O “ÁGUA®DENTE” DA CULTURA POPULAR COM A SAÚDE
Reonaldo Manoel Gonçalves
Mandei fazê um baralho de ouro
Ó benzinho é prá nós dois jogá
Mas seu ganhá eu dôte um beijinho
Mas seu perdê é você quem me dá
Sou de uma comunidade onde não sou chamado pelo nome. Sou filho do meu pai e da minha mãe. "É o Nado da Ivone e do Bebê ". Nado é meu apelido, Ivone é minha mãe, Bebê, também apelido, é meu pai. Desde pequeno escutava minha família cantar músicas estranhas que eu não conhecia e não tocava no rádio. Eram músicas da infância deles. A televisão não existia, pelo menos para nós dessa comunidade. Fui coroinha, aprendi a cantar na igreja, batendo o sino, divertia-me até achar a praia mais interessante do que ficar dentro de uma batina no domingo de manhã.
Certo dia, aportou um Boi-de-Mamão na minha comunidade. Foi muito divertido ver aqueles bichos brincando com a gente. Um monte de senhores bem velhos cantando e dançando. Como a maioria dos meninos da época, o futebol e aquela brincadeira foram projetos para o futuro.
Cresci e, além da estatura, aprendi com pessoas das mais variadas idades que o olho no olho, um sorriso, um aperto de mão, enfim, essas coisas todas que parecem estar em desuso ajudam a nos comunicar com o mundo e, mais, a viver com outros. Um sorriso, um olhar de criança, de um velho, de um adolescente, de um adulto comunica a permissão para a partilha. É claro que os diferentes graus de envolvimento são como um mingau que comemos pelas beiradas. Sabe-se que nas bordas do prato o mingau está mais frio e vamos experimentando até chegarmos no miolo. Assim como o mingau, precisamos de tempo e paciência para chegarmos numa fase mais “quente” nas relações.
São dessas relações que proponho compartilhar nestes escritos com você, leitor de olhos bem abertos para estas linhas, palavras. Bom seria se esta publicação fosse impressa também em braile, pois, falando em Fundação Nacional de Saúde, nada mais coerente. A diminuição do acesso ao saber passa por todos os campos e por todas as lutas, mas a tarefa aqui é outra. Fica o lembrete.
Os escritos que seguem visam a compartilhar um pouco sobre a importância da cultura popular quando falamos em saúde. Onde aparecem imbricadas, de forma coesa, fortalecendo-se. Quais as formas de fazer que sejam fontes inspiradoras para a ação de cada um.
Acredito que não seja tarefa fácil a realização de tantas experiências que florescem pelos quatro cantos deste País, mas tanto a saúde quanto a cultura popular vivem dando provas da realização das tarefas ("ditas") impossíveis.
A reflexão acerca da cultura popular, como agente propulsor do diálogo entre pessoas e destas com o mundo, é feita dentro da dimensão que ela vem se construindo ao longo dos anos, o mundo da comunicação.
Muita coisa do que se fazia, alguns sabem. Os contadores de histórias vêm assumindo um papel mais presente dentro da cultura de muitos grupos. Na maioria das vezes, o velho cumpre esse papel de contar. Em outros, descobre-se que a história é recente, pois foi contada por um adolescente, por um jovem. No coração desses seres humanos, gotas de suor, lágrimas, canções de ninar, próprias de um mundo em movimento que para muitos só existe na lembrança. Entretanto, a troca da ação pela fala não garante a permanência de algum dado cultural, pois a questão que urge é de quem se habilita a escutar “minhas histórias”. A relação calcada no diálogo, peça chave nesse processo, contribui, e muito, para a reestruturação do dado cultural, representando um primeiro passo na sua reconstrução .
A cultura popular, dentro dessa dimensão de comunicar, vive encravada no dia a dia, diretamente ligada ao cotidiano, funcionando com lógicas de tempo bem diferentes em que um alimenta o outro. Antigamente as canções de trabalho eram a mola propulsora da enxada ao solo carpindo a terra. Os facões, cortando a cana debaixo de um sol escaldante, também acompanhavam uma música. Desde a senzala, local de prisão de homens e mulheres negras, foi assim. A música como uma das companheiras de uma situação de extrema desumanização do ser. Basta reportar-se às diferentes manifestações culturais a partir do trabalho (os cantos de trabalho na lavoura), das condições de vida ( a capoeira e a escravidão), entre outras, para percebermos que essa relação - cultura popular e cotidiano - constrói um movimento cultural constante, dinâmico, de resistência, alegre, paradoxal.
