O fazer está imbuÃdo de representações que nos são caras. Em tudo que tocamos reforça o nosso desejo em viver, buscando orientações daquilo que nos cabe, percebendo que energias nos fazem aproximar ou não de alguém ou alguma coisa. Saber o que nos move, o que nos movimenta, é fundamental para que essa alteridade entre os seres se efetive em ato. Nada mais justo do que sair do urbano e perceber que há vida na periferia. Nenhuma novidade para os que lêem jornal escrito, para os que assistem à televisão, ou que participam, de uma forma ou de outra, da vida existente na periferia das cidades.
Imperatriz, segunda cidade no Maranhão em população, foi uma das primeiras a serem contempladas com um Ponto de Cultura.
Executado em Imperatriz desde novembro de 2005, o Projeto Ponto de Cultura “Folguedos Boi Valente†é fruto de uma parceria do Instituto Sinergia com o grupo de dança popular Boi Valente, financiado pelo Ministério da Cultura, através do Programa Cultura Viva. O projeto oferece oficinas culturais a adolescentes e jovens da Região do Grande Santa Rita. Dentre as atividades do projeto têm-se as Caravanas Culturais: apresentação das produções do ponto para a comunidade.
Via de regra, as caravanas constam de dança do Cacuriá e do bumba-meu-boi; participação de outros grupos como o Kizomba (danças populares), Quadrilha do Zé Comeu e Lindô da Dona Francisca - danças caracterÃsticas de parte do estado do Maranhão -, bem como de atividades lúdicas, como cantigas de roda, pula-corda, pintura, leitura e jogos com bola, como pelada de várzea e queimada.
Nada mais justo, não só como contrapartida do financiamento, mas também como mecanismo em disponibilizar à comunidade a outra face do espelho. Em uma cidade que carece de espaços de cultura e de cidadania, com altos Ãndices de analfabetismo, pobreza que assola – não estou sendo dramático, acreditem – é inegável o sorriso estampado nas crianças por onde a caravana passa. E não é a bolacha de água e sal e o refrigerante local, que chamam de "espoca-bucho", que faz a alegria das crianças, mas sim o desejo de pegar na bola, e no tecido que parece tenda de circo. Joana e Rita são irmãs, e nunca viram um circo de verdade, e gritam "olha o circo, olha o circo", quando teimam em não deixar a bola cair de sobre o tecido colorido.
Quando o estado se faz presente é quando fica mais perceptÃvel a sua ausência. Nice Rejane, coordenadora do Sinergia, reforça essa presença/ausência do poder público quando diz que "a participação governamental é adequada, na mediada em que democratiza os recursos a projetos executados em cidades do interior, de difÃcil acesso a tudo".
Por mais que essas atividades sejam pontuais, a representatividade dessas ações está além do instante em que se mostram. E não é a constância dessas caravanas nesses locais – provavelmente elas não passem novamente pelo mesmo caminho piçarrado – que vai fazer com que percam importância e qualidade. Quando percebemos nosso reflexo, refletimos sobre nossa vida, sobre o nosso fazer. E refletir é um dos caminhos para a mudança, quer seja individual quer coletiva. Quando lia a proposta das caravanas, não percebia esse caráter, essa abrangência. Depois que constatei, através de acompanhamento para registro, de algumas delas, pude perceber o que retrato agora: meus olhos exigentes do concreto, deixaram de ver que as pequenas ações são determinantes para um processo se iniciar, e sem retorno possÃvel.
Adorei, Marconcine! Meus parabéns.
Luciana
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