O ABOIO CHINÊS

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Braulio Silva · Brasília, DF
19/11/2013 · 17 · 1
 


No final do século XVII houve a descoberta de ouro no município de Cataguazes, Minas Gerais. Essa descoberta promoveu muitas rotas bandeirantes e também atraiu tropeiros para o sertão. Os tropeiros eram os caminhoneiros da época; traziam víveres (animais vivos, como galinhas, e outros para o consumo e venda). Esses tropeiros saiam do Rio Grande do Sul e seguiam em direção ao sertão de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, passando por Santa Catarina, Rio de Janeiro e São Paulo. A música rural circulava muito entre esses tropeiros, mas a principal manifestação musical entre eles era o que se chama aboio.
O aboio é, geralmente, um tipo de som monofônico. Ainda vemos muitas manifestações dos aboios no interior de Goiás, com os tocadores de boiadas chamando: booooooooooi, booooooooi. O aboio é utilizado para se comunicar com o gado e para guiá-lo para um determinado lugar, durante as comitivas e também para atrair a atenção de animais que estavam escondidos. Esses aboios eram cantados segundo a fantasia do tropeiro, sem uma determinação de ritmo ou de letra. Muitas vezes ele manifesta os seus sentimentos na música produzida ao sabor de seu humor.
Os tropeiros foram os primeiros a fazer a integração entre os estados de Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Com eles não circulavam apenas as mercadorias, mas notícias, conhecimentos, músicas, as novas técnicas de produção e as notícias em geral.
Os tropeiros produziam também as modas de viola, com arranjos elaborados. Através dessas produções os tropeiros levavam as novidades de um local a outro. Muitas vezes essas músicas eram produzidas em cima do lombo do cavalo. Vale notar a importância desses viajantes em uma época que a sua chegada era um acontecimento muito importante para os vilarejos e cidades onde passavam. A partir de locais onde eles tradicionalmente faziam os seus “arranchamentosâ€, também nasciam os povoados e as vilas. Por tudo isso os tropeiros são reverenciados e suas tradições são cantadas em muitas letras de música caipira, (ou de raiz) pelo país afora. Dentre os vários ritmos que os tropeiros produziam, há o aboio, que é uma forma de se comunicar com os animais com os quais conviviam.
Ocorre que o canto dos tropeiros é uma representação da relação destes com o meio natural (no caso, com os animais).
Esse fenômeno é também observável nas comunidades mongóis. Os mongóis têm uma relação muito estreita com o ambiente natural, assim como milhares de comunidades tradicionais espalhadas pelo mundo.
A Mongólia está localizada em um território autônomo, na China, e compõem uma das 56 etnias que habitam o território chinês, há 05 mil anos, sem interrupção. As culturas milenares do território chinês são parte da história da evolução da humanidade. O “país do centroâ€, como ficou conhecido, ainda conserva 56 etnias, ou nacionalidades, como se diria em espanhol, que mantêm vivas muitas tradições, saberes e fazeres herdados dos seus antepassados.