Sem pretender fazer um estudo mais aprofundado de cada manifestação cultural, pois sua singularidade não permite desleixamentos na análise, prefiro focar meu olhar nos elementos que permeiam sua construção. Quem assiste uma apresentação de um grupo, seja de dança popular, folguedos, o próprio circo, encontra elementos muito específicos de cada um, mas descobrirá num olhar mais macro que ali se apresentam ramificações das mesmas raízes. Cada um do seu jeito, provoca emoções na platéia. Alguns fazem do espectador o próprio artista em alguns momentos do espetáculo. O riso, o olhar no olho, o contato corporal, a farsa, os movimentos corporais, a encenação, enfim, esses e outros argumentos utilizados pelos artistas aparecem em muitas manifestações culturais de origem popular.
Agora nos reportemos a uma comunidade imaginária, na qual a sua produção cultural é realizada pelos próprios moradores. Festas religiosas, cantigas de trabalho seja no mar, na lavoura, andanças noturnas com seus folguedos seculares. São homens, mulheres, crianças, jovens e adultos, todos interagindo. Nessa comunidade, uma escola para pouco mais de trinta crianças estudando sob um pé de araçá de cinco décadas de vida.
Quando chove, as aulas são dadas dentro do posto de saúde. Nele, trabalham um enfermeiro e uma enfermeira. Ele, tocador da caixa do Divino Espírito Santo, festa religiosa na comunidade; ela segura a bandeira na dança do Cacumbi, uma dança negra de marujos e capitão, um conflito da prisão versus liberdade. O médico aparece uma vez por semana. Vem de longe e só trabalha no período da manhã. Faz todos os procedimentos necessários e possíveis e orienta o que fazer na sua ausência.
Nesse posto de saúde, a vida tem seu espaço garantido. As máscaras utilizadas nas manifestações populares pelo enfermeiro e pela enfermeira, neste momento, são invisíveis, porém, permanece a identidade construída no folguedo. Apertam a mão de quem chega olhando nos olhos. Fazem daquele espaço sua casa, cuidando como se fosse seu local de ensaio. A música de um gravador, como um “ninho de baratas” dentro dele, é maravilhosa. As conversas puxadas enquanto os pacientes esperam sua vez de serem chamados fazem o tempo correr, ao mesmo tempo em que ficam sabendo um pouco mais da vida de cada um.
Não acredito que os profissionais da saúde tenham que, a partir de agora, começar a se envolver com danças, folguedos, enfim, as manifestações que citei e outras dessa imensidão de valores culturais desse imenso País. Entretanto, acredito que a distância dessas formas de viver o mundo (as festas, as danças, etc.) para aqueles que vivem o dia-a -dia da saúde nem sempre foi assim. Pare e tente lembrar de uma canção, uma brincadeira, uma festa popular que marcou sua vida. Talvez você encontre motivos de sobra para retirar lá do fundo do baú experiências que de uma maneira ou de outra contribuíram para sua construção humana.
Experiências que florescem pelos quatro cantos deste País nos dizem, que mais do que “é hora de mudar”, falam abertamente que as coisas “estão mudando”.
Em Florianópolis, acontece um trabalho junto a crianças portadoras do HIV, realizado por palhaços e palhaças dentro de hospitais. Em Pernambuco, em convênio com uma ONG norte-americana (Fundação McArthur ) e a Universidade de Pernambuco, médicos, psicólogos e educadores realizam o que eles chamam de “Saúde, Reprodução e Cultura Popular no Agreste Pernambucano”. Trata-se de um trabalho de conscientização sobre o uso da camisinha, utilizando o Bumba –Meu –Boi como mediador.
Em artigo da Folha de São Paulo, o diretor do hospital Dom Moura, em Garanhuns, ( 270km de Recife) diz que “A alegria levada pelo grupo é o melhor remédio (...) Os doentes entendem que é importante ter cuidados. Além disso , a felicidade ajuda a curar.” Já o médico do grupo, Valença, não se conteve, ao declara que “Foi a coisa mais emocionante de minha vida. As pessoas choravam. Foi uma emoção fortíssima em um ambiente de dor”.
