Uma antiga boneca sem braço ou um carrinho sem roda são o que poderíamos chamar de um brinquedo que já não nos serve, mas existe algo que nos faz manter estes e muitos outros objetos guardados em algum lugar. Estes representam para nós o nosso Museu Particular, pois neste caso, não é a função primeira do objeto que nos importa. Muitas vezes estes perderam a sua função de origem, mas olhando para eles fica mais fácil se chegar a algo que queremos guardar: as lembranças do nosso passado.
A importância de se lembrar do passado é inquestionável, pois é nele que se encontra acumulada tudo o que o indivíduo passou no decorrer de seus anos. Aprendizados, lições, experiências. A junção de tudo isso nos torna o que somos hoje: indivíduos únicos, pois cada um seleciona suas memórias de acordo com suas convenções, omitimos ao máximo as desagradáveis e fazemos de tudo para lembrarmos e repassarmos as boas. É nestes momentos que guardamos um objeto que acaba recebendo a nomenclatura de "lembranças", pois em si ele significa quase nada, mas nos remete a momentos muito importantes atuando como uma ponte entre o momento presente e um momento importante de nosso passado.
Mas estes objetos não existem apenas na nossa vida enquanto indivíduos. Podemos encontrá-los em formas bem mais ampliadas não só no tamanho, mas na sua área de abrangência porque representa a memória de um coletivo, é o caso dos museus, e de nosso Patrimônio Cultural, por exemplo.
No caso dos Museus é comum se ouvir a conceituação de que "é um lugar onde se guardam coisas velhas", mas este conceito não estaria tão dissociado com o que de fato representam os museus se o termo "velho" não viesse com significado de "sem utilidade". O conceito de Museu é bem mais amplo do que de fato é reproduzido, pois o mesmo não é apenas "um lugar onde se guardam coisas antigas" e nem se limita apenas a um espaço físico que foi criado especificamente para isso.
Assim, o Patrimônio Cultural coletivo não se encontra apenas em uma exposição e sim em diversos ambientes, já que ele pode ter várias formas que nem sempre foram feitas para os fins a que se propõem naquele determinado momento. Um índio, por exemplo, nunca pensou em ver o seu arco e flecha e muito menos a sua casa no Museu Sacaca, assim como um ribeirinho não sabia que seus utensílios diários estariam em exposições na Europa e os construtores e trabalhadores de nosso Mercado Central não imaginavam que um local onde alguns mercadores, interioranos ou não, seria hoje um monumento que nos trouxesse tantas lembranças para o coletivo. Por isso o termo "resgatar nossa história" é muito estranho aos ouvidos dos Historiadores. O que temos são representações de nosso passado, que nunca volta.
Este tipo de patrimônio, portanto, deve ser mantido não como uma simples construção que está atrapalhando o "progresso" de nossa cidade e sim como mais uma obra que ajudará a nós e a nossa posteridade a compreender melhor nossa história. Sabemos, através de fotos e relatos, que Macapá já teve bastante casas e instalações antigas da época da construção da Fortaleza, mas estas foram quase todas destruídas antes mesmo que houvesse um pouco mais de consciência coletiva no que diz respeito à preservação de nossa história que, pra ser estudada, necessita também de monumentos como estes.
O Mercado Central se constitui em um riquíssimo Patrimônio para o povo do Amapá, pois não somente representa uma fonte para estudos arquitetônicos, mas, principalmente, por ter sido um local onde aglutinou e aglutina uma riquíssima diversidade de identidades amapaenses. Não se pode simplesmente deixar de lado tamanha construção para que se atenda a objetivos estritamente comerciais. Existem diversas maneiras de se valorizar uma obra como esta sem sacrificar a nossa memória. Seria o caso de uma estruturação em forma de galeria, por exemplo. É claro que temos como objetivo primeiro que tomar atitudes visando a não destruição do Mercado Central, mas seria o caso de pensarmos em o que fazer com ele. Não é necessário que ele seja sempre um mercado. Temos que olhar pelo ponto de vista dos trabalhadores que ali se concentram e seria razoável, como outra proposta, que eles fossem deslocados para um local estruturado enquanto se fizessem daquele espaço um descente Museu Histórico para a nossa cidade. Digo isso com muitas restrições, pois não é fácil ser despejado de um local onde se retirou o sustento de sua família por anos e anos.
Se observarmos aquelas imediações constataremos que existem construções que estão dentro da Planta original da Fortaleza de São José de Macapá que, por se tratar de nada mais do que o Banco do Brasil, dificilmente será derrubada. Será que não seria o caso, já que se precisa de um espaço na frente da cidade, dos senhores parlamentares e prefeitura interessadoos verificarem tal informação e não enviar os trabalhadores e parte de nossa história Mar Abaixo?
ESTE TEXTO FAZ PARTE DE UMA CAMPANHA LEVANTADA A PARTIR DA MANIFESTAÇÃO DE ALGUNS MEMBROS DA CÂMARA MUNICIPAL DE MACAPÁ PELA DERRUBADA DE UM ANTIGO MERCADO DE NOSSA CIDADE.
O local é, sem dúvida, privilegiado. Primeiro pela sua localização, depois pela sua importância história. Existe ali, muitos interesses de empreendedores capitalistas que querem o espaço para seus grandes projetos, podendo assim, correr o risco de reinvidicarem a eliminação da arquitetura original do mercado. Creio que aqueles trabalhadores que ganham a vida naquele local, e que estão lá desde muito tempo devem permanecer. O que poderia ser feito seria, por exemplo, que o governo e prefeitura melhorasse as condições de trabalho daqueles trabalhadores, padronizando as barracas, e organizando melhor o espaço. O Mercado Central, como bem detalhou o nosso querido Zab, conta um pedaço de nossa história, e deve ser prezervado.
Adriano · Macapá, AP 25/3/2007 15:46Para comentar é preciso estar logado no site. Faa primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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