Os mongóis

O povo mongol era uma das tribos nômades do norte da China. Logo no começo do século XIII, os mongóis, liderados por Genghis Khan, unificaram todas as tribos que habitavam o território mongol, formando assim a etnia mongol, também chamada de nacionalidade mongol.
Atualmente os mongóis vivem na Região Autônoma da Mongólia Interior, assim como nas regiões autônomas de Xinnjiang, Qinghai, Gansu, heilongjiang, Jilin e Liaoning – com 5,81 milhões de pessoas no total.
A região mongol possui um clima seco de pradaria. Assim como em todo norte da China, é alta, fria seca e com frequentes nevascas. Assim, a região não é própria para a agricultura.
Por esta razão a criação de animais é a base de sobrevivência do povo mongol, sendo o fundamento mais sólido de sua segurança alimentar.
Por centenas de anos, o povo mongol conservou o costume de migrar seguindo o pasto, e a água, deixando suas marcas em muitos pastos da nação chinesa. Viviam em pequenas cabanas, feita de couro, que poderiam ser instaladas ou removidas com facilidade. Atualmente vivem em casas de alvenaria, e as pradarias se converteram em uma paixão.
O povo mongol também tem outra paixão, os cavalos. Sua relação com estes animais é tão intensa que são conhecidos por ser uma “etnia equestreâ€. Os cavalos são parte fundamental da vida desses povos, sendo indispensáveis em tudo que fazem em sua vida cotidiana, seja lutando, pastoreando, caçando ou praticando comércio. A equitação é ensinada aos mongóis quando estes ainda são muito jovens. Um elevado grau de habilidade em equitação abre as portas para a vida de um mongol. Graças às suas magníficas raças equinas, podem se orgulhar de seus melhores exemplares e alcançar surpreendentes habilidades na doma e na corrida de cavalos.
Os dois tipos de raças se distinguem pelo galope e pelo trote. O trote é reservado somente aos adultos com habilidades sofisticadas, como o charme ao trotar e o modo estável e mais rápido do que os concorrentes, no caso dos jogos promovidos para celebrações coletivas e solenidades.
O arco e a flecha, necessários para a batalha e a caça, são adorados desde tempos antigos, representando a virilidade entre os mongóis. Da mesma forma, muitas etnias brasileiras adotaram o arco e a flecha nas suas atividades de guerra e de caça. Muitas das flechas usadas pelos povos originais do Brasil tinham veneno, principalmente quando queriam matar os seus opositores em guerras.
Além dessas semelhanças comuns em povos antigos, o povo mongol canta uma toada única chamada Urtiim duu (canção longa), uma forma característica da cultura nômade e da tradição local, nas pradarias onde vivem. Cada linha da canção tem duas partes, improvisada pelos cantores desde suas experiências e emoções cotidianas e interpretada segundo os seus ritmos diversos. A maior parte das letras dessas músicas tem como inspiração a beleza das pradarias, os cavalos finos, manadas de camelos, ovelhas ou bois, o céu azul, as brancas nuvens, os rios, e os lagos.
Geralmente o Urtiim duu conta com o acompanhamento de um instrumento de cordas mongol chamado m atou qin (violino de cabeça de cavalo).
O Urtiim duu tem letra curta, mas longos trechos instrumentais, o que deixa a sua música melódica e expressiva.
É característico dessa forma musical que o cantor possa cantar em tons altos e baixos, em uníssono, com uma técnica chamada hum mai. O Urtiim duu é visto como uma relíquia viva da música folclórica mongol.
Por centenas de anos o povo mongol tem cantado o Urtiim duu dedicado à vida, à Mãe Natureza e a um futuro de prosperidade. Quando se escutam nas pradarias o melodioso e expressivo Urtiim duu e o canto hum ai, ambos expressão da alma da música mongol, sente-se o especial encanto das pastagens em seus mais finos detalhes.
Analisando a vida dos mongóis, percebemos algumas semelhanças culturais com alguns grupos populações tradicionais brasileiras.
Mas queremos chamar a atenção para uma especial semelhança entre a cultura mongol e a sertaneja brasileira, o canto.
Perceba que o aboio tem semelhanças muito estreitas com o canto Urtiim duu, que aqui tomamos a liberdade de chamar de “aboio chinêsâ€, para apresentar semelhanças entre culturas tão distantes.
Em todos os continentes observa-se essa relação entre o homem e o meio natural, através de suas representações culturais.
Da mesma forma, o patrimônio imaterial dos povos mongóis, representado pelas festas, cânticos, celebrações por boas colheitas, e outras maneiras de interagir com o meio natural, demonstra que as culturas estão cheias de representações, expressas através das manifestações culturais. Portanto, conservar as culturas desses povos e de quaisquer outros, significa também preservar uma relação respeitosa com o meio natural.
As culturas são parte do meio ambiente, pois elas o interpretam, dão-lhe significado e sentido, não sendo possível dissociar uma coisa, da outra.
Nesse caso, agora temos a oportunidade de perceber manifestações culturais tão distantes mas, ao mesmo tempo, tão próximas pela proposta aproximação do homem com o meio natural.

• Silva Braulio A. Calvoso. Cerrado: 11 mil anos em histórias – uma perspectiva socioambiental da ocupação do Cerrado. Registro 562.941, Livro: 1073, folha 498, de 14 de junho de 2012 (obra não publicada);
• Ying, Xu y Baoqin, Wang. Minorías Étnicas de China. China Intercontinental Press, Beijing, 2012.
Bráulio Antônio Calvoso Silva é licenciado em Letras, pela UnB, escritor e jornalista especializado em culturas. brauliocalvoso@hotmail.com



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AndreaLuisaTeixeira
 

Belo texto Bráulio!!! Abraço

AndreaLuisaTeixeira · Portugal , WW 10/7/2014 07:48
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