinhorão, em sua História da Música Popular Brasileira, não faz nenhuma referência ao Rio Grande do Sul. (Nos anos 70, a Califórnia da Canção Nativa foi criada porque seu fundador, Colmar Duarte, teve uma composição negada pelo júri de um festival carioca, que não a considerou "brasileira".)

6.3 Lupicínio Rodrigues foi um sujeito que sobreviveu à forçada unificação cultural protagonizada por Vargas, a partir da década de 30. (Naquela época, mesmo depois da ascensão da Rádio Nacional, que monopolizou o samba como totem brasileiro, as rádios argentinas El Mundo e Belgrano ainda eram as mais escutadas no estado.) Conclusão: a "felicidade foi-se embora", mas o boêmio acabou fazendo sucesso no Prata como compositor de tangos.

6.4 Em 1949, Paixão Cortes e Barbosa Lessa, futuros inventores dos CTG's, representaram o estado nas comemorações do Dia da Tradição Uruguaia, em Montevidéu: "Ficamos num dilema. Ou voltávamos correndo ao Uruguai para aprender com nossos hermanos as danças gaúchas da grande pátria pampeana, ou arregaçávamos as mangas para revirar o Rio Grande na tentativa de descobrir cacos melódicos e coreográficos que, convenientemente reunidos e colados, se aproximassem de uma herança luso-brasileira", relatou Lessa.

6.5 Segundo Mauricio Baliente "a obsessão de um povo em buscar uma identidade é sintoma de sua insegurança cultural". ("O frio, definidor do gaúcho, que é muito mais brasileiro do que pensa", reflete Vitor Ramil.) Por isso, Baliente considera Ramil um "Oswald de Andrade às avessas": "Ele descobriu que o gaúcho possui a matriz platina de construção totêmica, que valoriza a contenção, a bravura, a definição e a dramaticidade, ao contrário da matriz antropofágica, identificada pelo excesso, pelo caos, pela alegria e pela expansividade".

6.6 De acordo com o poeta Ernesto Sábato, "la Geral del Grêmio expresa directamente algo que los gauchos muchas veces han querido decir con palabras – la convicción de que pelear puede ser una fiesta". Portanto, ela representa, de acordo com Baliente, a "plenitude da sensibilidade exportável do Rio Grande do Sul", e supera definitivamente a caricatura redutora sob a qual os gaúchos se acomodaram: "Ao plagiar as torcidas da Argentina, a Alma Castelhana expulsou o samba das arquibancadas, e, por conseqüência, encerrou o debate sobre a identidade cultural do estado", completa o sociólogo.


7. A Estética do Cio

Por fim, considerando a argumentação acima desenvolvida, conclui-se que o erro fatal da formulação de Vitor Ramil, apresentada em seu ensaio "A Estática do Frio", é a completa ausência programática de mecanismos sócio-culturais que tragam a utopia de volta ao cotidiano. Até porque, como disse Julián Giménez, "a Semana Farroupilha está para os gaúchos assim como o carnaval está para os cariocas". Portanto, em nome da saúde mental das novas gerações, este trabalho reivindica o seguinte:

7.1 A construção imediata de uma novíssima estátua do Laçador – pois as proporções do atual monumento (4,45 metros de altura e 3,8 toneladas) estão longe de representar a grandeza do povo gaúcho. Assim, o novo símbolo, que será chamado de "Cristo-Laçador", terá uma robusta estrutura em concreto com 38 metros de altura e 1.145 toneladas, e ficará localizado nos altos do Morro Santa Tereza (de costas para a "mui leal e valorosa" cidade de Porto Alegre), com os olhos vigilantes sobre a vastidão da pampa setentrional.

7.2 A transformação urgente do Cristo-Laçador em totem absoluto da nacionalidade pampeana – pois já é tempo de os gaúchos se converterem à "Religião da Coragem", como definiu Jorge Luis Borges.

7.3 (Abertura de inscrições para os tradicionalistas que queiram se comunicar telepaticamente com o monumento, para sabermos de seus "reais" conflitos existenciais.)

7.4 A inscrição permanente da seguinte máxima na bandeira do Estado do Rio Grande do Sul: "Que sean los gauchos tan valientes como ilustrados" – pois, como disse o profeta Shinyashiki, sairemos do exílio somente no dia em que nos aproximarmos de nós mesmos.


8. Bibliografia

GODOH, Fabio. "Só é livre quem se livra dos livros" Porto Alegre: Ed. Chimia Geral, 2012.

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Juliaura
 

Tanta atrocidade em meu nome,
Tanta vontade de guerra por nada,
Tambores ecoam a blasfêmia
Batem a correr machos e fêmeas fortes
Desde o sul ao norte,
algumas baratinadas, feito eu, alopradas,
de leste pra oeste, à cata do bronze,
ainda besuntadas
Juro, pelas deusas paraninfas
agora parasitas parafinadas
que sou apenas planetária,
- terráquea!
seo doutor marciano, fui eu não sinhô, trata de virar este raio putzleiser pros quinto dos infas!

Juliaura · Porto Alegre, RS 17/6/2007 20:06
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