Algum dia alguém me disse que colocar esses folguedos populares dentro de um posto de saúde poderia atrapalhar toda a sua organização. Questão de método e de propostas. E, por favor, que não sejam idéias arquivadas pela impossibilidade de serem realizadas pelos profissionais da saúde. A estratégia tem que ser buscada. Talvez um bom indicador seria a identificação na comunidade dos focos de práticas culturais e de seus atores. Volta aqui a questão do diálogo, fundamental para a apreensão da realidade referente à identidade cultural daquele ambiente de trabalho, daquela comunidade.
Analisando com um pouco mais de clareza, descobrimos que a questão do diálogo em qualquer trabalho, principalmente popular, é de vital importância para seu êxito. Se vivemos dentro de uma estrutura que a oralidade é predominante, então a fala será, e é, nossa melhor estratégia de ação. Ação esta que vise a transformar com responsabilidade, com respeito, com carinho. Transformar, presente no ato da transformação.
Parece que faço voltas, mas não parece, faço. Disse essas coisas, pois acredito que a oficina que ministrei no curso "Diálogos com a vida" confirmou minha relação com o mundo.
Não acredito em trabalho popular sem olhar no olho, sem um sorriso de cumprimento, sem a proposta de toque. É frio. Peço forças para essas energias que nos rodeiam e a cada dia nomeiam, para continuar acesa essa chama dentro das pessoas, dentro de cada um de nós. As orações servem apenas quando a prática precede o pedido .
Uma Noite na fila
Nado
Na pancada do pandeiro
Feito de lata e couro
O corpo inteiro
Vai chegando gente
São velhos, moços, moças
Crianças , todos presentes
Se fosse combinado
Não vinha tanta gente
Dizia seu Rodoaldo
II
"Escutei lá do lajão
Era som de pandeiro
Ganzá e surdão”
Não, não, não. É o nada não.
Aquilo tudo foi ficando bonito
Não paravam de fazer
Uma fogueira, um ovo frito
Veio seu Sebastião
Com uma bruta dor nas costas
Ele e o violão
III
Seu Amorim era só alegria
De um lado para o outro com a espada
Com Cacumbi ele mexia
Era uma noite fria
O sereno caía
Cobertor se abria
O encontro teve sono
A calçada o trono
Deitar não
Ficou aquela enorme fileira
Um atrás do outro
A noite inteira
IV
Tinha muita gente ali
Cantava ele, o capitão do Cacumbi
"Bom dia Maria do céu
Bom dia Maria do céu
Senhora do mundo Maria da Glória
Bom dia Maria do céu"
V
Era aquele momento único
Compreensão, paz
Do lúdico dentro do público
De gente querendo mais
Como que magia
Abaixo de muito café
Surge o dia
Uma porta de ferro é aberta
"Seu dono da casa"
A festa agora é coberta
VI
Tanto tempo acordado
Agora de papel na mão
Melhor aguardar calado
VII
Era urina, fezes e sangue
A cidade quer o médico
Mas o governo quer que pague
"Mas pagar o que já pagamos"
Diz mestre Agostinho
Tocando seus desenganos
E o tempo vai correndo
A fila de pessoas
Aos poucos, vai morrendo.
Bibliografia
ANDRADE, Mário de, 1893-1945. Namoros com a Medicina: 4 ª edição. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia, 1980. 130 p.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A Cultura na Rua. Campinas- S.P., Papirus, 1989
FREIRE, Paulo. Ação Cultural para a Liberdade. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976
SCHELLING, Vivian. A Presença do Povo na Cultura Brasileira: Ensaio Sobre o Pensamento de Mário de Andrade e Paulo Freire. Campinas- SP: Editora da Unicamp, 1990
THOMPSON, Paul. A Voz do passado: História oral; tradução de Lólio Lourenço de Oliveira. – Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1992
Reonaldo, voce tem razão fica aí resumido ao corpo dirigente do Overmundo:
a) pensar, ir nos patrocinadores e botar pra pensarem numa versão em braile, concomitante:
Pra você.
a) Eu desdobraria a poesia e a publicava noutra postagem acho que ainda dar tempo. Um trabalho de fôlego, não pode ser ofuscada por um trabalho inteligente também, mas de outra conotação. A poesia no Caderno de Cultura. um abraço,
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